Imagens das páginas
PDF
ePub

Sá de Miranda foi mandado para Lisboa estudar na faculdade de Leis da Universidade «obedecendo a seu pae que lh'a escolhera.» (1) O joven provinciano costumado á soltura dos campos, cujo caracter severo se revelou mais tarde na predilecção pela caça dos lobos, a custo se vergou ao mandado paterno, opprimido pelo pezo do Infortiato, e pela tortuosidade das Leis. Já inclinado á poesia, essa qualidade distincta da sua nobreza o tornou digno de frequentar a côrte de Dom Manoel, aonde admirou os bellos improvisos, os motes, as esparsas, as decimas galantes com que se matava o tempo nos esplendidos serões do paço. Aí já haviam abrilhantado o nome de Sá, o trovador Anrique de Saa, (2) pae do afamado João Roiz de Sá, que primeir、 traduziu em portuguez algumas Epistolas de Oviaio. (3) Antes de 1516 sabemos que já era intitulado Doutor, por isso que no Cancioneiro geral, colligido por Garcia de Resende, se encontram varias glosas e cantigas de Sá de Miranda com a rubrica: «Do Doutor Francisco de Saa, grosando esta cantigua de Jorge Manrrique» (4) A este tempo contava vinte e um annos de edade, e é de crêr que ficasse na Universidade professando as disciplinas que cursara, como diz D. Gonçalo Coutinho, que recolheu as memorias da sua familia e dos contemporaneos: «tomou o grau de Doutor e leo varias cadeiras d'aquella faculdade. »

(1) D. Gonçalo Coutinho, Vida.
(2) Canc. geral, fl. 110, à 114.
(3) Ibid. fl. 115 a 127.

Fol. 109, col. 1.

Em geral os nossos poetas eram jurisconsultos; bem dizia Ferreira, tambem doutor e poeta:

Não fazem damno ás musas os doutores,
Antes ajuda a suas letras dão.

Sá de Miranda, Gil Vicente, Camões, Ferreira, Gabriel Pereira de Castro, Soropita e muitos outros cursaram a Universidade. Foi pela aliança do Direito e da Litteratura que a eschola de Cujacio floresceu de um modo inexcedivel, ainda não ultrapassada pela moderna eschola historica da Allemanha. (1) Foi tambem pela sua cultura litteraria que Blackestone pode commentar as leis da Inglaterra. A incapacidade dos nossos juristas provém de serem analphabetos em cousas alheias á sua praxe. A litteratura é o primeiro passo para ser bom philosopho e melhor jurista. Philologia e philosophia eis o grande criterio de toda a sciencia, como descobriu Vico.

Sá de Miranda frequentava a côrte de Dom Manoel e tomava parte nos certâmes poeticos; admirava a graça das glosas de Dom João de Menezes, que tanto abrilhantara a passada côrte de Dom João II, e na sua ausencia de Lisboa, lembra-se d'esse tempo com saudade. N'este periodo estava no esplendor do seu talento o poeta dramatico Gil Vicente; relações litterarias de

(1) De nos jours, chez le même peuple (les Allemands) l'École historique a relevé les autels de Cujas. Michelet, Introd. à l'Hist. Univers. p. 216, ed. de 1843.

Så de Miranda com este poeta não se conhecem; apenas vagas allusões ditadas pelo espirito classico, parecem condemnar os Autos hieraticos do dramaturgo popular, no Prologo dos Estrangeiros, e na estrophe de uma Carta escripta a Antonio Pereira Marramaque, que saia de Basto para ir viver em Lisboa:

Que troca vêr la Pasquinos
D'esta terra cento a cento,
Quem o vê sem sentimento
Tratar os livros divinos
Com tal desacatamento. (1)

Durante a sua residencia na côrte, Sá de Miranda teve relações com o mavioso poeta Bernardim Ribeiro, que tambem trovava nos serões do paço, como se vê pelos versos que traz o Cancioneiro geral; (2) e de Bernardim Ribeiro parece ter recebido a inspiração do bucolismo. As primeiras glosas e cantigas de Sá de Miranda são no gosto então usado na côrte, cujos saraos gosavam fama europêa, excedendo a pompa e sumptuosidade dos que se davam na côrte do papa Leão x. Quando as tristezas do Santo Officio se espalharam em Portugal, e o poeta vivia retirado na provincia, ainda se lembrava com saudade d'esse esplendor:

Os momos, os serões de Portugal
Tam falados no mundo, onde sam idos,
E as graças temperadas do seu sal?
Dos motes o primor, e altos sentidos,

(1) Carta n, est. 33.

Fol. 211, a 212.

Os ditos avisados, cortesãos,

Que he d'elles, quem lhes dá somente ouvidos?
Mas deixemos ora ir queixumes vãos,

Assi faz sempre, assi sempre será,

Trocam-se os tempos, fogem d'antre as mãos. (1)

Quando Sá de Miranda veiu frequentar a côrte, já os celebres e afamados motes de D. João de Menezes haviam alegrado as damas e encendido o enthusiasmo dos outros aulicos; a esse estimulò confessa o poeta o ter composto muitos dos seus retornellos e esparsas:

Porem oh bom Dom João, o de Menezes

E oh Dom Manoel, que taes tempos lograstes,
Dous Condes nos amores tão cortezes,
Que com tanto louvor aqui cantastes
E com tal voz, que ainda eu alcancey
Os derradeiros eccos que deixastes.
Depois, de fóra parte aqui escutey
E ouvi cantares, foram elles taes
Que eu transportado os meus cantey. (2)

Podemos asseverar que Dom João de Menezes ainda vivia em 1513, por isso que existe. um vilancete com este titulo: « De Dom João de Menezes, no tempo que esteve em Azamor, antes de se finar.» (3) Seria por este tempo que Sá de Miranda frequentou a corte portugueza, não só por se lembrar de ter ouvido os derradeiros eccos d'aquelle poeta, como tambem por se acharem versos seus no Cancioneiro de Resende, cuja col

(1) Cart. iv, fol. 124, ed. 1614.

(2) Obras, fol. 124, v. ed. 1614. Os primeiros trez versos são a versão de 1595.

(3) Canc. geral, fol. 18, col. 3.

leccionação começaria pelo menos em 1514, alguns annos antes de se terminar a impressão feita em 1516.

Dom João de Menezes foi um dos mais afamados trovadores da côrte de Dom João II; era filho do Conde de Viana Dom Duarte de Menezes.

Ignora-se a data do seu nascimento, que foi em Lisboa. A sua fama como poeta era tam grande, que quando Francisco de Sá de Miranda veiu frequentar a côrte, ainda lá se repetiam as suas canções. No livro Ix De Rebus Emanuelis, Jeronymo Osorio confirma esta asserção, `dando-o como insigne na poesia; e Jorge Ferreira de Vasconcellos na Aulegraphia, louva-o por vezes collocando-o acima dos poetas da eschola italiana.

Foi mordomo-mor de Dom João II e de Dom Manoel, primeiro conde de Tarouca, e septimo governador, capitão e general de Tanger, aonde militou largos annos. Em 1483, quando se debateu nos serões do paço a questão amorosa do Cuydar e Suspirar, era já de avançada edade, por isso lá diz que está com os pés para a cova; em uma d'essas coplas se dóe de The lembrarem amores passados. Algumas das suas coplas são escriptas em hespanhol, imitando o gosto e a linguagem de João de Mena, Rodrigues del Padron e Stuniga; outras são escriptas em portuguez, lembrando de vez em quando os amores e as canções do trovador galeziano Mancias el Enamorado. Dom João de Menezes glosava os motes appresentados pelas damas do paço, nas duas linguas, com o chiste e facilidade que lhe deram tanta nomeada. Eram esses os Motes dos serões de

« AnteriorContinuar »