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The alguem escrevesse até que acabou de todo.» (1) Sá de Miranda sobreviveu a el-rei Dom João III, que sempre o estimou como talento e como caracter; iam-no as suas affeições abandonando, e tornando alheio a esta vida. A decadencia da nação era visivel; em volta do berço de uma debil criança, debatia-se a regencia de uma mulher com todas as ambições da politica hespanhola, e com a avidez do poder que assaltara o partido monachal. Grandes fomes, pestes quasi periodicas, e um desalento geral, explicam o estado em que ficou Sá de Miranda, como nol-o pinta o seu biographo, morrendo no anno de 1558 com sessenta e trez annos de edade. Foi sepultado ao lado de sua mulher na capella de Santa Margarida na egreja de Sam Martinho de Carrezedo, no arcebispado de Braga, aonde tambem jazem seus cunhados. Sobreviveu-lhe seu filho Jeronymo de Sá, «de quem se diz que foi extremado na arte de musica, » o qual casou com Dona Maria de Menezes, tendo um filho chamado Francisco de Sá, de Menezes; houve d'este casa

(1) Eis o admiravel soneto á morte de sua mulher:

Aquelle espirito já tão bem pagado
Como elle merecia, claro e puro,
Deixou de boa vontade o valle escuro,
De tudo o que cá viu, como anojado.

Aquelle espirito, que do mar irado
D'esta vida mortal posto em seguro,
Da gloria que lá tem de herdade e juro
Cá nos deixou o caminho abalisado.

mento uma filha que casou com um fidalgo de Gallizá, Dom Fernando Correa Sotomayor, que no dote de sua mulher quiz que entrasse o manuscripto original das poesias de Sá de Miranda.

Com o desenvolvimento da eschola italiana, o nome de Sá de Miranda continuou a ser citado com admiração, e só em 1595 é que foram pela primeira vez impressas as suas poesias, tendo-o já sido anteriormente suas comedias. Dom Gonçalo Coutinho por este tempo, e talvez despertado pela publicação das poesias, recolheu da tradição oral de Diogo Bernardes, e da familia do poeta, os factos com que teceu a biographia que publicou na edição de 1614.

D'este estudo da vida intima de Sá de Miranda se vê, que elle é um dos caracteres mais sympathicos dos nossos Quinhentistas, e um exemplar da alma verdadeiramente portugueza.

No seculo XVI os symptomas de decadencia de Portugal eram evidentes; pela parte da realeza, vemos a exageração fanatica extinguindo-a pelo rachytismo; pe

Alma aqui vinda n'esta nossa edade
De ferro, que tornaste á antiga d'ouro,
Em quanto cá regeste a humanidade;

Em chegando, ajuntastes tal thesouro
Que para sempre dura; ah vaidade,
Ricas areias d'este Tejo e Douro.

Este soneto falta na primeira edição de 1595, e só appareceu na de 1614, e nas que sobre esta se fizeram.

la parte do clero, vemos a intollerancia religiosa regosijando-se em volta das fogueiras como em um sabbath nocturno com que estavam chamando a usurpação hespanhola; pela parte da nobreza, temos o exemplo de D. Martinho do Castello Branco, segundo Conde de Villa Nova de Portimão, requerendo o privilegio exclusivo para fundar um prostibulo em seu condado, ficando o rendimento privativo da sua casa e dos seus sucessores. (1) Que era o povo no meio d'estes trez elementos dissolventes? o genio dos mosarabes atrophiou-se, per...deu a consciencia de si, entregou-se a todas as explorações do despotismo e da intollerancia. N'este seculo podre o espirito desvaira, não tem aonde se acolher; o vulto de Sá de Miranda parece-nos então o unico templo aonde se asylou a noção do dever e da justiça. Este sentimento levou para elle as boas almas que ainda se doíam no meio da necrópole da corrupção; hoje o estudo da sua vida leva-nos tambem a sentir por elle o mesmo respeito que o tornou amado e admirado. (2)

(1) Lopes de Mendonça, Damião de Goes e a Inquisição; Rodrigues Felner, Noticia preliminar ás Lendas da India, de Gaspar Correa.

(2) No quadro chronologico que se segue, compendiamos o resultado da nossa discussão e descobertas sobre a Vida de Sá de Miranda. Cumpre notar, que sómente as datas 1595, 1555, e 1558 eram conhecidas; todas as outras foram determinadas pelos nossos processos inductivos.

Restituição das principaes epocas da vida de SÅ DE MIRANDA

ANNO

FACTO

1495 Nasce em Coimbra, a 24 de Outubro.
1505 Reside em Coimbra, no tempo da aber-
tura do tumulo de D. Affonso Hen-
riques.

1513 Frequenta a côrte de Dom Manoel em
Lisboa, aonde viu D. João de Me-

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1521 Viagem á Italia, quando começou a

guerra entre Carlos v e Francisco I.

1526 Regressa a Portugal, reinando Dom João III, havia alguns annos já.

1527 Reside em Coimbra, aonde faz o Discurso da recepção a Dom João III, que fugiu com a côrte, da peste.

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Carta a D. Fernando de Menezes;
Ecloga п, de Bernardim Ribeiro
Diallogos ás Damas, pelos dois poc-

tas.

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p. 19

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Rubrica do Cancioneiro geral, f. 109, col. 1.- Vida, por D. Gonçalo Coutinho.

Carta a D. Fernando de Menezes.

Ecloga Salicio, à morte de Garcilasso,
aonde cita João Rucellai e Lactan-
cio Tolomei.

Oração ao rei Dom João 1 e Rainha D. Catherina na cidade de Coimbra, que fez Francisco de Saa, no anno -de 1527.- Carta a Pero Carvalho.

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ANNO

FACTO

FUNDAMENTO

1527 Escreve a Comedia dos Estrangeiros, Prologo da Comedia Estrangeiros.

em que se refere ás guerras de Car-
los ve Francisco e á peste.
1532 Escreve a Ecloga Andres, causa do
seu ostracismo da côrte.
1534 Deixa a vida da côrte, e retira-se pa-
ra o Minho, para a Commenda das
Duas Egrejas.

1535 Reside em Basto na Quinta da Bar-
roca, do seu amigo Antonio Perei-
ra Marramaque.
1536 Casa com D. Briolanja de Azevedo,
da casa dos Machados de Azevedo,
e vem residir na Quinta da Tapa-
da.

1538 Escreve a comedia dos Vilhalpan-
dos.

1545 O Infante Cardeal Dom Henrique
pede-lhe as suas Comedias para as
mandar representar.
1553 Morre em Ceuta seu filho Gonçalo
Mendes de Sá, combatendo contra
os mouros de Tetuão.

Vida, por D. Gonçalo Coutinho.

Vida por D. Gonçalo Coutinho. -
Elegia á morte do Principe Dom
João.

Carta, a Antonio Pereira, Senhor de
Basto.

Vida, por D. Gonçalo Coutinho.-
Vida de Manoel Machado de Azeve-
do, pelo Marquez de Montebello,

cap. VIII.

Prologo dos Vilhalpandos, em que al-
lude ao Cerco de Diu, em 1537.

Dedicatoria, em que intitula o Infan-
te Cardeal, que só o foi depois de
1545.

Carta de Antonio Ferreira.

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Elegia Supra, p. 122.

de Sá de Miranda em resposta.Vida, por Dom Gonçalo Coutinho.

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