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cter integro de Sá de Miranda, e pela intenção pura da sua obra, o tornou centro da nova phase da poesia lyrica que, a contar do segundo quartel do seculo XVI até aos primeiros clarões do Romantismo, prevaleceu em Portugal.

CAPITULO I

Luctas da introducção da Eschola italiana

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A Renascença italiana adoptada em França, Inglaterra, e Hespanha. Navagero incita Boscan a imitar os novos metros. Castillejo e Gregorio Silvestre. — Volta de Sá de Miranda da Italia, aonde recebeu a direcção artistica de João Rucellai e Lactancio Tolomei. - Funda a Eschola italiana em Portugal. Defeza da eschola italiana similhante á de Boscan. O metro endecasyllabo usado pelos Provençaes. Apparecimento do Cancioneiro de Dom Diniz em Roma. Seu valor na questão dos novos metros. Ferreira é para Sá de Miranda o mesmo que Garcilasso para Boscan. -Ferreira desenvolve a questão da eschola italiana, e faz um manifesto similhante ao de Du Bellay em França. — Bernardes associa-se á nova pleiada. Camões é guerreado. — Bernardes não o ennumera entre os novos poetas. Projecto de um Cancioneiro quinhentista por Bernardes.

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Conta-se de Archimedes, que estava todo enlevado na contemplação dos problemas da alta mathematica, quando foi tomada Syracusa e um soldado romano o assassinou. É esta a imagem verdadeira da actividade artistica da Italia, a contar do seculo XV; os exercitos francezes de Carlos VIII entravam em Milão, e os philosophos discutiam o idealismo platonico, os pintores não sentiam o ruido das armas nem se perturbavam na realisação da eterna belleza, os eruditos recolhiam os venerandos pergaminhos das litteraturas antigas, os Aldos levavam a typographia a uma correcção ainda hoje não excedida. O genio italiano acceitava o despotismo estrangeiro; e refugiava-se no mundo da Arte, inaccessivel para todo o resto da Europa.

Quasi sem desembainhar a espada, Carlos VIII viuse senhor de Napoles e de grande parte de Florença; a nacionalidade italiana estava politicamente morta, sem resistencia; mas o estrangeiro que retalhava o coração da Italia, conhecia que estava recebendo um sangue puro e novo para adoçar a sua barbaridade. Vencida pelas armas, anullada politicamente, a Italia assombrava pela grandeza das suas creações, revivia na alma dos outros povos, dominava, prendia á imitação das suas maravilhas a intelligencia d'aquelles que a derrubavam. O que aqui se dá com a Arte, deu-se em Roma com as Leis.

Carlos VIII attraíu os sabios e os artistas que acordaram em França as primeiras harmonias da Renascença. Com a invasão de Luiz XII, e depois de tomada Milão, a França enriqueceu-se com as bibliothecas de Italia, e apparece então a primeira pleiada dos poetas anteriores a Marot, que se inspiraram do lyrismo italiano.

Começam as peregrinações a esse grande centro da actividade intellectual e sentimental, e a Europa corre ás ruinas d'essa segunda Grecia para se apoderar de tantos monumentos. Francisco I imita nos seus folguedos a vida italiana, tendo sido educado por um pedagogo italiano Luizziano Stoa. Nas côrtes da Europa, dansava-se a pavana, dança privativa de Padua, citada por Jorge Ferreira; (1) imitavam-se os contos de Boccació, representavam-se as comedias, e convidam-se os gran

(1) Historia do Theatro Portuguez, t. 11, p. 48.

des artistas e architectos para construirem e ornarem os palacios, ao modo de Roma, como os de Veneza, e Florença. Francisco I inscreve-se como cidadão no Livro d'Ouro de Veneza. (1) O protectorado artistico dos Gonzagas, dos Malatesta, dos Medicis é imitado por todos os reis, que mandam á Italia convidar os artistas e eruditos, dando-lhes grossos presentes e offerecendo-lhes o asylo das suas côrtes. Rubens tambem foi convidado para Portugal. Os reis, n'este seu desejo de rocolherem a tradição da arte, diffundida da Itatia, tornaramse tambem poetas: Francisco 1, Henrique VIII, Maria Stuart, Isabel, escreviam versos petrarchistas; em Portugal o Infante Dom Luiz tambem adoptara os metros italianos, e a Infanta Dona Maria fundava uma Academia de mulheres. Foi em França que primeiro se sentiu a acção da Renascença da Italia, em consequencia das invasões successivas e da occupação militar.

A corrente do enthusiasmo passou tambem a Inglaterra, mas vagarosamente. Depois de França, a Hespanha e ao mesmo tempo Portugal abraçaram a nova civilisação que os desastres da guerra lhes revelavam: assim insensivelmente à litteratura caminhava para uma unidade que deixava em relevo a homogeneidade da grande raça latina. Como saxão, o genio inglez não abraçou logo a Renascença italiana. A Inglaterra não tomou parte nas luctas da casa de Valois e da Casa de

(1) Rathery, Influence de l'Italie sur les Lettres françaises, p. 65.

Austria sobre o solo da Italia; separou-se da dependencia espiritual de Roma, ficou entregue á sua hombridade saxonia. Foi sómente pela imitação faustosa da côrte e da aristocracia, que a Renascença penetrou na Inglaterra; Henrique VIII tentou attrair para Inglaterra Ticiano e Raphael por emulação de Francisco I, que tinha estreita amisade com Primatice e Benvenuto Cellini. A architectura italiana tornou-se official em Inglaterra depois de 1544, e as villas substituiram os castellos feudaes. Em Poesia, appareceu na côrte de Henrique VIII Thomas Wyat e o Conde de Sarrey, que imitaram o lyrismo italiano; viajaram pela Italia, do mesmo modo que Sá de Miranda, e aí tomaram conhecimento da poesía de Dante, de Petrarcha e de Ariosto. Puttenhem considerava-os coino os primeiros reformadores do estylo e metro inglez. Até aqui dava-se a imitação como uma consequencia fatal, uma fascinação irresistivel.

Em França a lucta começou com a reacção de Ronsard e de Du Bellay contra a eschola de Marot; em Inglaterra a contra-revolução classica deu-se no reinado de Isabel. Gower, soffria os mesmos assaltos a que ficara exposto Marot; os euphuistas proclamaram a infallibilidade das obras gregas e romanas; do mesmo modo que a eschola de Ronsard, os euphuistas crearam tambem uma lingua sua, original e pittoresca para substituir a linguagem vulgar. Lyli foi o Ronsard da Inglaterra, e Fhilippe Sidney o seu Du Bellay. (1) No meio

(1) François Victor Hugo, Sonets de Shakespeare, p.6.

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