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ro de Andrade Caminha tambem lhe mandou uma Ecloga, escrevendo-lhe:

Não ousaram até agora apparecer
Estes versos, de si desconfiados,
Porque de mal compostos e ordenados
Assás têm porque devam de temer.

Vão-vos pedir, senhor, que os queiraes ver,
E riscar e emendar, porque emendados
Por vós, possam andar mais confiados,
Do que por meus poderam merecer.

Diogo Bernardes quando o ia vêr no tempo em que ainda estava na sua patria, em Ponte de Lima, Så de Miranda recebia-o com afabilidade e carinho; chamava seus filhos, a quem dera uma completa educação musical, mandava-os tocar alguns tonos e romances, e assim alegrava o seu commensal com o regosijo da hospitalidade antiga. O grau de intimidade que o joven poeta teve com o venerando Sá de Miranda, conhece-se pelo muito que elle soube da sua vida, cujas tradições transmittiu a Dom Gonçalo Coutinho, que as recolheu. A primeira Carta escripta por Bernardes em tercetos á maneira italiana, foi dirigida a Sá de Miranda quando já vivia solitario e viuvo na Quinta da Tapada. Bernardes apresentou-lhe a Carta no começo do anno, como estreia na eschola nova, e com que enthusiasmo foi recebida!

De que espanto me encheu quanto ali via
E mais em parte cá tão desviada
Sempre até agora da direita estrada
De Clio, de Calliope, e Thalía.

N'essa Carta, dizia-lhe Bernardes:

O doce estylo teu tomo por guia,
Escrevo, leio e risco; vejo quantas
Vezes se engana quem de si se fia.

Se guardo teus preceitos, que te espantas
De não me conhecer, mais certo espanto
Recebe o mundo todo do que cantas.

Eu já um novo templo te levanto
Dentro na minha ideia, onde offereço
A teu immortal nome este meu canto.

Não te deram os céos graças tamanhas,
Para só as lograres, mas por seres
Bom mestre de artes boas, boas manhas.

N'esta Carta refere-se Bernardes a uma morte, que roubou todos os prazeres do velho poeta! Talvez a morte de seu filho Gonçalo Mendes de Sá em 1553, ou já a de sua mulher em 1555? O desalento com que Sá de Miranda fala do seu estado moral faz-nos propender para esta ultima, o que se confirma melhor pelo ter

ceto :

Oh que enveja vos hei a esse correr
Pola praia do Lima abaixo e arriba
Que tem tanta virtude de esquecer.

Pela occasião da morte de seu filho no desastre de Ceuta, escreveu-lhe de Coimbra Antonio Ferreira a sentida Elegia, que acima ficou citada. Foi um consolo

*

para Sá de Miranda ao vêr que a desgraça o ia desprendendo da vida, mas ao mesmo tempo se alevantava uma mocidade cheia de talento que havia de continuar a sua obra. Por um filho que lhe morria nos plainos de Africa appareciam outros, não creados de seu sangue mas formados pelo seu gosto, pelas suas ideias: Ferreira escreveu a Sá de Miranda tambem uma Carta á maneira italiana, pouco antes da morte de Dona Briolanja de de Azevedo, como se infere d'este receio, revelado na resposta á sua Elegia, e que Ferreira repete:

O tempo escuro e triste, e tempestuoso
Mal ameaça; assi viste o passado
E vês inda o porvir mais perigoso.

É admiravel o retrato de Sá de Miranda, esboçado na Carta de Ferreira com um respeito mais do que filial; por elle se formará uma ideia do modo como esse homem verdadeiramente nobre e justo era considerado:

Chamar-te-hei sempre bem aventurado.

Que tanto ha (1) que em bom porto co essas santas
Musas te estás em santo ocio apartado.

Não esperas, não temes, não te espantas;

Sempre em bom ocio, sempre em sãos cuidados,
A ti só vives lá, e a ti só cantas.

Os olhos soltos pelos verdes prados,
O pensamento livre, e nos céos posto,
Seguros passos dás e bem contados.

(1) Desde 1534 a 1557.

Trazes hua alma sempre n'um só rosto,
Nem o anno te muda, nem o dia,

Um te deixa Dezembro, um te acha Agosto.

Quam alta, quam christã philosophia,
De poucos entendida nos mostraste!
Que caminho do céo, que certa guia !

De ti fugiste, e lá de ti voaste,
Lá longe, onde teu sprito alto subindo
Achou esse alto bem que tanto amaste.

Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo
Com tua vida, e com teu doce canto,
Nova agua e novo fogo descubrindo.

Até aqui o retrato do homem moral, que pelo amor e pelo exemplo de uma vida cheia de integridade ia infundindo ideal em uma pleiada vigorosa; mas se Ferreira o adorava pelo seu caracter, não menos o admirava pela grande obra de renovação litteraria com que se formou o bello periodo quinhentista. Ninguem melhor do que Ferreira, conhecia tudo quanto se lhe devia:

N'este Mundo, por ti já claro e novo
Já uns spritos se erguem em teu lume,
Por quem eu, meu Sá, vejo e meus pés movo.

Já contra a tyrannia do costume,
Que té aqui como escravos em cadeias
Os tinha, subir tentam ao alto cume

Do teu sagrado monte, donde as veias,
D'esse licor riquissimas abriste,
De que já correm mil ribeiras cheias.

Ali teus passos, por onde subiste
A tam alta virtude, e tanta gloria,
Medindo iriam, como as tu mediste.

Inda seguindo a tua clara historia,
Que em vida de ti lemos, algum sprito
Com teu nome honraria tua menoria.

Mas ha tempos crucis! sôe meu grito
Por todo o mundo! mas ah tempos duros
Em que
não sôa bem o bom escripto. (1)

é

Por ventura referir-se-ia Ferreira no penultimo terceto á vida manuscripta por Dom Gonçalo Coutinho, que a este tempo já era amigo de Bernardes? O que certo, é termos na poesia quinhentista os unicos, mas veridicos documentos das luctas da introducção da eschola italiana em Portugal. Quando em 1553 Jorge de Monte Mór, já celebre em Hespanha pela publicação da sua Diana, veiu para Portugal em companhia da Infanta Dona Joanna, noiva do principe Dom João, tambem se dirigiu a Sá de Miranda como ao maior homem da Peninsula; na Carta que lhe escreveu, diz:

Pues entre Duero y Minno està encerrado
De Minerva el thesoro, a quien iremos?
Si no és a ti? no está bien empleado.

Sá de Miranda era amigo intimo do principe D. João, que lhe pedia os seus versos; é provavel que na côrte ouvisse Jorge de Monte Mór falar com assombro

(1) Poemas Lusitanos, t. 1, p. 98.

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