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mões vivia em Lisboa na obscuridade e na indigencia, desde 1570 até 1580, em que morreu, requerendo sempre uma regateada tença, Caminha vivia respeitado, gosando parte dos direitos reaes da exportação dos vinhos pela barra da cidade do Porto, a Alcaidaria mór de Celorico de Basto, uma tença de duzentos mil reis que lhe deixara o Duque Dom Duarte, com as suas pratas e joias, com mais sessenta mil reis de tença pelo primeiro codicilo do citado testamento do principe. Os serviços de Camões eram compensados como habilidade, com uma tença de quinze mil reis!

O principe Dom Duarte, filho do infante Duarte, e neto de Dom Manoel, aprendeu de seu pae esta protecção para os escriptores; seu pae, tambem deixou a seu mestre André de Resende uma tença de vinte mil reis de metal acompanhada de dois moios de trigo. Em 1577, em que faleceu seu filho, a moeda e os generos não soffreram grande alteração.

Por isso podemos comparativamente formar uma ideia do valor dos rendimentos de Caminha. Joaquim José Rodrigues de Brito, na v das suas Memorias politicas, (1) tratando da reducção do valor antigo das moedas ao moderno, diz com relação á tença de André de Resende: «Os vinte mil reis em metal de cada uma das duas Pensões ou tenças... valeriam hoje duzentos e quarenta mil reis.» E em nota accrescenta: «Uma das tenças referidas era acompanhada de dois mois de tri

(1) Memoria v, p. 93. §. 100. not. a.

go, que, a trezentos e vinte cinco reis o alqueire, valeriam hoje mais de 3605000 reis, que juntos aos quatro centos e outenta mil reis em metal das duas tenças, valeriam mais de 8408000 reis.» Em presença d'estes dados, Caminha vivia na opulencia; accresce a circumstancia de terem suas irmãs seguido a vida claustral, e d'elle ter sobrevivido a toda a familia, para que isto explique a sua mediocridade; tinha razão o arcade Garção quando disse:

Não escreve Lusiadas quem janta

Em toalhas de Flandres; quem estuda
Em camarins forrados de damasco (1)

O odio de Caminha por Camões, em quanto este frequentou a côrte, era devido á animadversão que lhe causava um talento brilhante; depois que o epico voltou da India pobre de esperança, fundava-o na superioridade da fortuna. O illustre José Correia da Serra na biographia de Caminha foi o primeiro que lhe descobriu esta má vontade contra aquelle infeliz homem de genio; cultivou Pedro de Andrade as letras, unido em correspondencia e amisade com os maiores engenhos que então poetavam em Portugal, menos ao que parece, com Luiz de Camões, do qual nem elle, nem os outros fazem menção; o que nos mostra que os seculos litterarios das varias nações são mui parecidos uns com os outros,

(1) Obras de Garção, p. 143. Ed. 1778

e que em todo o tempo a superioridade é odiosa aos contemporaneos.» (1)

Por um documento da Chancellaria de Philippe II, se descobrem tres factos importantes da vida d'este poeta; que foi casado com Dona Pascualla de Gusmão, talvez a Filis dos seus versos; que teve uma filha d'este consorcio, chamada Dona Marianna; e que morreu a 9 de Setembro de 1589, nove annos depois de Camões. Por este documento se transferem a sua mulher e filha a tença dos duzentos mil reis de que el-rei lhe fizera mercê com a faculdade de a poder renunciar em quem quizesse por sua morte.

Caminha havia entregado o manuscripto dos seus versos a Frei Bartholomeu Ferreira, que chegou a revel-os e a approval-os. Os grandes desastres que pezaram sobre Portugal depois de 1580 fizeram que não chegasse a saír a lume; este manuscripto do proprio punho de Caminha, veiu a parar na livraria do Convento da Graça, de Lisboa, e só em 1784 alí o acharam os academicos José Corrêa da Serra e Frei Joaquim Forjaz. Existia outro manuscripto, na Livraria do Duque de Cadaval, aonde em 1771 o consultara Pedro José da Fonseca; suppômos ter este pertencido a Dona Francisca de Aragão, porque em um Epigramma de Caminha se diz que esta princeza possuia o manuscripto dos seus versos. Os dois citados Academicos completaram

(1) Poesias de Caminha, p. ví.

um pelo outro os dois manuscriptos e assim fizeram a excellente edição da Academia das Sciencias, de 1791.

O livro jazeu esquecido durante mais de dois seculos, mas as letras nada perderam. Os louvores de Ferreira e Sá de Miranda é que incitavam a curiosidade que hoje está friamente apaziguada. Em todo o caso, dos versos de Caminha tiram-se curiosas noticias para a vida dos outros Quinhentistas, que sustentaram gloriosamente eschola italiana.

CAPITULO IV

Diogo Bernardes

-

Antes de saír de sua patria Ponte do Lima, Bernardes cultiva a Eschola velha. Visita Sá de Miranda a Quinta da Tapada, e abraça a eschola italiana. - Vae a Lisboa depois de 1554. Seus amores nos campos do Tejo. — A Sylvia dos seus versos despreza-o por um casamento rico. - Volta para Ponte do Lima no principio de 1558. — Celebra a morte do seu amigo e mestre Dr. Antonio Ferreira. — Vae em uma Embaixada a Hespanha. Acompanha D. Sebastião a Africa para cantar-lhe as victorias. — E' resgatado e acceita uma mercê de Philippe 11. Seu casainento com D. Maria Coutinha.-Morre em 1605.

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Amigo intimo de Caminha, mas com mais talento e lyrismo, Diogo Bernardes tambem está manchado pela injusta malquerença que votou a Luiz de Camões; attenuem as suas muitas desgraças esta imperfeição do seu caracter sobre a qual a historia tem de ser sempre implacavel. Nasceu Diogo Bernardes em Ponte do Lima, como elle o declara no titulo das Varias Rimas ao Bom Jesus, impressas em sua vida, em Lisboa. Na Vida de Sá de Miranda, escripta por Dom Gonçalo Coutinho, amigo de Bernardes, tambem se encontra outra prova: «e contava Diogo Bernardes... que quando o hia a ver, vivendo em Ponte do Lima patria sua, etc.» Dom Gonçalo recolheu grande parte dos factos da vida de Sá de Miranda da tradição oral de Diogo Bernardes; portanto devia estar bem informado da

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