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Miranda a emprehender a viagem á Italia, alem da natural curiosidade de admirar de perto a grandeza da Renascença. A sua viagem foi demorada, e a phrase de Dom Gonçalo Coutinho, na Vida do poeta: «tendo visto com vagar e curiosidade Napoles, Milão, Florença e o melhor de Sicilia, tornou-se ao Reino e deteve-se algum tempo na Corte de D. João III, que já havia muito que reinava», dá a entender que partira talvez ainda em vida de Dom Manoel, e que só voltou depois de apaziguados os animos com a successão do novo reinante. Esta hypothese se confirma com a epoca da sua volta de Italia, que adiante fixaremos. Na Canção a Nossa Senhora, Sá de Miranda dá a entender que soffrera uma dura prisão; se esta peça lyrica não fosse uma imitação de Petrarcha, e por isso escripta por certo depois da sua volta de Italia, levar-nos-hia a acreditar que elle föra victima do odio de el-rei Dom Manoel por se mostrar partidario do desgosto do Principe, de quem foi sempre amigo. Outras perseguições soffreu o poeta na côrte, e n'essa occasião interpretaremos melhor este facto.

CAPITULO II

(1521-1527)

A Italia no principio do seculo xvi. – Viagem de Sá de Miranda á Italia. Influencia d'esta viagem sobre o seu caracter. Origem da eschola italiana.- Luctas da sua introducção. Extrahir do Livro de Francisco de Hollanda o caracter da vida na Italia, no seculo xvi. -Textos de Sá de Miranda com relação à sua viagem.-Modelos litterarios de que tomou conhecimento.-Volta a Portugal antes de 1526.- O successo do Marquez de Torres Novas. Estada de Sá de Miranda em Coimbra em 1527.

Na Comedia Eufrosina, escripta em 1527, diz um personagem em uma carta da India: «mas eu ter-me-hia ao torrão de Portugal, a que em sua quantidade sobeja tudo, se a cobiça de Italia, e as delicias da Asia o não devassaram.» (1) Esta cobiça de Italia era o desejo que se desenvolveu na nobreza portugueza de ir visitar o foco da Renascença do seculo XVI.

A viagem de Sá de Miranda á Italia, como complemento de sua educação litteraria, devia causar bastante extranheza para a nossa fidalguia costumada a seguir a eschola das armas na India, ou a ir contractar fundos de emprestimo para o governo nas Feitorias de Italia e dos Paizes Baixos. Dom Gonçalo Coutinho descrevenos o roteiro da viagem nas seguintes palavras: «e assi

(1) Jorge Ferreira, op. cit., act. n. sc. v, p. 123.

se foi á Italia, visitando primeiro os mais celebres logares de Hespanha, e tendo visto com vagar e curiosidade Roma, Veneza, Napoles, Milão, Florença, e o melhor de Sicilia.» Este facto colhido da tradição oral dos amigos do poeta, acha-se confirmado pelos seus proprios versos:

Senhor meu Dom Fernardo de Menezes,
Eu vi Roma, Veneza e vi Milão,

Em tempo de Hespanhoes e de Francezes.
Os jardins de Valença e d'Aragão,

Onde amor vive e reina, onde florece

Por onde tantos embuçados vão. (p. 107, ed. de 1804 e 1677.)

No verso Em tempo de Hespanhoes e de Faancezes, determina Sá de Miranda o tempo da sua viagem, por que se refere á epoca em que o imperador Carlos v de Hespanha andou em guerra com Francisco I de França, pelo facto d'este ultimo ter aspirado á eleição do throno da Allemanha. Foi em 1521 que o imperador Carlos v fez começar as hostilidades contra a França; esta data tambem coincide com a indisposição entre el-rei Dom Manoel e seu filho primogenito D. João por causa do casamento com a princeza Dona Leonor, irmå de Carlos v. Sá de Miranda, visitando a Italia em tempo tão agitado de commoções politicas por tres grandes doidos que governavam a Europa, Carlos V, Francisco I e Henrique viii, dá a entender que deixava a patria não por uma mera diversão artistica, mas por uma causa extraordinaria.

N'esta Carta a D. Fernando de Menezes, descrève Sá de Miranda a dissolução dos costumes italianos; aparentado com a opulenta casa Colonna, por seu avó paterno João Rodrigues de Sá, relacionado com altos personagens, como Juan Ruccellai, a sua amisade com Lactancio Tolomei, que confessa na ecloga Salicio, leva-nos a crêr que elle tratara com a celebre poetisa Vittoria Colonna, marqueza de Pascaire, e com Miguel Angelo, que a seguia por toda a parte. Adiante vermos por uma citação de Francisco de Hollanda, como junto com Lactancio Tolomey veiu a ter relações com o grande artista, e com a sua Dyotima. No tempo em que Sá de Miranda visitou a Italia, contava Vittoria Colonna trinta e um annos de edade; vivia na mais absoluta adoração de seu marido que, durante o cativeiro em Ravena, escrevia para distrahir-se um Dialogo de amor, que remettia a sua mulher. Foi em 1525 que Vittoria Colonna ficou para sempre inconsolavel com a perda do Marquez de Pascaire, seu marido, na batalha de Pavia. É tambem a contar d'este tempo que se deve indagar quando foi o regresso de Sá de Miranda para Portugal; todos os factos comprehendidos entre 1521 e 1526 confirmam a fixação da viagem em tempo de Hespanhoes e de Fran

cezes.

Pouco tempo depois da viagem de Sá de Miranda á Italia, percorria Montaigne os mesmos sitios; ambos se impressionaram com a desolação dos arredores de Roma.

Eis a poesia que Sá de Miranda escreveu e aonde pinta

esta impressão:

CANTIGA FEITA NOS GRANDES CAMPOS DE ROMA

Por estes campos sem fim,
Onde a vista assi se estende,
Que verei triste de mim,
Pois ver-vos se me defende?

Todos estes campos cheos
São de saudade e pesar,
Que vem pera me matar
Debaixo de ceos alheos;
Em terra extranha, e mar,
Mal sem meo, e mal sem fim,
Dor que ninguem não entende,
Até quão longe se estende
O vosso poder em mim. (1)

Na ecloga Nemeroso, escripta a Antonio Pereira Marramaque, allude Sá de Miranda outra vez ás suas viagens:

Quanto tiempo perdi,

No sé por donde anduve,

Vi tierras, vi costumbres differentes,

Ya tarde bueito en mi,

Un poco sobrestuve

Arrimado y dexè correr las gentes. (p. 293, ed. 1804.)

Tambem no Soneto XIV, fala do Tibre como quem recebeu a impressão local; Sá de Miranda dá-lhe um

(1) Obras, p. 387, ed. 1804.

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