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Na Ecloga de Frei Agostinho da Cruz, diz um dos pastores:

Se surdo me fizer, se cego e mudo
A quanto succeder, e no meu braço
Trouxer a paciencia por escudo, etc.

Não se póde asseverar com fundamento ser Soropita o religioso convertido por Frei Agostinho da Cruz; mas é certo que este apaixonadissimo collector de Camões abraçou o habito monastico no tempo em que o mystico poeta de Ponte de Lima era procurado por todas as almas doridas. (1)

Na Ecloga VIII, intitulada Da mudança da Arrabida, allude á partida do seu companheiro do ermo Frei Diogo dos Innocentes, mandado recolher ao mosteiro, por emulação dos frades, que exigiam o cumprimento da regra: Limabeu, personificação de Frei Agostinho, fala com Mincio:

Eu tenho para mim (segundo as queixas
Que na mata do lobo me çontaste)
Que não sem causa agora a Serra deixas.

As queixas contra o lobo, referem-se å anedocta de ter sido devorada pelas feras a cavalgadura que levava Frei Agostinho do seu convento para a Capellinha da Serra. Aos setenta e cinco annos de edade, acceitou em

(1) Vid. Estudos da Edade Media, p. 217 a 236, aonde vem a biographia de Soropita, e aonde se caracterisa o estado dos espiritos no ultimo quartel do seculo xvi.

1615 a guardiania de Sam José de Ribamar. A vida austera da solidão da Arrabida apressou-lhe a morte; adoeçendo por meado de Março em 1619 foi conduzido para a enfermaria do convento de Setubal, aonde morreu a 14 d'este mesmo mez e anno. A sua vida está cheia de lendas agiologicas, conservadas por Jorge Cardoso, Frei Pedro Calvo, pelos chronistas da sua ordem, e pelo professor José Caetano de Mesquita.

Os versos de Frei Agostinho da Cruz são mais correctos e mais sentidos do que os de seu irmão Diogo Bernardes; as fórmas poeticas da renascença profana da Italia não se aliam bem com os gemidos plangentes dos psalmos. O amor divino em Frei Agostinho da Cruz é penitente e não apaixonado; o transporte mystico falta-lhe, supre-o com as reflexões moraes, frias, mas convictas. A impressão definitiva que se tira da leitura das suas composições é fraca; conhece-se que entrou muito cedo para a Cartucha, sem conhecer a vida, alheio aos grandes desastres do seu tempo, não comprehendendo a realidade das cousas; os versos são sonoros, pittorescos, descriptivos como quem está acostumado á solidão contemplativa, mas falta-lhes o elemento fundamental de toda a concepção artistica — a intuição da vida.

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CAPITULO VI

Luiz de Camões

Os poetas quinhentistas excluem Camões da sua pleiada. -Camões abraça o lyrismo da Renascença italiana e conserva o sentimento nacional. Camões citado da Carta de Manoel Machado de Azevedo.- - Nova prova do odio de Caminha contra Camões. - Sobre todos os Quinhentistas Camões distingue-se pela liberdade da arte. Aliança das lendas da edade media com as tradições eruditas. Caracter lyrico de Camões.

O talento poetico de Camões revelou-se em 1535, e prorompeu em torrentes apaixonadas e profundas até ao anno de 1580; n'este decurso de tempo deram-se as luctas da introducção da eschola italiana, estreitaramse as amisades de Sá de Miranda, Ferreira, Caminha e Bernardes, todos os poetas que abraçaram as fórmas da Renascença se correspondiam, e só o nome de Camões não apparece uma só vez lembrado. Pressente-se uma animadversão tacita, que o procura excluir da pleiada dos Quinhentistas. Os poetas da eschola italiana confessaram involuntariamente que lhe competia um logar á parte e acima de todos. (1) No meio da admiração geral pelas litteraturas classicas, Camões nun

(1) Estudamos Camões n'este livro, porque elle é o primeiro lyrico do seculo xvi; mas consideramoĺ-o com relação ás causas que actuaram sobre o seu genio e á influencia que exerceu sobre a poesia da eschola italiana. Todos os dados biographicos ficam reservados para o livro intitulado Vida de Camões e sua Eschola.

ca perdeu o sentimento do genio nacional; foi por isso que preferiu a fórma da redondilha para as seus Autos filiados no theatro de Gil Vicente; (1) não desprezou os velhos romances populares a que allude com frequencia; aperfeiçoôu as decimas, as voltas e as glosas que íam caíndo em desuso; e finalmente entendeu que a poesia distinguia-se por outros caracteres, que não eram a preferencia do verso endecasyllabo ou do octosyllabo. Ao passo que levantava a velha eschola hespanhola do Cancioneiro, estudava os mais bellos exemplares da poesia italiana do seculo XV e XVI, imitando-os com a liberdade de uma intelligencia superior. O Soneto, que começa: Vós que escutaes em Rythmas derramadas, etc., é imitação de Petrarcha; a Canção VII e VIII, são imitadas de Pietro Bembo, da que começa: Perche'l piacer aragionar m'invoglia; a Canção XIV, é imitada de uma das Lyras de Luiz Groto; a Elegia XI, imita alguns pensamentos de um poema latino de Sanazarro, cujas Eclogas piscatorias, principalmente a segunda e terceira serviram para inspirar as Eclogas Ix e x de Camões. Conhecia perfeitamente os poetas que introduziram em Hespanha a eschola italiana: «e gabam mais Garcilasso que Boscão, e ambos lhe sáem virgens das mãos.» (2) No Filodemo ridicularisa esses que não trocam uma hora de triste pelo thesouro de Veneza, e como termo de comparação diz: «mais brando que um

(1) Historia do Theatro portuguez,
(2) Filodemo, act. 11, sc. 2.

liv.

II, cap. 5.

soneto de Garcilasso.» (1) Na Carta II escripta da India, ainda se lembra dos dois primeiros versos do Soneto III de Garcilasso:

La mar en medio y tierras he dexado
de quanto bien, cuytado, yo tenia. (2)

Na Carta I, escripta da India em 1555, ainda se lembra da monomania amorosa dos petrarchistas: «Pois as que a terra dá, além de serem de rala, fazei-me mercê, que lhe faleis alguns amores de Petrarcha ou Boscão; respondem-vos com uma linguagem meada de hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança agua na fervura da mór quentura do mundo.» Camões tambem glosou o mote tirado das coplas antigas de Boscão:

Justa fue mi perdicion;

De mis males soy contento, etc. (3)

Por estas citações se vê que Luiz de Camões abraçára a eschola nova, com uma admiração em nada inferior á que se encontra nos versos de Sá de Miranda, nos de Ferreira e Bernardes. Qual o motivo porque

(1) Id., act. v, sc. 3.

(2) Obras del excellente poeta Garcilasso de La Vega, con annotaciones y emmiendas del Maestro Francisco Sanchez, Salamanca, 1577. Fl. 1, v. Na Edição mixta de Boscan tambem é

O III Soneto.

(3) Boscan, liv. 1, fl. 53 v.

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