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O Livro das Saudades de Bernardim Ribeiro como cavalheiresco é tardio; deixa nos primeiros capitulos mais a impressão de uma pastoral, do que uma ficção aventurosa. O theatro portuguez que até então fôra um producto dos usos da edade media, imitação dos velhos mysterios francezes que chegaram cá directamente de França, vindo através da Hespanha por João de la Encina, volta-se de novo para a renascença classica da Italia, para imitar as composições de Ariosto, Machiavelli e de Trissino. Os Vilhalpandos e Estrangeiros de Sá de Miranda, e as comedias de Bristo e Cioso do Dr. Antonio Ferreira, são imitações latinas de Terencio e Plauto, segundo o que se fazia então na Italia; lá os escriptores não as accomodavam completamente aos costumes do tempo, de modo que apparecem em scena libertos e gladiadores; nas comedias de Ferreira e Sá de Miranda os moldes latinos estão encobertos pelos italianos, mas pertencem nos costumes á sociedade moderna.

Diz Antonio Ferreira no prologo da sua Comedia de Bristo: «E pola qual aquelle Livio Andronico Roman antiquissimo, alcançou famoso nome para sempre; não falo nos que o seguiram desde então até agora em Italia, pois em nossos dias vemos n'este Reyno a honra e o louvor de quem novamente a trouve a elle, (1) com tanta differença de todos os antigos, quanta he a dos mesmos tempos. Porque quem negará, que na pureza de sua arte da composição, n'aquelle estyllo tão comico,

(1) Refere-se ao Dr. Sá de Miranda.

no decoro das pessoas, na invenção, na gravidade, na graça, no artificio, não possa triumphar de todos. Ora sendo a cousa em si tão boa, seguida de varões prudentes, auctorisada pela antiguidade dos tempos e finalmente vista e aprovada com igual consentimento, e espanto n'esta terra, não sei com que boa rasão terá a mal quem a quizer seguir, e mais com tão boa guia.»

Ferreira n'esta sua Comedia de Bristo, que caracterisa de mixta, segue por modelo as comedias de Sá de Miranda. Camões continuou a eschola de Gil Vicente com o seu Filodemo e Amphitrião, transigindo tambem com o gosto italiano.

Sabemos, pelo que escreveu Dom Gonçalo Coutinho, que a viagem de Sá de Miranda pela Italia foi demorada; acceitada como verosimil a saída de Portugal durante as dissenções entre el-rei Dom Manoel e seu filho o principe Dom João, isto é de 1518 a 1521, resta-nos determinar a epoca em que Sá de Miranda regressou a Portugal. A data historica, que sem risco de hypothese se póde assignar, não excede a 1526; nas suas obras o poeta nos offerece a prova d'este asserto. Na Egloga intitulada Salicio, feita á morte de Garcilasso de la Vega (1536) quando Sá de Miranda o celebra por por ter introduzido o gosto italiano em Hespanha, allude saudosamente á sua viagem, e cita o nome de um poeta e de um alto personagem que tratara pessoalmente em Italia. Pela data da morte de um d'elles se confirma que depois de 1526 já se encontrava Sá de Miranda em Portugal.

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Que honrava ora la espada, ôra el cajado,

Sena y Florencia tanto

Por nobre sangue y lengua,

Daño tan grande y mengua,

Que nunca pudo iguallala el llanto,

Aunque fuera de ley,

Juan Ruscula y Lactancio Tolomey. (p. 315, ed. 1804.)

As edições das obras de Sá de Miranda são abundantemente erradas; este Juan Ruscula de que fala a ecloga Salicio, é o celebre auctor do poema buccolico Le Api Tiraboschi o dá nascido em Florença em 1475, e mostra a sua nobreza dizendo, que era primo germano do papa Leão x. Portanto é a elle que se refere Sá de Miranda, por isso que exalta a sua nobreza de sangue, e lingua. João Rucellai aspirou á dignidade cardinalicia durante o pontificado de seu primo; o pontificado do papa Adriano vi correu-lhe menos favoravel; Clemente vii nomeou-o castellão de Santo Angelo como degrau para Cardeal, porém não se realisaram as suas esperanças, por isso que morreu de uma febre em 1526, como se sabe pela noticia que deixou Pierio Valeriano. (1) Portanto Sá de Miranda só o poderia ter tratado antes de 1526.

(1) Tiraboschi, Storia della Litteratura italiana, t. vii, parte шг. p. 1214. § 32.

O outro personagem citado na Ecloga Salicio é Lactancio Tolomei; d'elle fala largamente Francisco de Hollanda na relação da sua viagem á Italia em 1538; falando de Roma: «Durante os dias que passei n'esta capital, houve um, que foi n'um domingo, que eu fui vêr segundo o meu costume mecer Lactancio Tolomei, que me procurara a amisade de Miguel Angelo por intervenção de mecer Blosio, secretario do Papa. Este emcer Lectancio Tolomei era um grave personagem, respeitavel tanto pela sua nobreza de sentimentos e de geração (porque era sobrinho do Cardeal de Senna) como pela sua edade e costumes. Em casa d'elle me disseram que me deixara recado de que estava em Monte Cavallo, na Egreja de S. Silvestre com a senhora marqueza de Pascaire para ouvir uma leitura das Epistolas de S. Paulo..... Eu era tambem devedor do conhecimento d'esta senhora á amisade de Mecer Lactancio, o mais intimo dos seus amigos.» (1)

Por este retrato de Francisco de Hollanda, se conhece o personagem de quem Sá de Miranda falava; este Lactancio Tolomei era sobrinho do Cardeal de Senna. A gravidade que Francisco de Hollanda lhe encontrava em 1538, prova que no tempo em que o tratara Sá de Miranda já não era novo. Ignoramos as datas da sua vida.

No principio do nosso trabalho de recomposição julgavamos que o nome de Lactancio Tolomei estava er

(1) Raczynski, Les Arts en Portugal, t. 1., p. 8.

rado, o que se deveria lêr Claudio Tolomei, por isso que este litterato era natural de Senna; o facto d'elle ter sido desterrado de Senna em 1526 harmonisava-se com o anno da morte de João Rucellai, e coincidía a allusão do verso de Sá de Miranda: por nobre sangue y lengua,» com o facto de ter elle sempre propugnado pelo desenvolvimento da lingua italiana. (1) Tinha esta hypothese todos os visos de verdade, se a relação de Francisco de Hollanda não cortasse todas as incertezas; apresentamol-a simplesmente para indicar os processos que seguimos no nosso trabalho de inducção.

Durante a permanencia de Sá de Miranda em Italia, decorreram os grandes successos da Reforma; como catholico profundo, e relacionado com a aristocracia italiana, é provavel que lhe não fosse favoravel ao principio; mais tarde encontramos o espirito d'esse grande movimento da renascença catholica a transparecer nas suas obras. No anno de 1526 a causa prégada por Luthero caminhava para o triumpho definitivo; na Dieta de Spira era proclamada a liberdade de consciencia, contra o dogmatismo romano. Não bastariam estes factos para determinar a vinda de Sá de Miranda para Portugal, se não conhecessemos um documento casualmente conservado, que prova a sua estada em Coimbra em 1527, e que analysaremos no seguinte capitulo. Disse Dom Gonçalo Coutinho, que quando o poeta regressou ao reino, já havia alguns annos que D. João III reinava;

(1) Tiraboschi, Op, cit. p. 1335. § 76.

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