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Dom Gonçalo Coutinho estando em uma sua quinta, que chamam dos Vaqueiros:

Ai viveis emfim sem ceremonia,

E lêdes, sem estorvo, um dia todo
Sem vos ser necessario Sellidonia.»

Nas obras de Bernandes encontram-se versos de Dom Gonçalo Coutinho, adepto da eschola italiana.

Alem do testemunho de Bernardes, declara D. Gonçalo Coutinho, que seguira na sua relação da vida de Sá de Miranda, a Gonçalo da Fonseca de Crasto, fidalgo de Lamego, que em 1584 possuia um Homero com notas á margem feitas em grego pelo douto Sá; a Gomes Machado de Azevedo, que ainda hoje vive na Comarca d'Entre Douro e Minho, sobrinho da mulher de Sá de Miranda; aos Doutores Hieronymo Pereira de Sá, e Henrique de Sousa, Desembargadores que foram do Paço, mortos ha pouco, e a Dom Manoel de Portugal. Todos estes nomeados trataram pessoalmente com Sá de Miranda, e ainda eram vivos, á excepção de dois, ao tempo em que D. Gonçalo Coutinho recolheu a tradição biographica, pouco depois de 1595.

No titulo da Vida de Sá de Miranda declara Dom Gonçalo Coutinho, que tambem se servira dos Livros das gerações d'estes reinos. Entre estes livros talvez se conte o Nobiliario de Portugal, escripto por Damião de Goes, do qual se conservam dois exemplares manuscriptos na Torre do Tombo e Bibliotheca da Ajuda. No tempo de D. Gonçalo Coutinho ainda vivia Francisco

de Sá Menezes, neto do poeta, que transmittiria as memorias de familia, como Bernardes revelara as suas recordações do trato pessoal. É pena que esse esboço da Vida de Sá de Miranda, escripto com tanta pureza e simplicidade, appresente tão poucas datas historicas; assim mesmo servirá de fio para nos guiar n'este trabalho de reconstrucção, aonde por inducções e aproximações de factos chegámos a apurar a verdade.

Nasceu Francisco de Sá de Miranda em Coimbra, como elle mesmo declara na Fabula do Mondego:

Mas sobre todo lo que enriqueció

L'antigua terra mia, es el thesoro

Del santo cuerpo de su rey primero... (p. 20.)

Da antiga e nobre cidade

Sou natural sou amigo. (Ed. 1677, p. 238.)

Nasceu a 24 de Outubro de 1495, «no mesmo dia em que el-rei D. Manoel tomou posse do governo d'estes Reynos.» (1) Foi seu pae Gonçalo Mendes de Sá, e Sua mãe D. Felippa de Sá; teve por avô materno Rodrigues de Sá, e por bisavô João Rodrigues de Sá, o das Galés. Os primeiros annos da meninice passou-os em Buarcos, aonde vivia seu avô paterno João

(1) D. Gonçalo Coutinho, Vida. A logica dos factos leva a crêr que tivesse nascido muito antes d'este anno.

Gonsalves de Miranda, como se vê na Carta a Jorge de Monte-Mor:

Vezino áquel tu Monte do has nacido,
Cogi el ayre de vida, y del Mondego,

La clara y tan sabrosa agua he bebido. (p. 264)

Sobre o parentesco de Sá de Miranda com a fidalguia hespanhola, se lê na Elegia á morte de Garcilasso esta passagem hoje bastante obscura:

Al mui antiguo aprísco

De Lassos de la Vega

Tuyo, el nuestro de Sá visto ayuntado. (p. 317)

Para intelligencia d'estes versos de Sá de Miranda aproximamos outros de Lope de Vega, que se referem å genealogia de Garcilasso:

El claro Garcilasso de la Vega
Aunque de mil laureles coronado,
Que nadie el Principado

De aquella edad le niega,

Tambien dio su poder en causa propria,

De su casa illustrissima a los Arcos,
Heroico descendiente, etc. (1)

Nas armas dos Mirandas ha por divisa uma aspa, que, segundo Bluteau: «póde ser em memoria do seu solar de Miranda, que está em as Asturias, junto a Santo André. »

(1) Laurel d'Apollo, Silva 1, p. 16, ed. de 1824.

«Os (Mirandas) de Portugal, em campo de ouro uma aspa vermelha entre quatro folhas de lis verdes.» (1) Esta origem hespanhola dos Mirandas, explica os versos, em que Sá de Miranda se dá por parente do fidalgo asturiano Garcilasso de la Vega.

Nas Memorias Historicas e genealogicas dos grandes de Portugal, falando dos Marquezes de Abrantes, diz D. Antonio Caetano de Souza:

«A varonica d'esta casa é Sá, antiga n'este reino: varias terras lhe attribuem por solar, das quaes eram Senhores, no julgado de Guimarães, os primeiros d'esta familia de que tomaram o appellido. D'elle achámos muitos fidalgos mais antigos que Payo de Sá, que viveu pelos annos de 1300, reinando Dom Diniz; porém n'elle começam os genealogicos adduzir esta familia, fazendo-o tronco dos d'este appellido. D'elle foi segundo neto João Rodrigues de Sá, conhecido pelo nome das Galés, Senhor de Sever, etc. Alcaide mór de el-rei Dom João II, casou com Dona Isabel Pacheco, filha de Diogo Lopes Pacheco, Senhor de Ferreira d'Aves. (2)

E tambem em uma Carta a João Rodrigues de Sá de Menezes, refere-se a este ter casado em Italia na familia Colonna, como se diz no verso:

Dos nossos Sás Coloneses..

Gram tronco, nobre columna (p. 228.)

(1) D. Rodrigo da Cunha, Historia Ecclesiastica de Braga, liv. 1, cap. 55; p. 222.

(2) Obr. cit., p. 48, e 49. No Cancioneiro geral, fala-se da gram terra de Sever. Fl, 114, col. 3.

A isto allude João Rodrigues de Sá, na Declaração dos Escudos de alguas linhagens de Portugal:

Nos esscaques celestriaes
e de prata esta mostrado
o muy nobre e muy honrrado
e por batalhas rreaes
sangue de Saa derramado.
Com quem o Rromano Columnes
se mesturou d'atraves,
cada hum de grão primor,
forte, leal, sem temor

em cabates e gualles. (1)

Dom Gonçalo Coutinho diz, que Sá de Miranda frequentara a Universidade em Coimbra, o que é impossivel, porque só em 1537 é

que foi para ali transferida

de Lisboa aonde estava estabelecida.

Apenas podemos acceitar o facto de ter estudado humanidades em Coimbra, por isso que aos dez annos de edade aí residia ainda, como se vê da allusão ao anno de 1505, em uma passagem da Carta a Pero Carvalho, em que diz que vira a exhumação do corpo de D. Affonso Henriques:

Cidade rica do Santo

Corpo do seu Rey primeiro,
Que inda vimos com espanto
Ha tam pouco, todo inteiro

Dos annos que podem tanto. (2)

Canc. geral, f. 116, col. 1. v.

(2) Est. 7, p. 67. Ed. de 1804.

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