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sada do principe D. Fernando. Dera-se o caso pelo anno de 1522; decorreram nove annos, até que pelas decisões dos canonistas e pela constante negação de D. Guiomar, se decidiu o casamento do principe com ella em 1531.

Sá de Miranda estava inteirado do successo, e é de suppôr que alludisse nos seus versos a esta intriga palaciana.

Dom Gonçalo Coutinho, falando das suas poesias diz, que versam «a maior parte d'ellas sobre casos particulares que succederam na côrte em seu tempo, introduzindo pessoas conhecidas d'aquelles que então viviam de que ainda temos algumas tradições e vestigios derivados a nós dos contemporaneos que o venceram em dias, e se houvera algum que fizera uma annotação d'isto, por ventura que fora bem agradavel historia...>> Sendo os versos de Sá de Miranda cheios de allegorias aos acontecimentos do seu tempo, como lhe escaparia este escandalo, que se terminou em uma sombria catastrophe? Dom Gonçalo Coutinho fala de uma Ecloga de Sá de Miranda, que lhe provocou as iras de uma pessoa muito poderosa, por causa da interpretação que se The ligava; e que não querendo explicar-se melhor, o poeta resolvera abandonar a côrte. Á Ecloga que aponta dá-lhe o nome de Aleixo ;-mas como adiante mostraremos é na Ecloga Andrés, que se encontram claras allusões ao casamento do principe Dom Fernando.

Aqui se pode collocar logicamente a perseguição de Sá de Miranda, de outra forma incomprehensivel, que

se relata na Canção a nossa Senhora, aonde o poeta fala da sua prisão rigorosa:

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Que a vós bradando por piedado venho. (p. 9. Ed. 1804.)

Esta Canção é imitada de Petrarcha, e por isso descobre-nos que só teria sido escripta depois do regresso de Italia. Se a primeira colleção dos versos de Sá de Miranda não fosse authentica, julgariamos esta Canção apocrypha, e talvez escripta pelo seu amigo Antonio Pereira Marramaque, Senhor de Basto, auctor de um livro contra os padres e de outro sobre a leitura da Biblia em vulgar, livros que sómente andaram manuscriptos, que mais tarde vieram a entrar no Index de 1624, e que foram causa da sua prisão nos carceres do Santo Officio. Na Ecloga Andrés, vê-se que Sá de Miranda se refere ao projectado casamento do Duque de Aveiro. N'esta Ecloga approxima o poeta a dissolução dos costumes da Italia com os da côrte portugueza.

Junto del turbio Tibre, que rebaños
Ay de Zagalas, mas que biven sueltas,
Que biven de doblezas e de engaños,
Palabras dulces en pençoña envueltas,

Con que a los moços, con que a viejos amos

Hazen que ciegos van dando mil bueltas (p. 65. Ed. 1677.)

Logo na sexta outava da Ecloga Andrés, parece que Sá de Miranda retrata o Infante Dom Fernando, que pela descripção de Damião de Goes se sabe que era muito dado ás letras e ao desenho. Approximando estas duas passagens se conhecerá melhor a intenção do poeta:

Pudierades passar la juventude

Como otros grandes Principes, andando
A passatiempos, y a la multitud
De sus plazeres, onde, como y quando;
Hizesseos más ermosa la virtud,

Ansi qual ella vá de flaco blando

Tan presto conocistes los affeytos

Y el falso resplendor de los deleytos. (Pag. 53.)

D'este mesmo principe diz Damião de Goes, na Chronica de D. Manoel: « assi na mocidade, como depois de ser homem feito, foi de bom parecer e bem disposto, muito inclinado ás letras e dado ao estudo das Historias verdadeiras e inimigo das fabulosas, e por haver as verdadeiras trabalhava muito, de que eu sou testimunha, porque estando em Flandres, em serviço d'el-rei Dom João III, seu irmão me mandou pedir todalas as chronicas que se podessem achar escriptas de mão, ou imprimidas, em qualquer linguagem que fosse, as quaes

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lhe mandei todas. E por tirar a limpo as Chronicas dos Reis de Hespanha desde o tempo de Noé até o seu, despendeu muito com homens doutos, a que dava ordenados e tenças e fazia outras mercês; e me mandou um debucho da arvore e tronco de esta progenie, desde o tempo de Noé, até o d'el-rei Dom Manoel seu pae, pera lhe mandar fazer de illuminura, pelo mór homem d'aquella arte que havia em toda a Europa, per nome Simão, morador em Bruges, no Condado de Flandres. Na qual arvore e outras cousas de illuminura, dispendi por sua conta gram soma de dinheiro.» (1)

O casamento do Infante D. Fernando com D. Guiomar, em 1531, dava causa a funebres presentimentos. Na Ecloga Andrés muitos d'esses presentimentos coincidem com os successos futuros; tudo leva a justificar a persiguição de Sá de Miranda, e o motivo porque abandonou a côrte, apontado por Dom Gonçalo Coutinho. O biographo anonymo não quiz determinar o facto com certeza, para se não malquistar com odios ainda. accesos; as muitas allusões das Obras de Sá de Miranda deram tambem causa a que todas as edições que se seguiram á primeira fossem deturpadas ou para melhor dizer mutiladas, tornando assim concepções verdadeiramente bellas versos mediocres.

(1) Chronica, Part. 1, cap. 19.-No Catalogo dos Manuscriptos portuguezes do Museu Britanico, de Frederico Francisco la Figanière, dá-se como existente ali esta illuminura, comprada, em 1848 em Lisboa, por dez libras. Em 1538, Francisco de Hollanda citava tambem o nome de Simão como um dos mais celebres illuminadores da Europa. Vid. Raczynski, Les Arts en Portugal, pag. 55.

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CAPITULO IV

(1531-1534)

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Intrigas da côrte de D. João III. A ecloga Andres, o Marquez de Torres Novas e o Infante D. Fernando.- Sá de Miranda desgosta-se da côrte. Continúa a lucta da eschola italiana. A Carta de Manuel Machado d'Azevedo, allude aos Carvalhos e Carneiros, como inimigos do poeta.

Na Vida de Sá de Miranda, que vem na edição de 1614, dá-se como causa da sua saída da côrte o odio de ahua pessoa muito poderosa d'aquella era, em desprazer de quem se interpretava mal polla mesma inveja hum logar da sua Egloga de Aleyxo, (Andrés) o que sentindo elle, nem querendo declarar-se milhor, nem esperar á vista os effeitos da ira declarda.... recolheu-se a uma quinta....chamada a Tapada, deixando o mimo da Côrte, etc. »

A Ecloga que parece ser causa da retirada da côrte, que mais combina com a intriga palaciana, é a de Andrés, na qual se encontra toda a historia do casamento do Infante Dom Fernando, irmão de Dom João III, com Dona Guiomar, conhecida na Ecloga, pelo nome de Pascuala. Sem grande hypothese, pode-se assignalar esta como a causa verdadeira do ostracismo de Sá de Miranda. Vejamos os factos apontados na Historia Genealogica, e depois se comprehenderão facilmente as allusões. O casamento de Dona Guiomar com o Infante D. Fernando foi contractado por el-rei Dom Manoel com o conde de Marialva, como se declara no codicillo

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