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manceiros, perdeu a noção da independencia politica, e entrou n'esta phase de cretinisação em que hoje está.

Em 1531, na carta que precede a Ropica pneuma, refere-se João de Barros ás obras de Erasmo, e ás luctas theologicas da Allemanha: «Não lhe pareça que o digo por os de Erasmo (os Colloquios,) que estes já são velhos; mas por alguns novos portuguezes que vós e eu temos ouvido antre homens que n'este trato de mercadoria falam tam solto, como se estivessem em Allemanha nas rixas de Luthero.»

Apesar de João de Barros falar d'este modo, professava tambem as ideias da Reforma: «Nam me convem mais theologia de Christo do que tenho: já sei que per bancos de cambo e nam per ella posso saltar no curral das mitras.» (1) Falando das leis injustas, João de Barros attribue tambem a ellas a causa da Reforma: «Sabes que se causa d'aqui? O que vemos, que alguns movem contra os Concilios da egreja Romana, dizendo que o Espirito Santo nam pode falar per boca de peccadores de vida infame.» (2) . . «e agora novamente dos Lutheranos, que é hua salada de todas estas passadas ervas, muy saborosa a ignorantes e dissimulada de alguns doctos.» (3)-- «Mais me parece (pois tam desarrazoado estás) que te convem o nome de sandice Erasma, que razam portugueza.» (4)

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No seculo XVI a influencia da Renascença actuava tambem na parte litteraria dos sermões; prégava-se recitando versos do pulpito, allegando textos de Petrarcha em vez de Sam Jeronymo: «Ver estar um pregador quebrando a cabeça a sy e a todolos os ouvintes, volteando no pulpito todo um sermão: e nam lhe fica Garcia Sanchez de Badajoz, nem Dom Jorge Manrique, em a contemplação de Recorde el alma dormida; nem D. João de Menezes em Quem tem alma não tem vida: nem quantos sonetos fez a madame Laura (pera d'hy auspirar a graça) que todos nam alegue por serem autores já escriptos no catalogo de Hieronimo: e com todas estas e outras palavras cortezans, que anda buscando pera isca de seu requerimento tacito, sam já as palavras tam previstas que aventam o visco de longe. E em logar de galardam, pagam ao coitado o suór da testa com dizer depois que dece: Oh cedo? Estaveis um Paulo em Athenas, etc.» (1) Este systema de prégar era ainda um resto de edade media, uma degeneração do uso dos Exemplos, condemnados pela Reforma, e especialmente por Calvino. João de Barros fazia este retrato dos pregadores do seculo XVI, em 1531, quando as ideias da Reforma começavam a acordar o

senso commum.

(1) João de Barros, Ropica pneuma, p. 94, ed. de 1869. Na litteratura portugueza do seculo xvi ainda existe um sermão em verso em que se declama a favor das fogueiras. A Ropica achase condemnada pelo Index de 1564.

CAPITULO V

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(1535-1558)

Rendimento da Commenda das Duas Egrejas. -Carta a seu irmão Mem de Sá.-Carta a el-rei Dom João 1.-. Amisade com Antonio Pereira, senhor de Basto, que lhe offerece as Obras de Garcilasso. Morte de Garcilasso e Ecloga de Salicio.-Relações com os Machados de Azevedo. Lenda do seu casamento com D. Briolanja de Azevedo em 1536; como deve interpretar-se. A vida na Barroca; leitura dos poetas italianos e Hespanhoes. Escrevia ao Infante Dom Luiz, depois da ida a Tunis. — Relações com Jorge de Monte-Mór em 1553.- Morte do Principe Dom João em 1554.- Relações com Diogo Bernardes, em Ponte de Lima. - Como este poeta descreve a vida de Sá de Miranda. Relações com Ferreira, pela morte de seu filho Jeronymo de Sá. - Carta em 1553. -Resposta de Sá de Miranda. Carta de Manoel Machado de Azevedo em que lhe fala em Camões. - Morte de sua mulher em 1555. Så de Miranda pouco sobrevive a estas perdas. chorado por todos os poetas que seguiam a sua eschola. Prospecto chronologico da sua vida.

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Na lucta e desgostos que encontrou Sá de Miranda durante a assistencia na côrte, el-rei Dom João III mostrou-se-lhe sempre amigo, e logo que soube do seu designio de retirar-se para a provincia, deu-lhe a Commenda das Duas Egrejas, do Mestrado de Christo, no Arcebispado de Braga, junto a Ponte do Lima. Este facto é explicitamente apontado pelo biographo anonymo, tambem poeta da eschola italiana. Do rendimento da Commenda, sabemos pelo Livro de toda a Fazenda do Reino de Portugal, feito por Luiz Figueiredo Falcão em 1606. N'este livro de Luiz de Figueiredo, Secretario de Filippe II, encontramos o rendimento da

Commenda de Santa Maria das Duas Egrejas, e por esta noticia podemos saber o intimo da vida economica de Sá de Miranda.

Das cento e oito Commendas do Mestrado de Christo no Arcebispado de Braga, a das Duas Egrejas é a decima terceira; pertence ao numero das Commendas Novas, que pagam meia nata: «A Commenda de Santa Maria de Duas Egrejas: he hoje (1607) commendador Ruy Mendez de Vasconcellos. Avaliada no anno de 1592 em cento oytenta mil reis.» (1) N'este tempo já o marco de ouro valia quarenta mil reis, e portanto reduzido ao preço de hoje, equivalia o seu rendimento a quinhentos e quarenta mil reis; porém se em vez de consideramos este valor em metal, deduzirmos a proporção para genero, era o rendimento d'esta Commenda de mais de um conto de reis annual. Pela Bulla do Papa Leão x as meias anatas das Commendas Novas eram pagas em Roma á Camara Apostolica, aonde os commendadores depois da nomeação regia eram obrigados a impetrar nova provisão dentro de oito mezes. (2) «O Papa Clemente 1.o, a instancia del-Rei Dom João o 3.o concedeu Anthoritate Apostolica, que os Commendadores d'estas Commendas não fossem obrigados a pagar mais que hua só quarta parte da renda de hum ano nos primeiros dois anos, e que com esta quarta parte se aja por satisfeito ao dito Statuto, como se paguassem trez

(1) Livro de toda a Fazenda, p. 213.

(2) Id. ibid. p. 250

coartos e gozassem da graça do dito Statuto confirmado pello Papa Alexandre 6.o Esta concessão feita por Clemente 7.o confirmou o Papa Paulo 3.o seu immediato, a instancia del-Rei Dom João no ano de 1534, como parece do Livro da fundação da Ordem, folhas 137.» (1) Tendo Sá de Miranda abandonado a côrte nos fins de 1533, coube-lhe ainda o gosar esta regalia. É certo porém que em 1607 já a Commenda não andava na sua familia; a rasão pode talvez attribuir-se á obrigação que tinham os Commendadores de pagar nos primeiros dois annos o quarto para gosarem do privilegio de testar, obrigação que Sá de Miranda talvez não cumprisse, por que n'este tempo era ainda solteiro, e não formava tenção de casar-se, como o fez dois annos depois em 1536. Comtudo aí vivia humildemente como dá a entender na passagem em que diz, que não póde chegar ao peixe de almocreve, e que se restringe ao peixe do rio. Vivendo depois de casado na Quinta da Tapada, d'aí escreveu a sua primeira Carta a El-Rei Dom João III, como se deprehende do verso:

Mas eu vejo cá na aldea
Nos enterros abastados,

Muito padre que passea. etc.

Por esta Carta se vê o grau de confiança que o poeta tinha com o monarcha; ali lhe faz um relatorio da degradação geral, e lhe indica os perigos de que tem a

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