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VIII

Apezar das largas investigações sobre a Vida de Så de Miranda, e da extensa biographia de Ferreira, .cumpre vêr o livro III, cap. 3 e 4 da Historia do Theatro portuguez, aonde se recolheram novos subsidios sobre o genio dramatico d'estes eminentes poetas. Para completar a historia das tres grandes manifestações da arte na Litteratura portugueza do seculo XVI, resta dar a lume o estudo sobre a poesia epica, que se intitula Vida de Luiz de Camões e sua Eschola.

HISTORIA

DOS

QUINHENTISTAS

LIVRO I

VIDA DE SÅ DE MIRANDA

O seculo XVI foi o periodo mais brilhante das litteraturas modernas; como resultado da fixação de uma nova forma social, este periodo chamado quinhentista, mostra pela primeira vez á evidencia a unidade da grande raça latina pelas creações sentimentaes. Começou na Italia o movimento, propagando-se d'ali para a França, Inglaterra, Hespanha e Portugal; em cada paiz a renascença classica teve suas consequencias peculiares. Em Portugal o genio catholico e auctoritario adoptou os modelos antigos como formas supremas, fóra das quaes não podia haver creação; assim o genio nacional foi violentamente atrophiado, e reduzido aos processos mechanicos da imitação. Nas litteraturas modernas, foi a poesia lyrica a que attingiu o maior des

envolvimento com a Renascença; o nosso seculo XVI foi tambem eminentemente lyrico.

Era da Italia que devia partir, pela fatalidade das circumstancias, a expansão poetica dos sentimentos da sociedade nova; o genio italiano, desilludido da sua autonomia politica pelo despotismo das invasões imperiaes e pelas traições da auctoridade papal, sem esperança na lucta das communas retalhadas por parcialidades sangrentas, volveu-se para o mundo da Arte; o politico tornou-se erudito. Petrarcha symbolisa esta aspiração italiana; elle faz reviver o ecco das alahudes provençaes, tempera a canção com o platonismo dos eruditos, reduz todos os interesses á paixão pessoal, para se esquecer das espoliações das monarchias constituidas. Esta poesia do amor fascinou o mundo, lavrou, acordou na alma humana o infinito do sentimento. Os povos que imitaram o verbo do amor sentiram-se irmãos. A Portugal chegou a harmonia de Petrarcha; Sá de Miranda a ouviu, antes ainda de ter visitado a Italia, como a uma verdadeira eschola da arte e sanctuario do bello. Do mesmo modo que a poesia provençal sentiu o primeiro symptoma de decadencia na Italia com o apparecimento da Divina Comedia de Dante, tambem o mesmo genio de Italia extinguiu em Portugal os ultimos restos da poesia provençalesca conservados no Cancioneiro de Resende; Sá de Miranda venceu a chamada eschola velha com a sua imitação petrarchista. Tal é a these fundamental do nosso periodo litterario de quinhentos.

CAPITULO I

de Miranda.

(1495-1516)

Nascimento de Sá de Miranda. · Fontes tradicionaes de que se formou a sua Vida anonyma. - Origem hespanhola da casa dos Mirandas. Primeira epoca da sua vida, a que allude Sá Frequenta os estudos de Lisboa antes de 1516. Conheceria Gil Vicente? - Toma parte nos Serões poeticos do paço. O seu encontro com o antigo fidalgo trovador Dom João de Menezes. Relações conhecidas entre Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro. · Seus primeiros amores. Gil Vicente soffre antes de 1523 os primeiros ataques do cultismo italiano. · Sá de Miranda antes da sua viagem á Italia imitava a antiga eschola hespanhola e era grande admirador de João de Mena, do Marquez de Santillana, e de Jorge Manrique. Sá de Miranda emprehende a peregrinação artistica da Italia.

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O homem de genio é a synthese das aspirações de um seculo; retrata-o em si, em todos os aspectos, em todas as suas reformas. Sá de Miranda fez uma revolução profunda na poesia portugueza, foi a alma da boa litteratura, e o que mais propagou a tradição classica entre nós, no seculo XVI. Não é sómente o titulo de poeta que o torna centro, e, por assim dizer, o vulto principal do seu tempo; sobretudo o caracter do homem moral, a condemnação que as suas palavras derramavam sobre a dissolução dos costumes, uma philosophia să propendendo para as ideias da Reforma, fazem de Sá de Miranda uma auréola de gloria em volta da qual se agrupam todos os Quinhentistas.

Da sua vida apenas se conhecem os annos do seu nascimento, do casamento e da sua morte; mas da propria leitura dos seus versos tiraremos documentos que mostrem o que ella teve de dramatico e de sublime, restituindo-lhe as datas ignoradas, pelo synchronis mo dos factos. Junto das suas obras anda uma Vida, escripta por auctor anonymo, a qual só foi pela primeira vez publicada na edição de 1614, dada á luz pelo livreiro Domingos Fernandes, na Officina de Vicente Alvares. Esta Vida, escripta em estylo ainda quinhentista, correu sempre sem nome de auctor, e só no seculo XVIII, Barbosa Machado, que se aproveitara de velhos subsidios para a Bibliotheca Luzitana (1) a attribuiu a Dom Gonçalo Coutinho, sem comtudo adduzir prova alguma, como diz Pedro José da Fonseca, no Catalogo dos Auctores, que anda junto ao grande Diccionario da Academia. Uma prova julgamos appresentar, que justifica em parte a asserção de Barbosa. No titulo da Vida anonyma se diz, que ella fôra : acollegida de pessoas fidedignas que o conheceram e trataram; e no texto, descrevendo os costumes intimos de Sá de Miranda, fala no gosto que tinha pela musica: «e contava Diogo Bernardes (a quem seguimos em muita parte d'isto) que quando o hia a vêr, etc.» Bernardes era contubernal de Sá de Miranda, e egualmente amigo intimo de Dom Gonçalo Coutinho, tambem poeta, como se vê na Carta XVII do Lima: «A

(1) Bibl. Luzit. t. 11, p. 393, col. 1.

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