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SUBSIDIO PARA A HISTORIA DE UM FUTURO SANTO

Falla-se na canonisação do arcebispo de Braga D. fr. Caetano Brandão.

Li as Memorias para a historia da vida d'este insigne prelado, colligidas por Antonio Caetano do Amaral. Não desconheço os louvores que lhe teceu o insuspeito José Liberato Freire de Carvalho nas suas Memorias. Li com mais prazer a biographia que lhe encarece as virtudes, escripta pelo snr. Innocencio Francisco da Silva. Commoveu-me a leitura do drama do doutor Silva Gayo, aquelle optimo coração que já não pulsa cheio do amor de seus filhos.

Inferi d'estas variadas leituras que o arcebispo não tivera em vida quem lhe suspeitasse da probidade, nem por tanto, no acto da canonisação, lhe sahiria com libello infamatorio aquelle personagem que, no processo da santificação, se chama o advogado do diabo.

Illusão que me desluz outras muitas fundadas em bases de vento e poeira.

O primeiro advogado do diabo que enrosca a hirta cauda e se amezendra n'ella, no tribunal dos cardeaes, é o ministro do principe regente, José de Seabra da Silva; e o pio João é citado lambem para ouvir da lingua do seu ministro o depoimento que elle authorisou. Quem duvidar do que vai lêr, dirija-se ao archivo da secretaria do reino, e peça que lhe deixem examinar o copiador dos Avisos expedidos no anno 1794, e lá encontrará o seguinte:

«Ao arcebispo de Braga. Sua magestade, sendo informada dos procedimentos e amontoados crimes que v. exc.a tem perpretado contra a disciplina da igreja, e ainda das mesmas leis, usando de sua regia piedade por esta vez (pois devia ser outro o exemplo), é servida que logo, sem perda de tempo, mande restituir por seus despachos a abbadessa do convento de Santa Clara de Villa Real á sua occupação, e as mais religiosas aos seus respectivos cargos, e as noviças continuem o seu noviciado, levantando a supposta excommunhão, e dando conta ao confessor do principe, o padre frei Mathias, incumbido dos negocios das religiosas, de tudo o que obrou, declarando n'ella o mo. tivo porque assim tinha praticado, e outra á secretaria para constar da sua execução. Palacio de

Nossa Senhora da Ajuda 10 de fevereiro de 1794. - José de Seabra da Silva. »

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Quem viu no começo do aviso o prelado arguido de amontoados crimes perpretados contra a disciplina da igreja, e logo adiante encontra uma ordem de restituir a abbadessa e as religiosas, e de mais a mais, as noviças aos seus officios no convento de Santa Clara, cuida que D. frei Caetano Brandão estava na sacrilega posse da abbadessa, das outras freiras eo que mais é de censurar e invejar-das noviças!

Apresso-me a desfazer a hypothese que se encosta á equivoca redacção do Aviso. O arcebispo não tinha freira nenhuma desgarrada do divino redil.

O que elle tinha era a santa e serena coragem de responder áquelle hypocrita de frei Mathias em termos que revêem o socego de alma invulneravel ás phrases insultuosas do ministro que em 1778 se havia recolhido de Angola com aquelle luxo de cortezia.

A razão do insulto é simplesmente miseravel. O arcebispo, fundado no seu direito, prohibiu que no convento de franciscanas de Villa Real professassem religiosas. A relaxação d'aquella communidade ia na vanguarda dos mosteiros onde

os vicios se rebalçavam mais soltamente. D'ahi a prohibição que punha a mira em desviar d'aquella gafaria as meninas ainda incontaminadas.

O vigario geral da terra era amante da prelada, bem aparentado na côrte, caprichoso e rico.

Foi a Lisboa, insinuou-se na estima de frei Mathias da Conceição, confessor do principe, e alcançou, por intermedio do frade, licença para professarem religiosas, directamente enviada á sua Heloisa d'elle vigario geral, que se parecia tanto com Pedro de Abeillard como com Origenes.

O arcebispo, avisado da desobediencia, excommungou a prelada, a escrivã, a rodeira, a boticaria, as cantoras, a organista, as noviças, todo aquelle harém, sujeito a um califado numeroso de padres, de fidalgos, de poetas, de todos os freiraticos da provincia. Uma balburdia!

Voltou a Lisboa o vigario geral, depois da excommunhão, posto que as excommungadas não tivessem fastio, nem extraordinarios ataques esthericos.

D'esta segunda ida, resultou o Aviso ultrajante que o leitor leu com assombro e indignação. D. Caetano respondeu ao confessor e ao ministro do regente, que garganteava canto-chão em Mafra devotamente. As cartas são longas e a

vida é breve. Da resposta enviada ao padre Mathias, trasladamos um periodo energico :

«... Espero que v. s.a se capacite de que não é o espirito de teima o que me anima ao presente lance; mas o desejo sincero que tenho de dar boa conta da minha administração ao supremo juiz dos vivos e mortos. Respeito com profunda submissão as ordens dos meus soberanos, e d'esta disposição creio tenho dado as provas menos equivocas em doze annos que vou contando de bispo, como podem attestar assim na America como no reino todos os que tem ouvido ou lido as minhas instrucções pastoraes. Mas esta obediencia ás reaes ordens sabe v. s.a perfeitamente que nunca deve extinguir no coração de um bispo o zelo que d'elle reclamam os legitimos direitos da igreja, sobre tudo quando se enlaçam tão apertadamente com a salvação das almas. O contrario seria transtornar a ordem que Deus tem estabelecido entre o sacerdocio e o imperio; é querer fazer a igreja captiva dos reis da terra convertendo-a em corpo politico, o que sem difficuldade, diz Bossuet, arguiria a mais inaudita lisonja que póde entrar no espirito humano... Uma cousa quero pedir mui confiadamente a v. s.a, e é que no caso que as razões expendidas lhe não pareçam suffi

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