Imagens das páginas
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pressão esvaíu-se; e a idéa fulge e apaga-se sem deixar mais signal que o relampago das noites de agosto, e o arrancar da aguia no seio das nuvens.

Ambas as especies pertencem ás minhas noites de insomnia. N'esta deploravel enfermidade, que ha seis annos me estila no cerebro gota a gota a peçonha da morte, achei traça de me vingar do acaso que embala o regalado dormir do meu cão, e me estrondeia nos ouvidos o marulhar das vagas entre penhascos. Vou ao jazigo das minhas illusões, exhumo os esqueletos, visto-os de truões, de principes, de desembargadores, de meninas poeticas á semelhança das que eu vi quando a poesia era o aroma dos seus altares. Vistome tambem eu das côres prismaticas dos vinte annos, aperto a alma com as garras da saudade até que ella chore abraçada ao que foi. E, depois, n'este festim de mortos, conversamos todos; e eu, no alto silencio, da noite, escrevo as nossas palestras. Ás vezes, entre muitos estridores que

me resoam nos ouvidos, o mais distincto é o dobre a finados. É quando a aurora reponta: a luz espanca as imagens cujo meio de vida é a treva e o silencio.

Venho então sentar-me a esta banca, dou fórmas dramaticas ao dialogo dos meus phantasmas, e convenço-me de que pertenço bem aos vivos, ao meu seculo, ao balcão social, á industria, mandando vender a Ernesto Chardron as minhas insomnias.

Eis a minha vingança, que abrangeria o leitor, se estes livros lhe não abonassem horas de somnolenta digestão de alguns artigos substanciosos. Estes artigos constarão da nobre sciencia da historia, nomeadamente de historia nacional, e muito das cousas pertencentes á fidalguia de raça que vai extinguir-se. É tempo de esgaravatar entre as ruinas do edificio derruido algumas reliquias aproveitaveis para a comedia humana. Mas nem tudo será escavar no lixo. Não vaguearemos sempre ao través dos pardieiros dos

antigos solares. Alguma vez nos sentaremos na testada da serenissima casa de Bragança conversando com os seus duques e monarchas n'aquella sem ceremonia permittida á arraia miuda de hoje em dia; mas escreveremos as nossas considerações, como lá dizem, de luva branca e penna de diamante. Desejamos que a posteridade se entretenha comnosco, e com o snr. conselheiro Viale. Elle e nós levaremos aos evos uma sincera historia de Portugal, e andaremos os dous, á compíta, a vêr quem maiores emborcações de morphina injecta nos nervos das gerações porvindouras.

CONSOLAÇÃO A SANTOS NAZARETH

Beati qui lugent, e não pagam.

A BIBLIA E EU.

Amigo!

Sensibilisou-me até ás lagrimas a noticia da sua prisão no theatro de S. Carlos, n'aquella funesta noite da sua citada prisão, como diria o nosso collega Jayme José Ribeiro de Carvalho.

Não foi a razão que motivou esta ternura: foi a amizade.

Vossê devia ser preso. Dizer que o espectador póde patear um espectaculo desagradavel e caro é duvidar que o espectaculo é que tem direito de patear o espectador.

Santos Nazareth ignora as leis do reino expungidas da jurisprudencia do Manique, e não tem

talvez opinião bem assente ácerca da transmigração das almas.

A metempsychose do famoso intendente geral da policia fez-se ha 60 annos, pouco mais ou menos, na pessoa d'esse alcaide do real alcaçar que enviou o meu amigo ao Limoeiro como enviaria Mattos Lobo e Diogo Alves, se os colhesse no theatro de S. Carlos em flagrante banzé. Admitta o plebeismo que tem o fartum fadista da cazerna e da guitarra, que ainda hoje chora saudades da Severa, e disputa ás trombetas bastardas de Pedro I as reaes delicias da sua progenie.

Quando a imprensa rugiu pelas suas guelas de zinco um rugido grande a favor de vossê, as minhas palpebras exsudaram perolas, na hypothese de que a intendencia da policia o obrigára a pagar aos quadrilheiros as despezas de o conduzirem aos ferros d'el-rei.

É que eu considerando-me em plena monarchia do Pina Manique, lembrou-me um caso acontecido ha 89 annos.

Raphael da Silva Braga, na noite de 2 de outubro de 1795, pateou uma cantora no theatro de S. Carlos.

O corregedor Pedro Duarte da Silva mandou dous quadrilheiros agarrar o espectador desgostoso, e mettel-o no Limoeiro.

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