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Villa de Taubaté

A Villa de S. Francisco das Chagas de Taubaté foi erecta em 1645 por Jacques Felix, natural de S. Paulo, e nella foi provedor e fundador, como procurador bastante da Condessa de Vimieiro. donataria da Capitania de Itanhaen. Este paulista, segundo escreve Pedro Taques, tinha passado de São Paulo com sua familia e grande numero de indios de sua administração, gados vaccum e cavallar; e tendo couquistado os bravos gentios da nação Gerominis e Puris, habitadores d'este sertão, levantou á sua custa igreja matriz construida de taipa de pilão, fez cadêa e caza de sobrado para o Conselho, moinhos para trigo, e engenhos para assucar. E'ra Capitão-mór Governador da Capitania de Itanhaeu Francisco da Rocha o qual, por sua provisão de 20 de Janeiro de 1636, concedeu ao dito Jacques Felix, como morador opulento e abastado da Villa de S. Paulo, que penetrasse o sertão de Taubaté, em augmento das terras da Condessa donataria de Itanhaen, D. Marianna de Souza da Guerra (Condessa de Vimieiro). Esta mesma provisão ratificou em 30 de Junho de 1639 Vasco da Motta, Capitão-mór governador da dita Capitania de Itanhaen, ordenando que concedesse, em nome da mesma Condessa donataria, uma legua de terra para rocio da villa e, aos moradores, que fossem accudindo a estabelecer-se na povoação, concedesse tambem terras por Sesmarias.

Por outra provisão de 13 de Outubro de 1639 mandou que Jacques Felix, Capitão-mór povoador, completas as obras para se acclamar em villa a povoação, fizesse aviso para se proceder este acto. Depois, por provisão de 5 de Dezembro de 1645, passada por Antonio Barbosa de Aguiar, Capitãomór governador, Ouvidor e Alcaide-mór da Capitania de Itanhaen, se acclamou em villa, na primeira oitava do natal deste mesmo anno de 1645 e se formou a eleição de Juizes ordinarios e officiaes da Camara, que entraram a servir no dia 1.° de Janeiro de 1646.

Todo o referido consta do processo que se acha no archivo da Camara desta Villa: nella ha um convento de religiosos Capuchos de Santo Antonio, com grandeza do ouro das Minas Geraes, então chamada « Mina dos Cataguazes », descobertas no anno de 1695, pelos paulistas Carlos Pedroso da Silveira e Bartholomeu Bueno de Siqueira, que apresentaram amostras deste novo descobrimento à Sebastião de Castro Caldas, que se achava encarregado do Governo do Rio de

Janeiro, depois da morte do Governador Antonio Paes de

Sande.

Mereceu a Villa de Taubaté que El-Rei D. João V mandasse nella estabelecer uma casa de fundição de Ouro para pagamento do seu real quinto, e della foi provedor o mesmo Carlos Pedroso da Silveira, até se extinguir a dita casa, que se passou depcis para dentro das mesmas minas.

(Hist. da Cap. de S. Vicente por Pedro Taques).

Monsenhor Pizarro em suas « Memorias Historicas do Rio de Janeiro refere que a casa de fundição de Ouro de Taubaté foi extincta pela Carta Regia de 7 de Fevereiro de 1704 pela qual se mandou suspender semelhante estabelecimento em Taubaté e fundar outro Registro no Rio de Janeiro.

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Suppomos, entretanto, que esse estabelecimento onde se registrava o ouro éra independente da « Casa de fundição que ahi foi creada por ordem de D. João V.

Na Capitania de Itanhaen houve, nessa época, outras < casas de fundição », além da de Taubaté. ( Vide Villa de Iguape e Paranaguá ).

A Villa de Taubaté que tão importante papel representou no decurso do periodo das grandes descobertas das minas de ouro, esteve ou deveria estar até 1753, ou 1792 sob o dominio e posse legal dos governadores da Capitania de Itanhaen; (*) si bem que uma ou outra vez, após a crêação da Capitania de S. Paulo, em 1710, os Capitães-generaes tentassem imiscuirem-se nos negocios publicos de Taubaté, e das demais villas do norte, procurando invadir a jurisdicção da Capitania dos Condes da Ilha do Principe, como se verá pelos documentos que vão transcriptos em outra parte desta obra, no capitulo que trata da Relação dos Governadores da Capitania de Itanhaen » e no litigio entre os donatarios. Esses documentos fazem menção do periodo florecente a que chegou a Villa de Taubaté na época em que o notavel paulista Carlos Pedroso da Silveira, natural desta mesma villa, exerceu não só o cargo de Capitão-mór · Governador vidor da Capitania de Itanhaen, como mais tarde o de Governador das tres villas da margem do Parahyba: Taubaté, Pindamonhangaba e Guaratinguetá.

«

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Ou

E' a esse florecente periodo da Historia Paulista, nessa zona do norte da Capitania de Itanhaen, que um illustre investigador dos fastos de nossa historia, tão judiciosamente denomina o cyclo espontaneo do ouro ».

() Não é uma affirmação, mas uma simples conjectura que fazemos, fundada em factos, visto não termos ainda dados positivos que nos provem o contrario. Si, entretanto, no decurso deste nosso estudo, chegarmos a encontrar provas em contrario à nossa supposição, ratificaremos com prazer o que ahi fica escripto sobre a jurisdicção da Capitania de Itanhaen, nesse ultimo periodo de sua existencia. Taubaté, não obstante estar dentro da jurisdicção da Cap. de Itanhaen foi, de 1710 em diante, elevada a categoria de «Cabeça de Comarca da Capitania de S. Paulo».

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Eis o que a respeito das Descobertas das Minas por Taubateanos» consta da Monographia do Dr. Francisco de Paula Toledo :

<< Os taubateanos naturaes de genio elevado e emprehendedor não se contentaram com as conquistas feitas, quizeram internar-se pelos sertões em demanda de novas riquezas e, fieis ás tradições de Jacques Felix, procuraram por sua intrepidez e coragem dominar as distancias, vencer a natureza, e plantar o nome taubateano nos sertões os mais remotos.

Foi, guiado por estes sentimentos, que o taubateano Antonio Dias conjunctamente com o padre João Faria Fialho, natural de São Sebastião e os paulistas Thomaz Lopes de Camargo e Francisco Bueno da Silva em o anno de 1699 e seguintes, transpuzeram em jangaias o rio Parahyba, penetraram a serra da Mantiqueira, até então nunca transitada, (*) e após immensos obstaculos, arrostando perigos da propria vida, foram descobrir os ribeiros da serra do Ouro Preto, assim chamada pela côr escura de suas rochas, e ahi extrahindo ouro, attrahindo para a sua companhia grande numero de immigrantes, que ávidos de riqueza, foram fundar a cidade de Ouro Preto, hoje capital da provincia de Minas.

Aquelle intrepido taubateano e estes valorosos paulistas não se contentaram com as minas descobertas; nos annos seguintes ainda penetraram e descobriram as serras do Pãodoce, do Ouro-podre, Ouro-fino, Queimado, Sant'Anna e a do Ramos, onde hoje existem grandes e importantes povoações.

Em 1681, quando o Provedor e Administrador Geral das Minas D. Rodrigo Castello Branco tentou descobrir de novo e explorar as minas de prata e esmeraldas da Serra de Sabarábuçú, a mandado do rei, lhe foi entregue um protesto do padre João Leite da Silva, que tambem se intitulava des obridor e dono dessas minas. Em uma carta que o dito Provedor das minas dirigiu aos officiaes da Camara de São Paulo, a 6 de Janeiro de 1681, dizia, ao tratar dessa exploração: « Esse Senado escreveu uma carta a esta administração de alguns particulares que tocavam ao serviço do Pincipe Nosso Senhor e, na dita carta me veio um protesto do padre João Leite da Silva, cousa que extranhei muito, porque o dito Padre não tem cousa alguma neste sertão que eu saiba, nem tem procuração do filho do defunto Fernão Dias Paes, o descobridor das pedras verdes que dizem ser esmeraldas.

O dito padre está muito enganado em fazer protestos sobre o que eu tenho de fazer, pela razão do meu posto. O capitão Garcia Rodrigues Paes (filho de Fernão Dias Paes) por carta que me escreveu e pelo manifesto feito nesta administração fez de tudo deixação ao principe N. Senhor etc.

Parece-nos que antes dessa data, já outros sertanejos haviam transposto a Serra da Mantiqueira.

Garcia Rodrigues Paes já havia, de facto, a 26 de junho de 1681, no Arraial de São Pedro em mattos de Parahibitiva, em pousadas do dito administrador D. Rodrigo Castello Branco feito entrega solenne dessas « pedras verdes » descobertas por seu pae, afim de que o administrador as enviasse para o Principe, aquem elle as fazia presente. ( Liv. de Registro Geral da Camara de São Paulo).

Ve-se por estes documentos que antes de 1699 já se havia penetrado nesses sertões de minas e que esse padre João Fialho, não foi o primeiro sacerdote que se internou e se imiscuiu no negocio das minas do Sabarabuçú, no primeiro eyelo da prata e das esmeraldas.

Posteriormente, no principio do seculo XVIII, existindo em Taubaté, de paes pobres porém honrados e emprehendedores, Thomé Fortes, o qual obtida a licença de seus paes em companhia de dois ou tres amigos desceu o rio Parahyba até a altura do Imbahú, d'ahi subindo a serra da Mantiqueira atravessou diversos riachos e serras até encontrar um rio que pelo volume de aguas foi pelo mesmo denominado Rio Grande, nome que até hoje conserva: ahi demorou-se o tempo preciso para fazer jangadas e canôas afim de transpor o rio; transposto o qual descobriu grandes campinas pelo meio das quaes serpenteava um rio, pequeno na massa de suas aguas, porém, grande nas riquezas que encerrava; este rio é hoje o rio das mortes.

As terras adjacentes são todas auriferas e Thomé Fortes tendo-as explorado e reconhecendo-as de facto terras auriferas saudou a seus companheiros e os convidou a baptisarem aquellas terras com o nome de – terras do Bomfim; e nesse mesmo dia escreveu a seus paes em Taubaté communicando haver sido bem succedido em suas empresas e ter descoberto grandes minas de ouro.

A fama deste successo constou logo no Rio de Janeiro e em Lisboa, e em menos de dous annos na margem esquerda do Rio das Mortes achava-se uma grande povoação, que é hoje a opulenta cidade de São João d'El Rey.

Por este tempo mais ou menos, outro taubateano de nome João Affonso Salgueiro descobriu as copiosas minas de ouro na serra denominada Ponta do Morro.

Este successo attrahiu para alli várias familias de São Paulo e São Sebastião, e deu logar á fundação de S. José d'El Rey.

E' dever do historiador imparcial neste logar consignar um facto historico de summa importancia para Taubaté, e é que o primeiro descobridor de ouro no Brazil foi Rodrigues de Arzão, natural de Taubaté, mas cujas viagens e derrotas para o interior são completamente desconhecidas ».

Diz este historiador de Taubaté, conforme ficou transcripto que os primeiros descobridores das minas de ouro, no Estado de Minas Geraes, foram: o intrepido taubateano Antonio Dias conjuntamente com o padre João Faria Fialho,

natural de São Sebastião e os paulistas Thomaz L. de Camargo e Francisco Bueno da Silva, em o anno de 1699 e que foram ainda estes exploradores << os primeiros que penetraram na serra da Mantiqueira

».

Parece que neste ponto o illustrado autor está em contradicção com o que affirmam alguns historiadores os quaes dizem que antes dessa época Jacques Felix e outros sertanistas já haviam penetrado nesse sertão, em busca de minas de ouro.

Durante a administração de Henrique Roballo Leitão, no governo da Capitania de Itanhaen, desde 1670 em deante já os paulistas Manoel Borba Gato e seu sogro Fernão Dias Paes, haviam feito, por ordem desse governador de Itanhaen uma notavel << entrada >> no dito sertão de Minas Geraes como provam esses documentos da Camara de São Paulo já citados na nota antecedente.

Em 1694 o famoso taubateano Carlos Pedroso da Silveira, que foi Governador e Ouvidor da Capitania de Itanhaen, emprehendeu, e levou a effeito uma exploração nesses mesmos sertões de Minas Geraes, em companhia de Bartholomeu Bueno de Siqueira e Miguel Garcia de Almeida. Essa memoravel expedição de Carlos Pedroso e Bartholomeu Bueno de Siqueira está hoje provado pelos documentos ultimamente encontrados nos archivos do Rio de Janeiro, na collecção dos papeis dos respectivos governadores, copiados e annotados pelo dr. Basilio de Magalhães.

Além destes descobridores que vimos de citar já outros, em meados do seculo XVI, haviam galgado a serra de Mantiqueira e percorrido esse sertão de Minas até as margens do rio São Francisco.

E' bem conhecida a << entrada » feita, nesse mesmo sertão, por Braz Cubas. em 1560, a qual é relatada pelo mesmo, em uma carta dirigida ao Rei de Portugal, com data de 25 de Abril de 1562.

Pela leitura desse documento vê-se que o capitão Braz Cubas subiu a serra do Mar, foi a Mogy e d'ali passou o Parahyba e galgou a serra da Mantiqueira, internando-se nesse sertão até es margens do Rio São Francisco, donde trouxe amostras de mineraes que mandou ao Governador da Bahia.

Estes factos, entretanto, não desmerecem a gloria que cabe aos filhos de Taubaté, pelo grande esforço que empregaram na exploração desse vasto sertão de Minas Geraes. nesse periodo aureo das descobertas cuja primeira iniciativa, corôada de exito, cabe a Carlos Pedroso da Silveira, Antonio Dias e outros.

« Com o correr dos tempos, refere ainda o historiador de Taubaté, crescendo as descobertas das minas e sendo o ouro minerado em grande quantidade, o Governador do Rio de Janeiro, Minas e São Paulo, Cesar Antonio Paes de Saudes, em Janeiro de 1695, determinou que houvesse na cidade de

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