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mos certo. A resolução, que tomaram, de recorrer ao poder legislativo parece, pelo contrario, indicar, que a dignidade resultára do voto eleitoral, e não da nomeação; porque, neste caso, não vemos razão por que não fosse cassada por nova decisão da camara. Como quer que fosse, aos governantes fallecia o poder necessario para compellir o chanceller á obediencia.

Um dos capitulos especiaes, que os procuradores do Porto ás côrtes de 1460 submetteram á consideração regia, refere-se a este assumpto. Os capitulos especiaes destas côrtes não se encontram na Chancellaria de D. Affonso 5.o, o que não admira, porque ella está muito truncada. Mas acham-se copiados nos livros de Leitura Nova. D'ahi extrahimos o capitulo relativo a este particular aggravo da cidade do Porto. Não reproduzimos a orthographia, por ser a do tempo de D. Manuel, e não a do original; mas transcrevemos integralmente o texto, que corre

assim:

Item, ao que dizeis que, confiando de Ayres Pinto, morador em essa cidade, o fizestes della chanceller, e lhe déstes o Sello; ora, quando de ahi vae fóra, o deixa á mulher, o que é muito fóra de regra; e depois de lhe disto fazerdes palavra, e elle prometter que, seguindo-se tal caso, o deixasse a cada um dos officiaes dessa cidade, o deixou á dicta sua mulher; e nos pedis que mandemos que, d'aqui em diante, o deixe a algum dos juizes do anno passado, de então mais chegado, sob pena de cincoenta dobras para os captivos, e deixar a vós vosso Sello, para o dardes a quem quizerdes: respondemos, que nos praz se fazer segundo requereis, sob a dicta pena» (1).

Na comminação penal, proposta no capitulo e sanccionada pelo rei, transluz a exasperação da governança municipal. Se reincidisse, Ayres Pinto perdia o seu cargo de chanceller, e havia ainda de pagar a multa de cincoenta dobras. Esta quantia, computando o peso do metal precioso e a sua depreciação, corresponde hoje a cerca de 2720000 reis em ouro. Era uma multa pesada.

E' para advertir que elles não allegam ter a justiça, ou a administração, padecido a minima lesão com a substituição do chanceller pela sua

consorte.

O campeão das faculdades femininas perdeu a requesta, mas, para o vencer, tornou-se necessaria a intervenção do rei em côrtes. Nesta fórma, a decisão tinha um valor legal muito superior á de uma simples carta regia. A resposta do monarcha aos capitulos apresentados em côrtes constituia a suprema auctoridade legislativa do reino.

A. COSTA LOBO.

(1) Torre do Tombo. Liv. 4.o de Alem Douro,, fl. 111.

As dadivas de Affonso de Albuquerque

A

FFONSO de Albuquerque era dadivoso, ou por inclinação natural, ou como quem sabe por experiencia propria que dadivas quebrantam penhas. A sua generosidade repartia-se em presentes, que destinava á côrte, aos amigos, aos sanctuarios e casas religiosas.

Effectuada a conquista e posse de Malaca, Affonso de Albuquerque deliberou partir para a India no principio de dezembro de 1511. A sua nau vinha abarrotada com o mais precioso do esbulho que elle recolhera na presa da opulenta cidade oriental. Nunca na India, nem antes nem depois d'aquelle feito, os olhos cobiçosos dos conquistadores se deslumbraram com tão ricos thesouros. Um temporal medonho fez sossobrar o navío do Governador, que mal poude salvar-se com a tripulação n'uma jangada. O mais tudo se afundou no pavoroso naufragio. Dir-se-hia que a Providencia castigava assim a rapina, poupando, misericordiosa ou justiceira, os delinquentes, para que elles sentissem na sua consciencia, como lembrança pungitiva, a perda das riquezas que tanto ambicionavam.

Entre os objectos de maior preço avultavam quatro perfumadores de ouro, em fórma de leões, cravejados de pedraria. Destinava os Affonso de Albuquerque a D. Manuel, juntamente com outras coisas de não menor estima e valia. Para a rainha vinham algumas mocinhas indigenas. Gaspar Correia calcula que este deslumbrante e original presente não valeria em Lisboa menos de um conto em ouro 1.

João de Barros, na Decada segunda da sua Asia, Livro 7.o Cap. 1 (fl. 98 v. da 1.a edição, 1553) narrando o mesmo episodio, moralisa o caso dos leões e accrescenta uma particularidade, de que não faz menção Gaspar Correia. Diz elle que no mesmo naufragio se perderam tambem uns

1 Gaspar Correia, Lendas da India, Tomo 11, pag. 268.

anneis de diamantes e rubís, que o insigne capitão mandava a Ruy de Pina, no intuito, já se vê, d'este lhe apregoar lisonjeiramente os feitos nas suas Chronicas.

Eu não tenho motivo para duvidar do testemunho e da bôa fé de João de Barros, que me parece homem probo e historiador conscienciso. Estimaría, porém, para mais o levantar no meu conceito, que elle omittisse esta circumstancia, que tinha de mais a mais um caracter de intimidade, nota confidencial, haurída n'uma carta particular. Affonso de Albuquerque não precisava de peitar ninguem para que os seus actos heroicos passassem à posteridade. Elles falavam bem alto de per si, embora nem sempre resoem altisonantes, de uma pureza irreprehensivel, no clarim da fama. Teem d'estas pequenezes os homens grandes e perdoemos-lhes as fragilidades, mais vulgares do que se pensa.

O que ha de mais censuravel, no meu entender, em João de Barros, é elle não se contentar em dar um remoque a Ruy de Pina, parecendo lastimar-se de não haver quem se lembrasse d'elle no seu mister de historiador, com o estimulo dos rubis e diamantes. A má vontade contra Ruy de Pina transparece claramente e pena é que a emulação litteraria perverta ás vezes os melhores engenhos, fazendo-os baixar a sentimentos menos dignos. Transcreverei aqui o trecho de Barros para que o leitor judicioso avalie por si proprio e decida em ultima intancia:

Mas pareçe, que permetio deos que estes liões de que elle fazia tanta conta pera memoria de seus feitos por serem mudos, è os anées de diamães e robijs que elle mandaua a Ruy de Pina chronista mor deste reino como nós vimos em cartas que lhe elle escreuia, porque podiam ser sospectos na lhe seruissem pera a memora que elle desejaua de sy: mas que ficassem sumidos os liões nos baixos de Aru, e os anees no esquecimento delle Ruy de Pina. E que eu murmurádo de muytos por nã ser professo em nome deste officio descreuer e ocupádo no de minha profissam, aquy e na chronica delrey dom Mannuel a mym jmpropriamente cometida passádos trinta annos de seu falecimento, viesse dar conta dos liões e dos anees: como se os eu teuera em recepta ou algum premio que me obrigara soffrer os trabalhos desta escriptura, que segundo me carrega a engratidam, delles, nam sey se fora mais justo leixar os liões e os anees em poder de quem os consumio, porem porque os mortos nam tem culpa, e aos que estam por vir póde ser que lhe seja mais acepto este meu trabalho que a muytos presentes, nam quero que Afonso dAlboquerque perca os liões e a Ruy de Pina façalhe boa pról os seus anées; nos quaes liões e anées e assy em todo o mais que ante desta minha escriptura estaua sepultado no descuido de meus naturaes, eu espero ter aquella parte, que tem aquelles que acham cousa perdida e a dam seu dono.>

No meu opusculo O orientalismo em Portugal no seculo XVI, extrahido do Boletim da Sociedade de Geographia, n.o 7 e 8 da serie 12 (1893), dei uma nota dos presentes que Affonso de Albuquerque declara nas suas Cartas ter enviado á côrte. São elles todos, não só de valor intrinseco, mas de estimação historica e, se existissem hoje, formariam um bello nucleo de museu oriental. Faça-se idéa por esta breve indicação: - tres alcatifas da Persia, que houvera dos embaixadores do Xeque Ismael e do rei de Or

muz; um saio de brocado; estofos e velludos tomados n'uma nau de Meca; aljofar do tributo de Ormuz; cabo do andor do rei de Calicut; uma adarga da Persia do Xeque Ismael; espada, rubi e copa de ouro do rei de Siam. No inventario do expolio de D. Manuel não se me depararam vestigios d'estes objectos, salvo se estão descriptos sob fórma muito diversa. Com respeito directamente a Affonso de Albuquerque, só encontrei a seguinte

verba:

It. R⚫ mais duas peles de couro roxo cortydas que diz que sam das alymaryas em que naxe o almyzcare, que mandou Afonso d'Alboquerque.» Em 25 de novembro de 1515 foi recebido no convento de Palmella, com solemne procissão, um presente que Affonso de Albuquerque mandára da India ao patrono da Ordem, Santiago, e que constava de um bordão, uma vieira e umas contas, tudo de ouro. O voto devia ter sido feito ainda em vida do piedoso capitão. Este facto acha-se exarado entre as notas soltas de um codice pertencente ao cartorio d'aquelle convento (1).

Por sua morte Affonso de Albuquerque contemplou diversas casas religiosas, como foram: Nossa Senhora de Guadalupe; Santiago de Palmella e de Galliza; Nossa Senhora da Serra, em Villa Verde; Nossa Senhora da Conceição na Athouguia; Santo Agostinho da Graça em Lisboa; Nossa Senhora do Cabo, da Ajuda, da Merceana, da Pena em Cintra; Bom Jesus de S. Domingos de Lisboa; Senhor de Mathozinhos. O sr. Christovão Ayres na sua memoria sobre o Testamento de Affonso de Albuquerque, só relaciona os nomes das corporações religiosas que foram contempladas, sem registar os donativos (2).

Com respeito a Nossa Senhora de Guadalupe, temos um informador curioso, que nos revela a escencia da offerta. Gaspar Barreiros, na sua viagem a Roma, atravessou a Hespanha, tomando nota do que encontrou de curioso nos logares principaes do seu trajecto. No mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe, um dos sanctuarios mais afamados da Hespanha e da christandade, observou com sentimento patriotico algumas memorias que lhe recordavam coisas e homens eminentes de Portugal. Entre ellas um pelouro ou bala de pedra, que descreve, com outros objectos preciosos, da seguinte maneira no folio 36 da sua Chorographia:

Mostra n'esta sancristia antre outras peças de Portugal, hũ pelouro de bōbarda que Affonso de Albuquerque gouernador da India mandou a esta casa em reconhecimento de hum milagre q nossa Sñora de Guadalupe fez por elle stando no cerco de Goa, porq indo por o rio em bateis acertou hū tiro a hum dos q hiam junto d'elle, q os miolos da cabeça é q lhe deu, saltaram no rostro ao dicto Affonso de Albuquerque. O qual vendo se em tã perigosos passos, se encomendou muito deuotamete á Nossa Sñora de Guadalupe, & inda nam acabava de se encomendar a ella, quando hua peça d'artelharia desparou hum pelouro de ferro coado cuberto de chumbo que lhe acertou nos peitos, sem lhe fazer mais dano

(1) Pedro A. d'Azevedo, Lembranças num codice do cartorio de Palmella, no Archivo Historico Portuguez, vol. 1, n.o 10, pag. 337 e seguintes.

(2) Christovão Ayres. Testamento de Affonso de Albuquerque, pag. 25 e seguintes.

q cair a seus pes, sendo tã pequena distancia d'onde tirou q nam auia mais de quarenta passos. O qual pelouro mandou á Nossa Senhora metido em húa caixa de prata redonda per hum criado seu chamado Fructus de Cepta com D. cruzados em dinheiro, & hum colar d'ouro que pesa outros quinhētos cruzados, afora muita pedraria de Robis & Diamães q tem, & mais hua alampada de xij marcos de prata. Este colar tem Nossa Senhora ao pescoço nos dias de festa, q inda esta horra parece mereceo a Deos Affonso de Albuquerque por quantos seruiços lhe fez na India.»

Vê-se que Affonso de Albuquerque possuia em alto grau o sentimento religioso, levado talvez até á crendice e superstição. Não se emancipára dos preconceitos da época, o que não é para extranhar, dominando o fanatismo imperiosamente. Desejando estar nas boas graças de Ruy de Pina, para que o historiador o tratasse favoravelmente na Chronica de D. Manuel, Affonso de Albuquerque erguia ao mesmo tempo os olhos ao ceu, invocando a protecção dos santos. Tantas vezes se indispozera com os homens por amor do rei e com o rei por amor dos homens, que era muito natural mostrar-se receioso da justiça divina. Os santos da sua devoção seriam porém procuradores e advogados da sua causa no dia tremendo do juizo final.

Se a sentença de Deus coincidirá com a sentença da historia?

SOUSA VITERBO

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