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Quando porem uma maior variedade de assumptos se offereceo á curiosidade particular de cada leitor, accentuando-se melhor a indole do Archivo, como obra de consulta, como reportorio facil, para promptas indagações, então começou este a despertar mais algum interesse, e a ser melhor comprehendido o seu fim.

Cumpre porem incidentemente registar um facto significativo, que não deve passar desapercebido, como caracteristico do estado actual da nossa sociedade. Foi o seguinte:-em em quan to pessoas com habilitações litterarias se faziam eliminar do numero dos assignantes do Archivo, não poucos filhos do povo corriam voluntariamente a inscrever seus nomes. A indifferença dos primeiros, correspondia a diligencia dos segundos, ávidos de instrucção, que os eleve acima da esphera das suas occupações manuaes, e anciosos de procurar nas occupações do espirito o necessario repouso das rudes lides do trabalho.

Aquelles, com o gosto embotado pelo uso e abuso de uma litteratura ennervante, repelliram como enfadonhas as paginas graves da historia, que estes saborearam com prazer, buscando 'nellas o que nas escolas lhes não ensinaram! Este facto, alem de honroso para o nosso povo, torna bem patente a urgente ne~ cessidade de lhe proporcionar uma instrucção adequada e condigna da civilisação actual.

Como meio conducente ao melhoramento futuro do Archivo, aproveitaremos a occasião de mais uma vez appellar para o patriotismo e boa vontade de todos aquelles que pe

las suas luzes, podem e devem concorrer para a diffusão da instrucção. Ha bastantes filhos dos Açores, com talento e erudição, mais que sufficientes para enriquecerem com suas lucubrações as paginas do Archivo; a todos as patenteamos, convidando-os para nos coadjuvarem n'esta tarefa civilisadora. É vastissimo o campo das explorações, ha n'elle logar para obreiros de todas as especies, concorram pois todos, conforme suas aptidões, que assim se fará obra mais perfeita.

A todos quantos corresponderem a este pedido, desde já agradece reconhecida :

Ponta Delgada 2 d'Abril de 1880.

A Direcção.

COLLECÇÃO DE DOCUMENTOS

RELATIVOS ÁS ILHAS DOS AÇORES

Extrahidos do Archivo Nacional da Torre do Tombo.

Carta de perdão a Joham de Guimarães, de 7 de Dezembro 1458.

Dom Affonso &. A todollos Juizes e Justiças dos nossos regnos a que esta nossa carta for mostrada, saude: sabêde que Joham de Guimarais, homem solteiro, portador da presente, nos emvyou dizer, que estamdo elle na Villa de Samtarem viera a aver affeiçom com huma Briatiz Annes, mulher de hum Martim Annes, hy morador, com a qual se elle fora e a levara pera a ylha de Sam Miguel, levando elle e a dita Briatiz Annes algumas cousas ao dito seu marido de sua casa pera seu repairo em a dita ylha. Em a qual ylha elles viverom çertos annos ambos, e ouvera da dita Briatiz Annes hum filho, polla qual razom o dito Martim Annes querellara delle e da dita sua mulher. E depois que assi delles querellara, soubera parte como estavom na dita ylha, e se fora la e requerera ás justiças que lhe entregassem a dita sua mulher, a qual lhe fora entregue con todallas cousas que lhe forom levadas, e muyto mais damdose de todo por entregue assi das das (sic) ditas cousas como da dita sua mulher e bees que lhe assi levarom, e do que lhe a ella e ao dito Joham de Guymarães fora achado. E mamdamdo lhe dello assi dar hum estormento, e que o tabelliam que o dera que em vez de poer que o dito Martim Annes perdoava a elle dito Joham de Guymarães, fora somente poer a dita Briatiz Annes e mais nom. O qual estormento elle peramte nós apresentou que parecia ser fecto e asignado per Pedralvares, tabelliam em a dita ylha, aos vinte e oyto dias de setembro do anno pasado de mil e quatroçemtos e Lbij (57), pello qual se mostrava que o dito Martim Annes disera que elle era entregue da dita sua mulher, e de todo o que o N. 7 Vol. II-1880

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dito Joham Joham (sic) de Guymarães lhe com ella levara, e muito mais, e lhe tynha ja perdoado. Segumdo em o dito estormento todo esto e outras cousas em o dito estormento se continha mais compridamente. E que ora elle dito Joham de Guymarães nos fora servir na armada que fazemos pera a filhada dAlcaçer, (*) em a qual armada e filhada da dita villa nos elle fora servir. E que porem nos pedia por mercê que pois o dito Martinhannes ja era entregue da da (sic) dita sua mulher e das cousas que lhe forom levadas que em galardom do serviço que nos fezera lhe perdoasemos a nossa Justiça se nos a ella per razom do malleficio e adulterio que com a dita Briatiz Annes ao dito seu marido cometera, e cousas que lhe levara em algua guisa era theudo. E nós vemdo o que nos elle assi dizer e pidir envyou, e o perdom geral per nós outorguado aos omiziados que nos em a dita armada e filhada da. . villa servirom. E como elle nos servio em ella per sua pesoa e visto o dito estormento e como se mostre que o dito Martinhannes se deu por entregue da dita sua mulher e cousas que lhe com ella forom levadas. E querendo the fazer graça e merçê, Temos por bem e perdoemos lhe a nossa justiça a que nos elle por razom da levada da dita mulher e cousas que com ella levou, e adulterio que com ella cometeu era theudo, e porem vos mandamos que o nom prendaes, &. carta em forma, dada em Evora bij (7) dias de dezenbro, elrey o mandou pelo sobredito doutor Lopo Vaz de Serpa, Joham de Villa Real a fez, anno de iiij L biij (458).

(Arch. nac. da Torre do Tombo, Liv. 36.o da Chanc. de D. Affonso V, f. 249).

Copiada e conferida, como as seguintes, pelo sr. Jacintho Ignacio de Brito Rebello. Lisboa 1880.

Para facilitar a leitura deste e dos seguintes documentos, substituiram-se os U por v os-j-por-i-e nos nomes proprios as iniciaes por maiusculas, supprimindo-se igualmente as letras dobradas, proprias da orthographia antiga &.

(·) A tomada d'Alcacer foi em 1458.

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