Obras de Luis de Camões ..., Volume 2

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Na Offic. de S.T. Ferreira, 1783
 

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Passagens conhecidas

Página 206 - Inutil e despido, calvo e informe, Da natureza em tudo aborrecido; Onde nem ave voa, ou fera dorme, Nem corre claro rio, ou ferve fonte, Nem verde ramo faz doce ruido; Cujo nome, do vulgo introduzido, He Feliz, por antiphrasi infelice; O qual a natureza Situou junto á parte, Aonde hum braço d' alto mar reparte A Abassia da Arabica aspereza, Em que fundada ja foi Berenice, Ficando á parte, donde O sol, que nella ferve, se lh...
Página 360 - Sem imaginar a água donde nace, Nem quem a luz occulta no horizonte. Tangendo a frauta donde o gado pace, Conheceria as hervas do alto monte: Em Deos creria simples e quieto, Sem mais especular algum secreto.
Página 161 - ... castanheiros; o manso caminhar destes ribeiros, donde toda a tristeza se desterra; o rouco som do mar, a estranha terra, o esconder do sol pelos outeiros, o recolher dos gados derradeiros, das nuvens pelo ar a branda guerra; enfim, tudo o que a rara natureza com tanta variedade nos oferece, me está, se não te vejo, magoando.
Página 91 - Longo tempo apos si me trouxe cego, De vós me aparto, si; porém não nego Que inda a longa memoria, que me alcança, Me não deixa de vós fazer mudança, Mas quanto mais me alongo, mais me achego Bem poderá a Fortuna este instrumento Da alma levar por terra nova e estranha, Offerecido ao mar remoto, ao vento. Mas a alma, que de cá vos acompanha, Nas azas do ligeiro pensamento Para vós, águas, voa, e em vós se banha.
Página 53 - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades; Muda-se o ser, muda-se a confiança Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem. se algum houve, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto. Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. E afora este mudar-se cada dia. Outra mudança faz de mor espanto. Que não se muda já como soía.
Página 111 - Ondas — dizia — antes que Amor me mate, Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo Me fizestes à morte estar sujeita ! — Ninguém responde ; o mar de longe bate ; Move-se brandamente o arvoredo ; Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita...
Página 207 - Alguma já passada e breve glória Que eu já no Mundo vi, quando vivi, Por me dobrar dos males a aspereza, Por mostrar-me que havia No Mundo muitas horas de alegria. Aqui estive eu com estes pensamentos Gastando o tempo ea vida; os quais tão alto...
Página 356 - Ainda que lhe vira aberto o peito, Se a má Fortuna, ao bem somente avara, O reprime e lhe nega seu direito, Que lhe não fique o peito congelado, Por mais e mais que seja exp'rimentado ? Demócrito dos deuses proferia Que eram sós dous: a Pena e Benefício.
Página 207 - Não tendo tão-sòmente por contrários A vida o sol ardente e águas frias, Os ares grossos, férvidos e feios; Mas os meus pensamentos, que são meios Para enganar a própria natureza, Também vi contra mi, Trazendo-me à memória...
Página 284 - Porque o tempo ligeiro não consente Que estejam de firmeza acompanhadas. Vi já que a primavera, de contente, Em variadas cores revestia O monte, o campo, o valle, alegremente.

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