Imagens das páginas
PDF
ePub

dedicada a S. Thiago, que foi matriz d'uma freguezia, mas hoje apenas existe o nome de largo de S. Thiago, no local onde ella esteve. Ourem foi a primeira terra portugueza que os nossos reis deram a seus filhos, pois que D. Affonso Henriques a doou em 1158 a sua filha D. There reza, que em 1184 casou com o conde de Flandres Filippe d'Alsacia. Foi esta senhora, em 1180, que deu o primeiro foral á villa, que depois D. Affonso II confirmou, em Coimbra, em novembro de 1217. El-rei D. Manuel deu-lhe toral novo, em Lisboa, a 6 de maio de 1515. Ourem teve uma sentença sobre este foral, em 12 de fevereiro de 1530 D. Pedro II concedeu lhe foral novissimo em Lisboa, a 6 de julho de 1695. E' esta uma das poucas terras do continente que possuem d'estes foraes. D. Affonso Henriques e sua filha D. The reza esmeraram-se em tornar Ourem uma praça inconquistavel. Era tão temida esta fortaleza, que o Miramolim de Marrocos, ajudado por Albu jaque e outros emires, vindo com um temeroso exercito sobre Portugal, em 1185, caiu sobre Torres Novas, que saqueou e destruiu arrazan do-lhe o castello, e não se atrevendo a atacar Ourem, foi pôr cêrco a Santarem, onde estava D. Sancho, mais tarde rei D. Sancho I, mas ali en controu a sua total ruina, porque D. Affonso Henriques marchou logo de Coimbra em defeza de seu filho, e tão furiosa batalha se travou contra os moiros, a 10 de julho d'esse anno, que o Miramolim morreu no combate, e o exercito ficou anniquilado, deixando em poder dos vencedores os despojos riquissimos, fructo dos saques que tinham feito. Dizem que foi a primeira donataria da villa a infanta D. Thereza, que trocou o an tigo nome de Abdegas em Ourem, em memoria e honra d'uma heroina do seu tempo, de quem se tornara amiga, uma gentil moira, chamada Fati ma, que o esforçado Gonçalo Hermingues, o Tra ga moiros, n'uma correria que fez por terras de infieis no anno de 1170, captivara nas visinhan ças d'Almada, onde ella vivia. Ambos se apaixonaram; a joven moira converteu se ao Christianismo tomando o nome de Oriana. Casaram e vieram viver para esta villa, onde nascera Gon çalo Hermingues, que ficou chamando-se Oriana, e que por corrupção se tornou em Ourem. Esta tradição é duvidosa para muitos escriptores. (V. Hermingues, Portugal, vol. III, pag. 915). Foi se gunda donataria de Ourema rainha D Mecia Lo pes de Haro, mulher de D. Sancho II; continuou a sêl-o, mesmo depois da deposição de seu marido, a 6 de setembro de 1245, e ainda depois da sua morte, succedida a 4 de junho de 1248. O conde de Bolonha, depois D. Affonso III, ou confirmou a doação de seu irmão, ou deixou sua cu nhada gozar em paz este senhorio. O povo, porém, desesperado pelo mau governo de D. Sancho II, e contra a rainha, a quem tornavam a prin cipal culpada, amotinou se a tal ponto, que os revolucionarios commandados por D. Raymundo Viegas Porto-Carrero, avançaram até Coimbra, onde estava a côrte, e ali reunidos ao povo da cidade, arrebataram D. Mecia, trazendo a para Ourem, encerrando-a no castello d'esta praça. Em 1255 ainda a rainha ali se conservava, passando depois á Galliza (V. D. Mecia Lopes de Haro, Portugal, vol. IV, pag. 950). O senhorio de Ourem conservou-se no dominio da corôa até 1282, em que el rei D. Diniz, casando com a rai

[ocr errors]

e

nha Santa Izabel, lhe deu muitas villas, sendo Ourem uma d'ellas. O infante D. Affonso, irmão de D. Diniz disputou-lhe a corôa, allegando que este era filho adulterino, por ter nascido ainda em vida da condessa de Bolonha D. Mathilde. Santa Izabel congraçou os dois irmãos, e D. Affonso entregou ao rei todos os castellos e senhorios da fronteira do Alemtejo, recebendo em troca os senhorios de Ourem e Cintra. Fallecendo D. Affonso em 1315, sua filha D. Izabel pretendeu suc. ceder no senhorio d'esta villa, como legitima herdeira de seu pae. O rei oppôz-se, houve litigio, as partes commetteram a decisão a juizes arbitros, que foram os bispos de Lisboa, Coimbra e Evora, os quaes deram a sentença contra D. Izabel, Ourem voltou para a coroa. Por fallecimento de D Affonso IV, em 28 de maio de 1357, seu filho D. Pedro I fez doação do senhorio de Ourem a sua mãe, a rainha viuva D. Brites, que a possuiu emquanto viveu. Em 1 84 era alcaide-mór de Ourem o conde de Barcellos D. Affonso Tello de Menezes, irmão de D. Leonor Telles, que seguiu o partido de D. João I, de Castella. D. Lopo Dias de Sousa, mestre da ordem de Aviz, que seguia o partido de D. João mestre de Aviz, veiu com os seus cavalleiros a Ourem na intenção de persuadir o alcaide a abandonar o parti do de Castella, porém D. Affonso lhe fechou as portas. Então D. Lopo, indignado, lhe escalou as muralhas e entrou na villa. O alcaide fugiu, e foi unir se aos castelhanos, e D. Lopo reduziu a guarnição ao partido do Mestre. N'uma vasta planicie, chamada Alvejáres, a 2 k. a O da villa, acampou em 11 de agosto de 1385 el-rei D. João I e o condestavel D. Nuno Alvares Pereira com seu exercito, vindo de Thomar, para darem a batalha d'Aljubarrota, que se realisou no dia 14, e- logo em 18 o condestavel voltou a Ourem, a dar graças a N. S. da Purificação, de Ceiça, que é quasi no fim da ribeira de Ourem, 6 k. a É d'esta villa. A jornada do condestavel foi para cumprir o voto que fizera áquella imagem de vir em romaria dar lhe graças pela victoria, se a alcançasse. N'esta jornada passou pelos valles de Calca Terra, caminho fragoso, por entre elevados montes, a 6 k. de Ourem, e ouviu uns tristes gemidos, que saiam d'umas brenhas. Dirigiu-se ao sitio, e achou um castelhano, que escapara perigosamente ferido da batalha d'Aljubarrota, nos braços de sua mulher. Mandou desmontar um dos seus creados e collocar o ferido com as maio. res precauções e caridade, e o levou até à pequena aldeia de Pédélla, que depois se chamou Aldeia da Cruz, na ribeira, logo abaixo do monte de Ourem, mandando o ahi curar. O castelhano recuperou a saude, e D. Nuno lhe mandou fazer casas para habitar com sua mulher, junto do mesmo logar. Ao local onde estas casas existiram, se dá hoje o nome de Casella, e seus filhos tomaram o nome de Castelhanos. Tambem consta, por tradição, que n'esta jornada, chegando o condestavel a um sitio, hoje chamado Regato, entre Ourem e a Aldeia da Cruz, e proximo ao rio que corre pelo meio da ribeira, teve a noticia de estar mortalmente ferido seu irmão Pedro Alvares Pereira, que tinha tomado o partido de D. João I, de Castella. Confirmada depois esta noticia mandou fazer suffragios por alma do irmão, e determinou que no sitio do Regato, onde tivera a primeira noticia, se collocasse para memoria

[ocr errors]

ma cruz. Esta cruz por varias vezes caiu e foi econstruida, porém só d'ella existe o pedestal, = d'ella provém o nome de Aldeia da Cruz, que é hoje Villa Nova de Ourem, onde está a éde do conc. assim denominado. Era costume arorar-se aqui a cruz da collegiada de Ourem, ôr-se o cabido em habitos canonicaes, e cantar am responso por alma de Pedro Alvares Pereira, com assistencia da camara e povo, que iam cumprir o voto á Senhora da Ceiça. Voltando o conlestavel da romaria, tomou posse, no mesmo dia, lo senhorio de Ourem, de que D. João I lhe fisera mercê. No dia seguinte foi para o sitio, ho e chamado S. Jorge, em cujo logar estivera a bandeira real no dia da batalha, e ali mandou dificar uma capella com a invocação de N. S la Victoria, e de S. Jorge, por ser este sauto to ado como padroeiro de Portugal desde a batalha 'Aljubarrota. Depois de construido o convento e N. S. da Victoria da Batalha, só se dá a esta apella o nome de S. Jorge. Na villa de Ourem xistia na encosta do monte, o convento de San o Antonio, da provincia da Soledade, cuja funação principiou em 1600, pelos irmãos da conaria de Santo Antonio, de Ourem, concorrendo ambem com avultadas esmolas D. Thedosio, 7° uque de Bragança, que ficou sendo seu padroeio, passando este padroado para a Coroa desde 1. de dezembro de 1640. D. João V mandou, m 1749, reconstruir o côro e o frontispicio da greja, na qual está a seguinte inscripção em laim, cuja traducção é a seguinte: Causar-te-ha dmiração vêr uma obra tão rica, onde se proessa pobreza perpetua; porém não é para admiar, sabendo que a excelsa majestade de D. João 7 mandou fazer esta rica e primorosa obra. No onvento, que está hoje em ruinas, se fundou o ospital da Misericordia, que se vê agora instal ado n'um bello edificio, legado para esse fim por ma illustre familia de appellido Almeida, á enrada da villa de Ourem, com o titulo de Hostal de Sonto Agostinho. Logo abaixo d'este conento, na estrada que desce para a ponte da Corredoura, esteve até 1800 a Fonte dos Namoados, fóra do portão da quinta d'este nome, que epois foi do capitão-mór Antonio Castellino, endo sobre a bica esta inscripção:

ESTA OBRA MANDOU FAZER, VIDAL HOMEM CUSTA DO POVO, no anno de 1571.

D'esta fonte já nem vestigios existem. Na extena planicie dos Alvejáres existia a antiga capela de S. Sebastião, entre a corrente dos dois ios, um que vem da Silveira, trazendo as aguas a fonte do Azambujal, que fica ao S; outro, dos alles de Calca-Terra, que fica a O, os quaes se untam passada a capella. Esta capella foi inceniada pelos francezes em 1810. Os portuguezes os primeiros tempos da monarchia acharam tão gradavel o sitio e o termo de Ourem que em 220 já a villa contava quatro parochias, perten

entes

ram:

ao convento scalabitano (de Santarem), Santa Maria, S. Pedro, S. Thiago e S. oão Baptista. Em 1445, o conde d'Ourem D. Afonso, depois 1.° marquez de Valença, neto de ). João I e filho primogenito do 1o duque de ragança D. Affonso, impetrou e obteve do papa ugenio IV uma bulla para unir todos os benecios das quatro parochias, tendo antes, cada

uma

uma, 1 prior e 6 beneficiados, e o priorado de Freixiandas, que ficou vigararia, sendo depois curato. D. Affonso edificou logo a egreja de N. Sa das Misericordias, sumptuoso templo e séde da real collegiada do seu titulo, e hoje unica matriz da villa com o titulo de N. S. da Visitação. Tem o côro na capella-mór, e n'elle se celebravam todos os dias os officios divinos pelo prior, chantre, thesoureiro-mór, 10 conegos, 2 capellães do cabido, e mais 5 instituidos pelo conego que foi d'esta collegiada, Antonio Henriques, pelos annos de 1652. Tinha 6 meninos de côro. Quando se construiu a egreja subia se para a porta principal por 7 degraus, mas por causa dos entulhos causados pelo terremoto de 1755, só ficaram descobertos. Do corpo da egreja para a capellamór ha 5 degraus. Do pavimento do côro, por duas portas que tinha aos lados das escadas por onde para elle se subia, desciam-se 15 degraus para sumptuosa capella, que debaixo do mesmo côro e capella mór, destinou o fundador para seu jazigo; sustentando a abobada d'esta capella 6 grandes columnas, entre as quaes se levanta uma urna magnifica de optimo marmore brauco, primorosamente lavrada, onde se guardam as cinzas do mencionado conde d'Ourem D. Affonso, cuja effigie está deitada sobre ella, em vulto majestoso. Em volta da urna, n'uma faxa que fica por baixo da cimalha, se lê, em formoSos caracteres gothicos, esta inscripção: «Aqui jaz o illustre principe D. Aftenso, marquez de Valença, conde de Ourem, primogenito de D. Affonso, duque de Bragança e conde de Barcellos; e neto de el rei D. João, de gloriosa memoria, e do virtuoso e de grandes virtudes, D. Nuno Alvares Pereira, condestavel de Portugal, que falleceu em vida de seu pae, antes de lhe dar a dita herança, de que era herdeiro, o qual foi tunda. dor d'esta egreja, em que jaz; cuja fama e feitos, hoje e este dia florescem. Finou-se a 19 dias do mez de agosto, do anno de N. Sr. Jesus Christo de 1644. Todos os mezes ia o cabido a esta capella cantar uma missa por alma do fundador.

templo soffreu graves prejuizos com o terremoto de 1755. Abateu completamente, ficando as imagens debaixo do entulho das suas ruinas, as quaes foram depois desenterradas por devotos. Tambem caiu a urna de prata, que encerrava n'um sacrario, sobre o altar da capella-mór, a cabeça de Santa Thereza, que todos as annos era exposta á veneração do povo, em 3 de setembro, no altar das almas, debaixo do qual, n'uma arca de pedra, jazia o corpo da mesma santa, que vie ra para aqui da egreja de S. Thiago. Esta santa era natural de Ourem, tendo nascido no logar do Azambujal. Foi Antonio Pereira, homem do sitio dos Valles, proximo da villa, quem desenterrou a imagem da Santa, ajudado por outras pessoas. A santa foi achada sem a minima lesão, e levada para a capella de Santo Amaro, ao pé da villa, que escapou ao terremoto. Passados poucos annos o bacharel José Gomes, natural de Ourem, mandou fazer uma nova imagem, que foi collocada na capella das Almas da collegiada, depois de reconstruida. Fez-se novo sacrario, no altar de S. José, para se depositar a cabeça da santa e o precioso relicario, que o fundador dera á collegiada, enriquecido de varias reliquias de grande veneração, que ainda hoje existe. El-rei D. José I, como administrador da Casa de Bragança,

ordenou a reedificação da egreja, principiando as obras em janeiro de 1758, e terminando em novembro de 1770, em cujo anno se trasladou para ali o Santissimo Sacramento e o cabido, com assistencia da camara, nobreza e povo. Espavorido o povo de Ourem com o terremoto de 1755 fugiu da villa, indo procurar abrigo pelas povoações visinhas. Os conegos fôram para a Aldeia da Cruz, e fizeram coro na capella d'este logar, onde celebraram es officios divinos durante 6 mezes. Depois se levantou um côro de ma deira na capella-mór da Misericordia, e se mudaram para ella até ao complemento da reedificação da sua collegiada. O Santissimo Sacramen. to esteve na capella de S. José, que serviu provisoriamente de egreja parochial, menos para os baptismos, que eram feitos na Misericordia. A primitiva collegiada, antes do terremoto, tinha uma só porta principal, com uma primorosa fachada, sendo as paredes interiores revestidas de bons azulejos. Para o S havia uma porta travessa, que era a principal da freg. de Santa Maria, quando na villa existiam as 4 parochias. Escapou das ruinas a capella do fundador, que es. tava debaixo do altar-mór, o côro, a imagem da padroeira, o sacrario, o citado relicario, a cabeça de Santa Thereza, pois caindo o tecto, só ficou de pé o que estava sobre estes objectos. Em 17 de novembro de 1810 foi Ourem invadida pelas tropas francezas do general Massena, que saquearam a villa e praticaram as maiores atrocidades. Todos os habitantes fugiram, andando escondidos pelos montes, emquanto os invasores ali se conservaram. Os francezes fôram ao mausoléo de D Affonso e despedaçaram grande parte dos ornatos, espalhando as cinzas venerandas que ali jaziam. Afinal, o bravo exercito angloluso expulsou de Portugal Massena e o seu exer cito, que entrou em desordem na Hespanha a 15 de abril de 1810. Os habitantes regressaram então ás suas casas, que encontraram saqueadas e algumas destruidas. O conego Joaquim Honorio Henriques de Oliveira, apenas se recolheu, fez á sua custa concertar a urna funeraria, como foi possivel, e ajudado pelos conegos Ma nuel Honorio d'Oliveira e Carlos Joaquim de Sousa, recolheram as cinzas que lhes foi possivel encontrar do fundador da collegiada, que fôram guardadas n'um pequeno cofre, ficando este dentro da urna, gravando se-lhe uma longa inscripção latina, explicando este facto A urna profanada fôra mandada construir por D. Fernando II, duque de Bragança, sobrinho do fundador do templo, mas fallecendo antes de estar prompta, D. João II a mandou concluir, sendo para ali trasladado em 8 de junho de 1487 o cadaver, d'uma capella da egreja de Santa Maria, de Thomar, onde tinha sido sepultado. Os francezes no seu vandalismo, em 1810, haviam deixado da egreja da collegiada apenas as paredes e o tecto, despojando-a de todas as alfaias, que a enriqueciam, mas pouco a pouco, o templo tornou ao seu antigo esplendor. Em 24 de abril de 1834 toi es ta villa occupada por 700 homens do exercito realista, quando já Leiria estava em poder dos liberaes, e principiaram a reedificar parte das antigas fortificações e a construir algumas trincheiras. No largo chamado vulgarmente Postigo da Sé, onde, n'uma grande extensão já não havia muralha, formou-se um parapeito de

terra, com seu fosso, assestando ali uma peça de calibre 3, e outra na praça. Em varios sitios, onde a muralha não era tão alta, fizeram-se tambem alguns fossos, escavando se os alicerces por tal modo, que no inverno seguinte cairam por terra alguns lanços da antiga muralha. Fecharam-se as portas do E e SO com grossas portas de madeira. Do lado de fóra da porta SO, porta de Santarem, havia aos lados uns assentos de pedra, que tambem fôram arrancados. Ainda esta imperfeita fórma das fortificações estava bastante atrazada, quando a 13 de maio d'esse anno de 1831 appareceu na frente da villa uma columna liberal. Os realistas correm ás trincheiras e dispararam alguns tiros inuteis. Por fim tiveram de capitular, e no dia 17 já tremulava a bandeira constitucional na mais alta torre do castello. Terminada a guerra foi suspenso o prior da collegiada e quasi todos os conegos, ficando a egreja fechada, abrindo se apenas nos dias santificados. Em janeiro de 1835, por ordem superior, foi removido o antigo hospital, que existia no centro villa para o edificio do convento de Sauto Antonio. A collegiada de Ourem foi extincta em 1834. Esta historica villa tão importante caiu em grande decadencia. No dia 5 de dezembro de 1841 foi a Aldeia da Cruz elevada á categoria de villa, com a denominação de V. N. de Ourem, e a séde de concelho, mudando-se para ella os tribunaes, justiças, autoridades e empregados publicos da velha Ourem. Em 1834 era o senhorio e condado de Ourem da Casa de Bragança. Extinctos os direitos senhoriaes, pelo decreto de 13 agosto de 1832, e deixando de existir os pa droados, pelo artigo 75.o da Carta Constitucional, tcou sendo o condado de Ourem um titulo meramente honorario. Na torre de SO do castello foi esculpido um brazão d'armas, que representa uma aguia com as azas abertas, tendo uma corôa no collo e sustentando nas garras as quinas portuguezas. Estas armas, que são as mais antigas, diz-se terem sido dadas por D. Thereza, primeira donataria da villa. As segundas armas, esculpidas sobre a porta de Santarem, ao N, representam cinco escudos das quinas em cruz, como nas armas reaes, no canto superior da direita um crescente, no da esquerda uma estrella, e por baixo das quinas tres torres sendo a do meio mais pequena Consta que estas armas foram dadas pela rainha D. Mecia Lopes de Haro, e que são as proprias da villa. Mas ha ainda um outro brazão d'armas, que representa: em campo branco uma aguia negra entre dois escudos das quinas, e sobre estes, d'um lado uma estrella e do outro um crescente. Parece que são estas as armas officiaes da villa, pois na Torre do Tombo não se sabe da existencia de outras. Um outro brazão, como este, foi esculpido em 1620 no pe. lourinho da praça velha da villa. São estas as armas do actual concelho. A villa de Ourem ti. nha voto em côrtes com assento no banco 14.° Os seus terços tambem acompanharam na funesta batalha d'Alcacer-Kibir, em agosto de 1578, o duque de Barcellos, filho do duque de Bragança. O seu chefe caiu em poder dos moiros, e os ourieases morreram, na maior parte, na batalha, ficando captivos os restantes. Ribeira que se tórma pela agglomeração das aguas de differentes riachos, banha os ferteis campos que rodeiam a villa de Ourem por baixo da Ponte dos Cone

gos, depois os campos de Chão de Maçãs, onde tem outra ponte, e entra finalmente no rio Nabão, affluente do Zezere, indo, com este rio desaguar no Tejo.

Oarentă. Pov. e freg. de N. Sa da Conceição, da prov. do Douro, conc. e com. de Cantanhede, distr. e bispado de Coimbra; 240 fog e c52 hab. Tem esc. do sexo masc., correio com serviço de posta rural, e fabrica de telha. A pov. dista 4 k. da séde do conc. A terra é muito fertil em todos os generos agricolas. Muito bom vinho. Cria gado de toda a qualidade. Pertence á 5. div. mil e ao distr. de recrut. e res. n.o 7, com a séde em Leiria.

Ourentella. Pov. na freg. de Santo André, de Cardinha, conc. de Cantanhede, distr. de Coim bra.

Ouressa. Pov. na freg. de S. Thiago e conc. de Soure, distr de Coimbra.

Ouriçaes. Pov. na freg. de S. Lourenço, de Pias, conc. de Louzada, distr. do Porto.

Ouriçosa. Povoações nas freguezias: S. João Baptista e conc. de Sinfães, distr. de Vizeu. Santa Maria, de Ul, conc. de Oliveira de Azemeis, distr. de Aveiro.

Ouril. Pov. na freg. de S. Paio, de Segunde, conc. de Monsão, distr. de Vianna do Častello.

ma. A Mesa da Consciencia e Ordens apresentava o prior, que tinha diversos generos e 20$000 réis em dinheiro. A pov. é muito antiga, mas ignora-se quando, e por quem foi fundada. Já existia, comtudo, no tempo do dominio dos moiros, e diz-se que foram elles que edificaram o seu castello. Depois da batalha chamavam-lhe Orik, palavra arabe que significa infortunio, adversidade, desgraça; até esse dia ignora-se o nome que lhe davam. Na Evora Gloriosa, do P. Francisco da Fonseca, diz-se que o nome de Ourique provém das minas de ouro, que existiam n'estes sitios. No Portugal antigo e moderno, de Pinho Leal, vol. VI, pag. 341, fala-se d'uma veiga denominada Campo de Ouro. O senhorio e commenda de Ourique pertenceu à ordem mili tar de S. Thiago, cujos cavalleiros ajudaram muito aos reis de Portugal a fazer grandes conquistas no Alemtejo e no Algarve. A commenda de Ourique andava na casa dos condes de Unhão. El-rei D. Diniz lhe deu foral, em Beja, a 8 de janeiro de 1290; outros dizem que foi o mestre da ordem de S. Thiago, e que o rei só o confirmou. El-rei D. Manuel deu-lhe foral novo, em Santarem, e 20 de setembro de 1510, confirmando e ampliando os privilegios do antigo. Junto da villa se estende o vasto campo onde se deu a batalha contra os moiros, em 1139, (V. o artigo Ourilhe. Pov. e freg. de S. Thiago, da prov. seguinte). Ourique tinha voto em côrtes com asdo Minho, conc. e com. de Celorico de Basto, sento no 15.o banco. As suas armas são: Em camdistr. e arceb de Braga; 86 fog. e 353 hab. Tempo de sangue um guerreiro vestido de ferro, tenesc. do sexo fem. A pov. dista 6 k. da séde do do levantado o braço direito, empunhando a escone. e fica situada a 8 k. da margem direita do pada, montado n'um cavallo, sobre terra firme. rio Tamega. Está annexada para todos os effei- Na parte superior do escudo vê-se uma torre em tos ecclesiasticos á freg. de Mollares. O abbade cada angulo, tendo sobre uma o crescente e sode Santa Senhorinha, de Cabeceiras de Basto, bre a outra uma estrella, tudo de prata. No terapresentava o vigario, que tinha 8000 réis mo de Ourique ha as capellas de S. Sebastião, S. de congrua e o pé d'altar A terra é fertil, Luiz, N. S. do Castelo, S. Braz, S. Lourenço e tem grande abundancia de gado de toda a quali- N. S da Colla. Perto da villa está a ermida de dade, peixe do rio Tamega, e caça. Pertence á S. Romão, abbade, onde está sepultado, sendo 6. div. mil. e ao distr. de recrut. e res. n.o 19 de grande veneração para o povo. André de Recom a séde em Chaves. zende, nas suas Antiguidades de Portugal, liv. 4.o, pag. 280, falando da antiga cidade, ou villa, de Colla, quando em companhia d'el-rei D. Sebas tião foi vêr o campo de Ourique em 1573, diz : «Colla esteve em o meio da provincia de Ourique, não muito longe de Mesegenu (Messejana) fundada entre montes.» Diz ignorar se esta tal cidade ou villa tomára o nome, que hoje tem, dos montes entre os quaes se havia fundado. Era uma pov. ampla, o que se vê pelo ambito dos seus muros, de que ha bastantes vestigios; assim como das torres que detendiam esses muros, tudo obra de grosseira construcção. Já existia no tempo dos romanos, o que se prova pelos cippos e memorias que teem sido aqui encontrados. Era difficil e perigosa a entrada para esta pov., e por isso de facil defeza. Suppõe Rezende que foi pov. importante no tempo dos godos, e que os arabes a destruiram em 715 ou 716. Hoje existe apenas a egreja de N. S. da Colla, que fica a 12 k. de Ourique, a cujo conc. pertence. Esta egreja representa a mais remota antiguidade, e suppõe-se ter sido freguezia antes da invasão dos moiros. Existe aqui uma torre muito arruinada, onde Rezende encontrou uma formosa lapide de marmore branco, embutida na parede, com uma inscripção latina, cuja traducção é a seguinte: «Caio Minicio, filho de Caio Lemonia Jubato, tribuno da decima legião dobrada, ao qual na guerra contra

Ourique. Villa da prov. de Alemtejo, séde de cone e de com., distr. e bispado de Beja, Relação de Lisboa. Tem uma só freg., S. Salvador. Está situada na extremidade sul da referida provincia, sobre um monte de pouca elevação, junto da margem direita do rio Sado, d'onde se domina a planicie chamada Campo de Ourique, na aba da serra do Caldeirão, ou do Mú, e a 51 k. da séde do districto. Pertence á 4. div. mil., 8. brigada, grande circumscripção mil. S, e ao distr. de reerut. e res. n. 4, com a séde em Faro. Tem Misericordia, hospital, escolas para ambos os sexos, est. post. e telegr. com serviço de emissão e pa. gamento de vales, cobrança de recibos, letras, obrigações e serviço de encommendas, permutando malas com a R. A. S; estação na linha do caminho de ferro do Sul e Sueste, entre as de Casé vel e Panoias; agencias bancarias, de annuncios, publicações e jornaes; agente da Companhia Geral de Seguros e Fomento Agricola, Douro, Fidelidade, Previdencia, Internacional Portuense, Portugal, Tagus e Equitativa dos Estados Unidos da America; associações: Caixa escolar protectora dos alumnos e Centro Republicano; hospedarias, medico, pharmacias, notario, diversos estabelecimentos, feira a 28 e 29 de setembro, conhecida pela Feira de Ourique; a de S. Braz a 3 de fevereiro, e a dos Passos, no 2.o domingo da quares.

|

Viriato, quasi morto, com muitas feridas; o im-gressista transferisse para Almodovar, por de-
perador Caio Unimano deixou pelo julgar mor-
to. Eburio, soldado lusitano, compadecido d'elle,
o levantou e fez curar; porém viveu poucos dias,
e morreu triste, porque o não trataram ao modo
que se costuma com os romanos.» Esta lapide foi
para o museu Cenaculo, de Evora. A' porta da
egreja via-se um grande cippo, entre algumas
columnas, lançadas no chão, e que tinham sido
ornato do mesmo cippo. Antigamente faziam se
duas festas annuaes a N. S. da Colla, a 1. n'uma
das oitavas da Paschoa, a 2. no dia da Nativi-
dade, a 8 de setembro, sendo ambas muito con-
corridas. Hoje ainda se faz uma romaria a 8 e 9
de setembro. Pelos arrabaldes da villa passam as
ribeiras de Cóbres e Tergis, que depois de uni
das vão morrer no Guadiana, com 60 k. de curso.
São atravessadas por uma ponte de cantaria.
Ainda no termo de Ourique nasce o rio de S.
Romão, que entra no Sado, em Porto-de-Rei. E'
o mais caudaloso dos tres. O territorio do conce-
lho é fertil em cereaes, fructas, azeite, vinho e
outros generos agricolas. Cria se bastante gado,
sobretudo suino, e os seus montes teem inuita
caça. O concelho é abundante de minas de me-
taes e metaloides. Na
quinta do Valle do
Alcaide, situada nos
arredores da villa, ha
uma naseente muito
abundante de aguas
mineraes, boas para
o tratamento de mo-
lestias cutaneas D.
João IV mandou eri-
gir na villa de Ouri-
que um padrão, que
ainda hoje existe, na
praça de D. Diniz, á
porta do antigo tri-
bunal judicial, do
qual consta que o rei
e as côrtes geraes fi-
caram tributarios á
real capella de Villa
Viçosa de cincoenta

creto de 24 de dezembro de 1898, a séde de co-
marca, mas ultimamente voltou para Ourique,
onde se conserva. Durante muitos annos, e quan-
do muito podia progredir, manteve-se Ourique
sem melhoramentos de qualidade alguma, devido
á falta de iniciativa dos seus habitantes; mas
desde 1877, e muito principalmente nos ultimos
aunos, tem-se feito n'esta villa obras de alto va-
lor, sendo as principaes: o edificio para o tribu-
nal judicial e outras repartições publicas, em que
a camara despendeu 15:1928000 réis, total de
dois emprestimos contrahidos com a Companhia
Geral de Credito Predial Portuguez; o edificio
do hospital da Misericordia com boas accommo.
dações para doentes e pessoal de enfermaria,
além de excellente mobiliario; o theatro Sousa
Telles, construido por iniciativa do juiz de direi-
to o dr. Manuel Borges de Sousa Telles. Em Ou-
rique começou a publicar-se em 4 de agosto de
1898 O Campo de Ourique, ainda em publicação
em janeiro de 1908. O conc. compõe-se de 6 fre-
guezias, com 2:181 fog. e 9:254 hab., sendo
4:83 do sexo masc. e 4:391 do fem., n'uma su-
perficie de 81:505 hect.. As freguezias são: N. S.
da Conceição, de Conceição, 675 hab.: 365 do
sexo masc. e 310 do fem.; N. S. d'Assumpção, de
Garvão, 34 hab.: 391 do sexo masc. e 3+3 do
fem.; S. Salvador, de Ourique, 3:771 hab.: 1:960
do sexo masc. e 1:865 do fem.; S. Pedro, de Pa-
ncias, 1:087 hab.: 607 do sexo masc. e 480 do fem;
Sant'Anna, de Sant'Anna da Serra, 2:237 hab.:
1:198 do sexo masc. e 1:039 do fem.; Santa Lu-
zia, 750 hab.: 396 do sexo masc. e 33+ do fem..
A freg. de S. Martinho das Amoreiras, que per-
tencia a este conc., foi annexada ao de Odemira
para effeitos administrativos e judiciaes, por lei
de 17 de agosto de 1899. O principal commercio
do conc. é cortiça, gado suino, caprino, bovino,
cereaes, cêra, telha, tijolo e cal. Os logares mais
importantes são: Aldeia de Palheiros, Aldeia dos
Grandaços e a Aldeia das Alcorias.

[graphic]

Brazão d'armas da villa de Ourique

cruzados em ouro annuacs, jurando defender que a Mãe de Deus fôra preservada do peccado ori ginal. Padrão egual foi erigido em todas as cabeças de comarca do pais. Por este facto se vê, que já então Ourique era cabeça de comarca, que conservou até 1865, em que a séde se transferiu para Almodovar, transferencia justificada, porque a comarca abrangia todos os territorios dos concelhos de Mertola, Castro Verde e Ourique, sendo por isso a villa de Almodovar o ponto mais central. Feita nova divisão comarca, como se vê do mappa approvado por decreto de 15 de dezembro de 1874, passou Ourique a ser novamente cabeça de comarca, fazendo parte d'ella os concelhos de Almodovar e Castro Verde, e a freg. de Messejana no conc. de Aljustrel. As mesmas razões que tinham presidido para fazerem Almodovar séde de comarca, quando esta era composta dos concelhos de Mertola, Castro Verde e Ourique, fizeram com que, retirado o conc. de Mertola para formar uma comarca, passasse a séde para Ourique, por ser o ponto mais central de todos os concelhos que a acompanham. Inte resses politices fizeram com que o partido pro

Ourique (Batalha de). Os alfaquis moiros, por ordem de Ismario, ou Ismar, poderoso rei de Hespanha, que sob as ordens do Miramolim de Marrocos dominava varios outros reis da Peninsula, mandou apregoar gazúa, isto é, incitar os povos á guerra, tanto na Africa como na Hespanha e Portugal. Ao poderoso Irmario se juntaram os reis moiros de Silves, Merida, Sevilha e Badajoz; Al-Athar, senhor e alcaide de Lisboa, Ben-Aduf, senhor de Algecira, e mais 20 emires, com am poderosissimo exercito, que alguns historiadores dizem constar de 600:000 homens, e outros elevam a 900:000. Ha tambem historiadores que dizem constar o exercito moirisco de 120:000 homens. O que não admitte duvida é ser enorme o exercito moirisco, e que os chefes, confiando no numero e na valentia dos combatentes, tinham a victoria como certa. D. Affonso Henriques, que já havia obtido gloriosas victorias em 6 batalbas contra os moiros, organisou o seu exercito, cujo commando elle proprio assumiu na vanguarda, o qual se compunha de 300 ginetes e 3:000 infantes escolhidos. A retaguarda, com egual numero de ginetes e de infantes, a confiou a D. Lourenço Viegas e a D. Gonçalo de Sousa. A ala direita commandava a Martim Moniz, e a esquerda Mem Moniz, tendo cada uma 200 ginetes e 2:000 infantes. Foi no sitio chamado Cabêço de Rei, que

« AnteriorContinuar »