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Ismario com os seus 15 regulos e todo o exercito agareno, estava acampado, quando D. Affonso Henriques chegou com o seu exercito. No dia 25 de julho de 1139, antes de começar a batalha, dizem alguns chronistas que os chefes e exercito acclamaram por seu rei a D. Affonso Henriques, pois na sua pessoa se reuniam todas as grandes qualidades para ser o chefe supremo, a quem todos deviam cegamente obedecer. O enthusiasmo no arraial era enorme, e sob o commando d'um tal chefe, tão bravo e destemido em todos os recontros que tinua affrontado, a victoria não podia deixar de lhe pertencer. Os moiros investiram os portuguezes, e o alferes mór Pero Paes avançou agitando a bandeira D. Affonso Henriques, calando a viseira, arremetteu só, ao moiro que vinha na frente, que era o rei de Silves, homem de estatura agigantada e de grandes forças, porém D. Affonso o varou de lado a lado com a lança, o que animou muito os portuguezes e aterrou os moiros. A' vista d'este exemplo de bravura, o exercito portuguez arremetteu impetuosamente o inimigo, que o poz em debandada. Chegando, porém, o rei de Badajoz com o seu exercito aguerrido, envolveu D. Affonso e os seus, pretendendo repellil-os, mas acudiram lhe logo os tres chefes portuguezes com a sua gente, fazendo nos moiros horrorosa carnificina. No maior furor da peleja, e depois de ter praticado prodigios de bravura, foi morto Mem Moniz, chefe da ala esquerda. Então Lourenço Viegas, vendo morto seu irmão, atirou-se ao inimigo, mais como leão furioso, do que como soldado valente, e vin gou heroicamente a morte do joven guerreiro. As mesmas façanhas praticou D. Gonçalo de Sousa, vendo morrer D. Diogo Gonçalves, seu primo; finalmente, cada portuguez era um heroe, distinguindo se entre todos D. Affonso Henriques. Era, porém, tão espantoso o numero dos moiros, que a batalha esteve indecisa grande parte do dia, sendo tantos os mortos e feridos, que o cam po se tornou um lago de sangue, e os cavallos mal se podiam mover. Ismario e seu sobrinho Homar Atagor, á frente d'um escolhido esquadrão de cavallaria, fazia nos nossos cruel destroço, e D. Affonso Henriques, juntando a gente que pôde, tão energicamente os investiu que matou o sobrinho de Ismario, e este e os reis de Merida e Sevilha deveram a vida á velocidade dos seus cavallos. Os moiros, vendo fugir os chefes, trataram tambem de os imitar, mas os nossos os fôram perseguindo fazendo horrivel matança, não cessando a perseguição senão com a noite. Os portuguezes estiveram tres dias no campo da batalha, segundo o costume d'aquelles tempos, descançando das fadigas, tratando de curar os feridos e de enterrar os mortos do seu exercito. Os despojos foram immensos e riquissimos, não querendo D. Affonso para si mais do que 19 bandeiras, e innumeravel cópia de pendões e galhardetes, que mandou pendurar pelas egrejas. Quan do, passados os tres dias, o exercito se dispunha a abandonar o campo, caiu uma chuva torrencial, que lavando a planicie do sangue que a ensopava, tingiu as aguas dos rios Cóbres e Tergis, chegando ao Guadiana, onde vão desaguar estes dois rios já reunidos. Tão assombroso feito não podia deixar de impressionar a alma portugueza tão propensa ao mysticismo. Formou se a lenda de que Christo apparecera, na vespera da bata

lha, a Affonso Henriques, estando este em oração, garantindo-lhe a victoria. Chronistas piedosos recolheram esta lenda, que gerações successivas acreditaram. Outros historiadores apresentam outra versão; dizem que nas vesperas da batalha, Christo apparecera a um eremita, chamado Virgilio Pires d'Almeida, annunciando-lhe a victoria, e que fôra o santo varão quem transmittira esta noticia a Affonso Henriques. Sobre a batalha de Ourique muito se tem escripto. Historiadores e chronistas, tanto antigos como modernos, são de parecer que a batalha constitue uma lenda baseada unicamente na tradição fanatica dos portuguezes, accrescentada com o milagre da apparição de Christo. E para documentarem o seu asserto citam opiniões e addazem argumentos que reputam irrespondiveis. Por seu lado, os que pensam de differente modo, apresentam tambem os seus argumentos e citações. O que se póde affirmar, porém, é que effectivamente a batalha de Ourique se deu, pouca ou nenhuma importancia teve para a fundação da monarchia, como pretendem alguns historiadores. E tanto é certo, que d'essa batalha não resultou a consolidação da monarchia, que as fronteiras ficaram taes quaes existiam, não se conquistando um palmo de terra a mais do que a que se havia já conquistado. Com relação ao titulo de rei, parece provado que Affonso Henriques só o tomou em 1140, porque é de abril d'esse anno o primeiro documento em que usa tal titulo. Em 1139 ainda figura como infante. Alexandre Herculano, negando na sua Historia de Portugal o milagre de Ourique, levantou contra si as iras do clero, que fortemente o atacou, tanto em folhetos como em joruaes religiosos, e até nos proprios pulpitos, a que Alexandre Herculano respondeu com toda a energia em 4 folhetos que publicou, com o titulo: Eu e o clero, carta ao patriarcha de Lisboa; Considerações pacificas ao redactor da «Nação»; duas cartas a Magessi Tavares, intituladas: Solemnia Verba. A'cêrca do milagre de Ourique escreveu Antonio Seipa Pimentel um drama em 5 actos, 0 Astrologo, que se representou no theatro de D. waria II.

Ourives. Fabricante, ou vendedor, de artefa. ctos de ouro ou prata. No antigo regimen dos officios distinguiam-se os ourives de ouro dos de prata, ou prateiros, tendo cada um seu regimento e arruamento especial. Em Lisboa determinou elrei D. Manuel, por alvará de 19 de abril de 1514, que os ourives da prata tivessem arruamento exclusivo na rua da Ourivesaria, desde a Cerearia até à porta da egreja da Magdalena. Os ourives do ouro tinham arruamento na rua Nova d'El-Rei, juntamente com os joalheiros e lapidarios; mais tarde, não cabendo já ali, fôram tambem estabelecendo-se pela rua dos Douradores. A confraria dos prateiros era antiquissima, datando do seculo XIII. Os ourives não estavam embandeirados, isto é, sujeitos a bandeira com outros officios; constituiam corporações distinctas, dando cada uma um delegado á Casa dos Vinte e Quatro. Ambas tinham por patrono a Santo Eloi, sendo assim denominado o hospital que os ourives da prata levantaram no largo dos Loios. Dos ourives do ouro, como dos da prata, encontram-se no archivo municipal de Lisboa os respectivos regimentos reformados em 1572, e o primeiro está publicado na integra no vol. XIV, pag.

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200, dos Elementos para a historia do municipio. | zo, e da cadeia, onde jazerá quinze dias, pagará Do segundo, por se encontrar ainda inedito, dare- dois mil réis, a metade para as obras da cidade, mos adeante alguns extractos. Não desejando ser e a outra para quem o accusar; a mesma pena reputados officiaes mechanicos, os ourives do ou- haverá qualquer official, não sendo examinado, ro e os da prata organisaram em 1707 um com- que tomar obra do dito officio para fazer fóra da promisso especial para se eximirem & jurisdicção teuda do official examinado.» Us capitulos sedo senado municipal, ao qual então competia guintes até XXX preceituavam, entre outras discontrastar as peças de ouro e prata. Nos referi- posições regulamentares, que qualquer estrandos Elementos se pódem lêr numerosas indicações geiro, que se quizesse examinar no ufficio de ousobre estes officios, e principalmente no vol. V, rives da prata, tinha que trabalhar primeiro um pag. 567, vol. IX, pag. 288, e vol. XIV a pag. 200. anno com officiaes examinados, e só depois poEm 1551 havia em Lisboa 430 ourives; em 1620 dia ser examinado, se tivesse dado provas de eram 132, sendo 70 do ouro e 62 da prata; e em bom porte. O ourives, que não fizesse bom exa1807 eram 254, sendo 159 do ouro e 105 da pra- | me, só poderia ser admittido a novo acto d'ahi a ta. Segundo o regimento do officio dos ourivezes seis mezes. Os juizes não podiam examinar por da prata, reformado em 1572 por Duarte Nunes si sós, e o escrivão tinha voto de desempate. Não do Lião, eram os juizes e escrivão d'este officio, podiam examinar parentes ou creados, e n'este como os do ouro, eleitos de dois em dois annos, caso, quando elle se désse, seria nomeado para o em dia de S. João, ao passo que estes cargos exame pelo senado da camara um juiz dos do noutros officios eram eleitos annualmente em dia biennio anterior. Os dois juizes examinadores de S. Thomé. Os officiaes que saissem eleitos só eleitos para o biennio serviriam: um d'elles no podiam tornar a sel-o passados tres annos depois primeiro anno de marcar a prata, e no segundo de findo o seu biennio. Destas eleições, etc., tra anno de afilar os pezos, e outro de marcar a pratam os primeiros tres capitulos do regimento. ta, de maneira que cada um fizesse cada uma Dos capitulos restantes transcrevemos, por mais d'essas cousas separadamente no seu anno. Tocuriosos, os seguintes: «Cap. IV. Nenhuma pes das as peças feitas seriam marcadas pelo juiz soa, assim natural como estrangeira, que do dito antes de expostas á venda. Qualquer peça comofficio de ourives quizer uzar e pôr tenda, o po- prada pelo ourives, não sendo corrigida, não se derá fazer sem primeiro ser examinado pelos di venderia sem a marca do juiz. Este, verificando tos ex minadores, que para isso fôrem eleitos. O que a peça não estava bem feita, nem tinha o qual exame se fará em casa de um dos ditos exa pezo da lei, a mandaria corrigir, se fôsse possiminadores, qual elles entre si ordenarem, a que vel, ou a quebraria no caso contrario. Se, por elles serão presentes, para que vejam se o tal quaesquer motivos particulares, de malquerença officia az obra conveniente por que mereça ser ou animosidade contra o official, o juiz quebrasse approv do. Cap. V. E a pessoa que fizer um go- sem razão a peça, teria que lhe pagar uma indemil com o que adeante está debuxado, maior ou mnisação. Aos juízes d'este officio não era permenor, bem feito e acabado, poaerá ser exami mittido marcar barras, nem arruellas de prata, nado de toda a obra de martello e de cha, con- que só podiam ser marcadas pelo ensaiador da vém a saber: bacios de cozinha e de cortar, e po. moeda. Se o juiz deixasse passar alguma peça derá usar em sua tenda de toda a dita obra.- que não devesse marcar, isto por qualquer inteCap. VI. E a pessoa que fizer outro gomil lavra- resse, pagaria de multa dez cruzados, metade pado, como o que adeante está debuxado, bem fei- ra o officio e metade para quem o accusasse. Se to e bem acabado, será examinado de toda a o official ourives, a quem fosse rejeitada uma obra de martello e cinzel e bastiães, tirando peça pelo juiz, injuriasse este, de dito ou de feiimagens, e da dita obra poderá uzar em sua ten- to, seria preso e da cadeia pagaria dez cruzados, da Cap. VII. E a pessoa que fizer uma maçã além do que o senado da camara lhe daria qualde calix, como a que adeante vae debuxada, será quer outr pena, conforme o caso a requeresse. examinada de toda a obra de maçanaria, convém Ös ourives não comprariam peças de prata nem a saber: cruzes, calizes, portapazes, bagos, turi- de ouro a individuos suspeitos, devendo antes bulos, e assim todas as outras mais peças de ma- averiguar dos motivos da venda. A' primeira vez çanaria, e de todas ellas poderá pôr tenda seria o ourives multado em dez cruzados e á seCap. VIII. E o que fizer uma imagem lavrada de gunda em cincoenta. Os juizes fariam correicinzel de relevo, e uma chapa de prata de sua ção pelas tendas de trinta em trinta dias, pelo phantasia, ou contrafeita por outra, bem lavrada menos, sob pena de dez cruzados de multa. Us ou bem acabada, poderá uzar de todas as ima- ultimos capitulos (XXXI a XXXV) do regimengens e de toda a obra de cinzel.»-«Cap. XI. E to tratam do auxilio que as autoridades, e outros ao que for examinado na maneira sobredita, e officiaes, deviam prestar aos juizes no exercicio fôr havido por habil e pertencente para pôr ten das suas funcções. Este regimento foi alterado da, lhe passarão sua carta de examinação, assi- pela régia Resolução de 7 de janeiro de 1808 sognada pelos examinadores e feita pelo escrivão bre consulta do seuado da camara, e vigorou até de seu cargo. A qual levarão á camara para lá ao anno de 1834, em que foi extincta a Casa dos ser vista, e confirmada, e se registar no livro em Vinte e Quatro (V. este nome). Lisboa, Coimbra que taes cartas se registam.--Cap. XII Da quale Guimarães tiveram sempre muitos e habeis ouexaminação o official, que se assim examinar, pa- rives O Porto é desde alguns tempos o centro gará trezentos réis, e sendo estrangeiro seiscen- artistico mais activo e importante da ourivesaria tos réis, dos quaes serão as duas partes para as portugueza. Dos ourives de Coimbra sabe-se que despezas do dito officio, e a terça parte para os em 1538 fundaram na egreja de S. Thiago uma examinadores.-Cap. XIII. E qualquer ourives confraria com capella propria, da invocação de que, d'aqui em deante, tenda puzer, sem primei- Santo Eloi, seu patrono, na qual ainda existe a ro ser examinado da maneira sobredita, será pre-inscripção seguinte: Esta capela he dos ourives

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desta cidade tanto dos de ouro como os de prata. Nas seis sepulturas da capella, e em tres proximas, se enterravam exclusivamente os ourives, suas mulheres e filhos solteiros. Segundo o compromisso da confraria devia haver todos os annos, em dia de Santo Eloi, no 1.o de dezembro, missa cantada e sermão, estando a egreja arma da; e em todas as primeiras segundas feiras de cada mez haveria missa rezada. Decorridos annos alterou-se o dia da festa, que passou a ser na primeira oitava do Natal. No dia seguinte ao da festa annual deveriam reunir-se os ourives na sua capella, e ahi elegeriam os officiaes que haviam de servir no anno seguinte. Cada official de ourives era obrigado a dar annualmente dois arrateis de cêra. D'essa cêra mandariam o juiz, escrivão e mordomo fazer as tochas, que no dia do Corpo de Deus eram levadas na procissão, e a que sobejasse se gastaria na capella. Todo o ourives que se examinasse, e puzesse tenda, tinha de dar dois arrateis de cêra para a capella de Santo Eloi. Quando houvesse inimizade entre alguns confrades, o juiz e officiaes deviam trabalhar para que quando se juntassem na capella se tornassem amigos. Pelas disposições dos seus regimentos tambem em Coimbra eram distinctos os officios de ourives do ouro e da prata, não podendo um fazer o trabalho do outro. Os conflictos, que esta divisão do trabalho e do material originou em varias cidades do reino, tambem se déram em Coimbra, como se prova pelo requerimento seguinte, que, em 1669, apresentaram os ourives do ouro ao senado da sua cidade, contra os ourives da prata: «Dizem os ourives do ouro d'esta cidade de Coimbra que em todas as cidades, villas e logares d'este reino, são distinctos os officios de ourives do ouro, dos da prata, e nem aquelles pódem obrar prata, nem vendel a, nem estes ouro; e pelo contrario se faz n'esta cidade, de poucos annos a esta parte, porque o sobredito se observava, e agora alguns ourives da prata estão lavrando ouro e vendendo o, como se este fôsse o seu officio, e o mesmo fazem os do ouro, vendendo e lavrando prata. E porque a este senado pertence prover neste negocio, e que cada um official obre no officio para que somente foi examinado, e para que teve licença d'este senado, para pôr tenda: P. a Vossas Mercês mandem que todos os ourives sejam notificados, com pena de 50 cruzados, que os da prata não vendam ouro, nem o obrem, nem os do ouro prata, para venderem, com pena tambem de se lhes tomar por perdido o que se achar a cada um obrado, ou vendido, fóra do que para cada um foi exami nado. E. K. M.» Com cinco assignaturas. Pelo regimento da procissão do Corpo de Deus feito em 1517 eram os ourives de Coimbra obrigados a pagar duas das tochas que tinham de ir na procissão. No archivo municipal da mesma cidade guardam-se muitas cartas de examinação de officiaes de ourives do ouro e da prata nos seculos xvi ao xix, e entre ellas uma carta de privilegios do ourives da Universidade no seculo XVII. Do seculo anterior conhece-se no mesmo cargo o ourives Simão Ferreira, que em 1569 fez a elegante lampada de prata da capella da Universidade, peça muito graciosa e original. No livro do sr. dr. Sousa Viterbo, Artes e artistas em Portugal, cap. VI, citam-se numerosos ourives conimbricenses, o que mostra ter sido aquella cida

de importante centro artistico, sobretudo no seculo xvi, em que a Renascença deixou ali tão assignalada a sua passagem. Em Guimarães estiveram, naturalmente, os officios de ourives do ouro e da prata distinctos até que no seculo xviii se reuniram, como se prova pelo Compromisso da sua confraria, intitulado: Estatutos dos ourives de ouro e prata da villa de Guimarães que fizeram para o bom regimen do seu officio no anno de 1781 e motivos que tiveram os ourives de ouro e prata para estabecerem este compromisso. Entre outras são muito interessantes as disposições seguintes, transcrevendo nós por extenso as que tiverem maior importancia: «Grandes males se teem originado nos ourives de ouro e prata que foram para esta villa abrir loja publica para exercitarem o seu officio, sem preceder exame, e mais circumstancias d'este compromisso, pelo que conformando-nos com o bom costume, determinamos que todo o ourives de ouro ou prata que vier de fóra d'esta villa e sua comarca, que não tiver nella aprendido, não poderá abrir tenda sem que mostre ao juiz e contraste do officio o seu exame que tenha feito legitimamente e sendo havido por bom, poderá pôr tenda, dando primeiro fiança na forma do capitulo IV, posto que seja casado, e dará para a fabrica da capella de Santo Eloi 5600 réis, posto que examinado seja em outra qualquer parte do reino, ou de fóra d'elle; e fará termo de observar o conteudo n'este compromisso, e não se achando este exame bom, será novamente examinado pelo juiz e contraste d'esta villa, e, repugnando ser examinado, incorrerá nas penas impostas no capitulo II contra os que abrem tenda sem serem examinados.» Nenhum ourives poderia estabelecer-se nos arrabal. des da villa, sob pena de 203000 réis de multa, afim de que as correições se fizessem sempre que fôsse preciso. Todo o ourives que tivesse aprendido em Guimarães, ainda que ali não fosse examinado, devia contribuir para a confraria. Outro capitulo trata da prompta obediencia que os ourives deviam ter ao seu juiz, correspondente em qualquer negocio que se mover pertencente á arte, para o que sejam chamados. «Para conhecimento dos ourives de ouro, ou le prata, que fizerem as obras, e se não atrevam a fazel-as, sem ser de prata de lei, ou do ouro pertencente. para não serem castigados, determinamos que os juizes do officio antes de darem licença ao examinado, mandaião que faça a sua marca, e lh'a mandarão registar no livro de registo, que para isso é destinado, cuja marca será registada em cobre, e estará em poder de um dos juizes pertencentes, e dando licença para exercitar o dito officio sem estar registada a dita marca serão condemnados os mesmos juizes em dois mil réis, cujos serão applicados para Santo Eloi.» Quando houvesse litigio, obras, despezas a fazer com o culto do santo patrono, ou a bem do officio, fintar-se-hiam os irmãos ourives, e se houvesse sobras seriam pagas certas despezas feitas com as viuvas do ourives. «Lembrando-nos das peças sagradas, que concertamos para as egrejas, como são custodias, calices, vasos e cruzes, a que devemos ter toda a veneração, e tratamento de reverencia por serem dedicados ao culto divino, e por esta causa adquirimos alguma nobreza,por esta se adquirir ou pela razão da pessoa, ou da causa: Determinamos uniformemente que d'aqui em

ca do ensaiador que para isso ha.» «E o juiz e o contraste, não fazendo a sua obrigação das quatro referidas correições, incorrerão na pena de quatro mil réis applicados para a fabrica do mesmo santo por cada vez que assim o não cumprirem; e esta pena se lhe impõe para os ditos não terem defeza que allegarem, quer por respeito da pessoa, ou temor de descortezia a deixarão de fazer, pois por esta causa lhe damos esta providencia, e havendo algum ourives que não lhe queira obedecer no acto da correição mandarão o juiz e contraste para fazer auto de desobediencia pelo seu escrivão, com testemunhas nomeadas, e o remetterão ao dr. juiz de fóra, ou ao ministro que lhe parecer melhor, para a execução das penas, para que este o castigue na pena de 2000 réis.» Muitas d'estas disposições, a que estavam sujeitos os ourives vimaranenses, correspondem, como se póde vêr, aos regimentos acima apontados de Lisboa e Coimbra, e basea. vam-se tambem nas leis posteriores á collecção de 1572, que eram o alv. de 25 de fevereiro de 1669, regimentos de 9 de setembro de 1686, 13 de julho de 1689 e 10 de março de 1693. A disposi. ção de que não podia ser ourives nenhum mula

provém do alv. de 20 de outubro de 1621. Posteriormente, em 12 de dezembro de 1791, foi confirmado o regimento dos ensaiadores e por decreto de 14 de julho de 1801 fôram designadas as peças que os ourives podiam vender.

deante nenhum ourives de ouro ou prata possa tomar moço para ensinar o officio, ou ainda official, que seja de infecta nação, assim como moiro, judeu, mulato, apostata da nossa santa fé, ou penitente do Santo Officio, ou filho de homem vil, ou de outras similhantes qualidades; nem tambem ensinarão a estrangeiro algum, salvo se fôr catholico romano. para o que antes de o tomar para sua casa, ou moço ou official, se informará com toda a efficacia se tem algum dos ditos defeitos; e fazendo o contrario será conde mnado pela primeira vez em tres arrobas de cê ra para a capella do nosso santo Eloi, e será obrigado a logo lançar fóra o moço ou obreiro; e repugnando será obrigado a pagar a mesma condemnação em dobro para a mesma capella; e assim se lhe irão dobrando as condemnações até o expulsar fóra » «E outrosim declaramos que não sendo aprendizes ou obreiros dos comprehendidos neste capitulo supra, poderá qualquer ourives ter dois aprendizes, por não se perder e multiplicar a estimação da arte, e outrosim os não ensinarão em menos de oito annos, e obrando o contrario será obrigado o ourives mestre a pagar 105000 réis de condemnação, e expulsará os mais aprendizes, ficando-se com dois, que debaito, ou negro, nem indio, posto que fosse forro, xo da mesma pena os não ensinará menos do di to tempo, ainda que o ourives mestre tenha alguma conveniencia e ficará isento da dita con demnação, tendo passado tres annos.» «Tambem prohibimos aos aprendizes depois de acabarem o dito tempo dos oito annos, que possam abrir ten da sem primeiro terem tido dois annos de officiaes; e o juiz e contraste os não possam admittir a exame antes do referido tempo.» «E o ourives será obrigado a registar o assignado em casa do escrivão do officio, em livro que para isso terá destinado; cujo assignado tambem assignará o mesmo escrivão, para constar em como em casa foi registado; e tambem será obrigado a mostrar o dito assignado quando fôr requerido pelo juiz do officio. E o ourives mestre de ou ro, ou prata, será obrigado a que o aprendiz logo dentro de trinta dias faça o seu assignado, e dentro do dito tempo o mostrará registado e assignado pelo escrivão, tudo debaixo da dita con demnação dos dois mil réis, que serão applicados para a fabrica da capella do nosso santo Eloi.. Nenhum ourives poderia tomar aprendiz saido de outro mestre sem averiguar da razão da saida, e se fôra por vontade do mestre, sob pena de 20,000 réis. «D'aqui em deante todas as vezes que os ourives acabarem alguma peça, ou de prata ou de ouro, a levem a casa do ensaiador para a mar car, e outrosim os juizes do officio farão todas as correições que lhes parecer conveniente quan do muito quizerem, e de obrigação quatro vezes no anno, e achando em casa de qualquer ourives de ouro ou prata algumas peças acabadas sem serem marcadas pelo ensaiador, posto que sejam de prata ou ouro de lei, ainda que não estejam na tenda, mas sim fechadas occultamente, serão condemnados por cada peça sem marca, tendo de pezo quatro onças para cima, em 400 réis, e passando de tres marcos, serão condemnados em dois mil réis; e pela segunda vez em dobro, e pela terceira em tresdobro; e assim se irá multi plicando a condemnação por cada vez, e conforme a qualidade da peça, e seu pezo, todas as vezes que, como fica dito, fôr achada sem a mar

sua

ou

Ourivesaria. Arte de valorisar artisticamente certos metaes reputados preciosos, segundo os paizes e as epocas. Differe da joalharia, porque esta fabrica especialmente objectos destinados a serem usados como adornos pessoaes, d'ouro prata, com ou sem engaste de pedras preciosas. Todavia a ourivesaria abrange modernamente tanto o fabrico das joias como o das baixellas e peças grandes de ornamento. As duas artes de joalheiro e de ourives acham se confundidas já no seculo xvi, em que o regimento do officio de ourives se refere a obras de joalheiro,

e

noutros documentos d'essa epoca se diz joalheiro o ourives que entende de pedraria. No entender dos autores, que teem estudado o assumpto, é a ourivesaria uma das artes ornamentaes que melhor e mais constantemente se tem desenvolvido em Portugal, sentindo-se bastante que esteja esquecida das suas tradições e sobretudo dos seus modelos. As antigas arrecadas muito largas e os corações empoiados de filigrana tinham uma feição archaica, mas apresentavam um typo definido, um caracter artistico, que não teem as producções modernas. Muitas circumstancias actuaram em todos os tempos para que a ourivesaria tivesse sempre um grande desenvolvimento. O elemento civil e o elemento ecclesiastico cooperavam egualmente para esse florescimento artistico. Os nobres gostavam de ostentar as suas baixellas, e entre as classes remediadas era um systema de accumular economias. A riqueza dos lavradores contava-se não só pelos campos que possuiam, mas pelos grilhões de ouro que as filhas traziam ao pescoço, em dias de festa. A egreja era uma das melhores freguezas da ourivesaria. Em varias doações e testamentos da edade media apparece a cada instante a menção de objectus do culto, algumas vezes de prata cu ouro. O conde Sesnando le

goo em 1987 dwas tarpas partes dos seus WARDS is manifestações artisticas, e que os seus prede prata á egreja de Micious. que ele fundara para que se finessen frouts, cruzes & calices No mesmo au Monins Frontigui got a S Salvador do Pago de Sousa un mewaan de prata pura de 80 sitios e um em ra A da ne mesmo anoicaci Frenatis ingor ja episcopal de Cointra un vase of prack of 24 soldos. S. Geraian, arcebispo de Braga, fn: maito solicito com a sua egreja, mandaue fazer calices e tharibulos de prata e muros aruamentos. Depois da fundação de monarchs of res fi ram geralmente prodigos para con & egreja e bastar só D. sanche 1 para car que fazer aus ourives. Além de muitas dad vas. Jegot a com

Quotes. I uma BOTH OURS. necromuda, RSSgalavan, comt marcos min. E pases evpWarna Cs su sa LITE: ans seruins. Desde os sugelds thures EBLLDDS of D Ma at a custodia de Estreits- un pamor de jou - Davin epoca o escola artistica One mar estresse mais ou menos representačia. Lufelizmente 2001 esse obra e anorma, porque os at TATLI vincularam os seus nomes BDS 1.20Burtos da sua offene Se når fora o zestamento de I. Manne når se sabersa que fica S. Ticente F JETTBUS: GE BomTavel custoEIR ar Swem. Peips documentos é que quasi sempre st seem decaar os nomes dos artistas com

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Tags offerecida as Branil por el-rei D. Maune II, executada nas officinas da joalharia Leitão

egrejas da invocação de Santa Maria outros tantos marcos de prata, para cada uma fazer o seu calix; o mesmo a cincoenta egrejas da invocaão de S. Jorge. Alguns objectos d'essa epoca ainda se conservam, como adeante indicaremos No seculo Ivi as porcelanas da India e da China principiaram a substituir em parte as baixellas dos grandes, mas a ourivesaria não diminuiu, com se vê dos presentes que D. Manuel, e os sens successores, enviavam ao papa e a outros soberanos, tanto da Europa como do Oriente. Ao rei de Cananor entregou Vasco da Gama uma bella espada de ouro, cujos esmaltes o enlevaram. A exposição retrospectiva d'arte ornamental, realisada em Lisboa em 188, mostrou que era a ourivesaria que levava a palma ás restan

as suas obras. As inscripeões, que nellas se apresentam, são as mais das vezes equivocas, pois a phrase me ferit refere-se à pessoa que mandou fazer a obra e não ao artista que a executou. Assim succede, por exemplo, com um vaso sagrado, calix on pyxide, que era do convento de Refoios de Lima, existente no thesouro da sé de Coimbra. São varia lissimos os productos que a ourivesaria antiga deixou em Portugal, numa evolução curiosa da forma e do ornato. Na ourivesaria religiosa: calices, relicarios, custodias, cruzes, baculos, mitras, etc. Na ourivesaria profana as peças são innumeraveis, em ouro e prata, e com pedras preciosas; são escudelas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras, almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores,

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