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Bein que os onze apregoão que acabado
Será o negocio assi na corte Inglesa
Que as dainas vencedoras se conheção,
Posto que dous e tres dos seus falleção.

Ja num sublime e pubrico theatro
Se assenta o Rey Ingles com toda a corte.
Estavão tres e tres e quatro e quatro,
Bem como a cada qual coubera em sorte.
Não sam vistos do Sol, do Tejo ao Batro,
De força, esforço e danimo mais forte,
Outros doze sayr como os Ingleses
No campo, contra os onze Portugueses.

Mastigão os cavalos escumando
Os aureos freos com feroz sembrante!
Estava o Sol nas armas rutilando,
Como em cristal ou rigido diamante ;
Mas enxerga-se num e noutro bando
Partido desigoal e dissonante,
Dos onze contra os doze, quando a gente
Começa a alvoraçar-se geralmente.

Virão todos o rosto aonde avia
A causa principal do reboliço:
Eis entra hum cavaleiro, que trazia
Armas, cavalo, ao bellico serviço;
Ao Rey e ás damas fala, e logo se hia
Pera os onze, que este era o gram Magriço;
Abraça os companheiros como amigos,
A quem não falta, certo nos perigos.

A dama, como ouvio que este era aquelle
Que vinha a defender seu nome e fama,
Se alegra e veste ali do animal de Hele,
Que a gente bruta mais que vertude ama.
Ja dão sinal e o som da tuba impelle
Os belicosos animos que inflama;
Picão desporas, largão redeas logo,
Abaxão lanças, fere a terra fogo.

N'este quadro primoroso, que se dizia fazer parte de um poema de cavallaria, tal é em Camões o poder de evocação historica, já a lealdade e a bravura portugueza apparecem, mas não se caracterisam ainda com as feições que a distinguiram depois. Magriço não se levanta acima do typo da cavallaria namorada, e a sua lealdade tem um objecto sem alcance moral. Nunalvares, porém, o precursor do patriotismo portuguez, o candido heroe da revolução de 1383, levanta-se entre Affonso Henriques e Albuquerque, entre a Edade média e a Renascença, entre o velho povo guerreiro e rural e a nação maritima e conquistadora em que elle se tornou, abrindo a passagem com a sua espada de cavalleiro e com a sua palma de santo. Nunalvares dá á sua lealdade e á sua força um objecto condigno. Em vez de se votar ao serviço dos despeitos caprichosos de umas cortezans galantes, vota-se á defeza de uma nova amante, a patria, a que o castelhano pretende roubar a pureza virginal da sua independencia. Acceso em paixão, com os ardores da mocidade de um povo a borbulharem-lhe no peito, e com o enthusiasmo proprio de sentimentos ainda não completamente definidos, a incendiaremlhe a mente, Nunalvares exclama arrebatado,

Com palavras mais duras que elegantes,
A mão na espada, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo :

«Como da gente illustre Portuguesa
Ha de aver quem refuse o patrio Marte ?
Como desta provincia, que princesa
Foy das gentes na guerra em toda parte,

Ha de sair quem negue ter defesa,
Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
De Portugues e por nenhum respeito
O proprio Reino queira ver sogeito ?

Como ? não sois vos inda os descendentes
Daquelles que debaixo da bandeira
Do grande Enriquez, feros e valentes,
Venceram esta gente tam guerreira ?
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Poseram em fugida, de maneira
Que sete illustres Condes lhe trouxerão
Presos, afora a presa que tiverão ?

Com quem forão contino sopeados
Estes, de quem o estais agora vós,
Por Dinis e seu filho, sublimados,
Senão cos vossos fortes pais e avós?
Pois se com seus descuidos ou peccados
Fernando em tal fraqueza assi vos pos,
Torne-vos vossas forças o Rei novo,
Se he certo que co Rei se muda o povo.

Rei tendes tal que se o valor tiverdes
Igual ao Rei, que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem ja desbaratastes ;
E se com isto em fim vos não moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atay as mãos a vosso vão receio,
Que eu so resistirey ao jugo alheio.

Eu so com meus vassalos e com esta
(E, dizendo isto, arranca mea espada)
Defenderey da força dura e infesta
A terra nunca de outrem sojugada ;
Em virtude do Rei, da patria mesta,
Da lealdade, ja por vós negada,
Vencerey não so estes adversarios,
Mas quantos a meu Rei forem contrarios ». 1

1.C. iv, 11-19.

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Eis-ahi como o patriotismo portuguez se elabora, definindo-se progressivamente no sentido da abstracção. Funda-se no sentimento ingenito da lealdade que em Portugal nasce, como nascêra em Roma, das condições hostis em que a nação se formára, por um acto de vontade contra os preceitos espontaneos da natureza ambiente. Affirma-se primeiro na esphera pessoal da fidelidade á amante e ao principe; depois levanta-se para se tornar um voto quasi religioso a esse sêr incorporeo que avassalla todos os corações com uma paixão tão viva como as paixões naturaes. A Patria é a amante e o principe!

E este desdobramento do amor e da lealdade, pela abstracção, corresponde ao progresso da sociedade no seu organismo. E' a propria alma d'esse organismo vivo, que agora canta unisono acclamando o Mestre d'Aviz victorioso em Aljubarrota. Rasgam-se os horisontes de edades novas a um povo que apparece consciente da sua força, vibrante no seu enthusiasmo, emergindo do passado obscuro em que o patriotismo se elaborava ainda indefinido nos nimbos de um instincto de independencia pessoal: sentimento negativo apenas, sem o valor de uma affirmação categorica do pensamento, embora sempro tivesse sido, desde o dia de Guimarães, um protesto energico da vontade.

Da mesma forma, em Roma, as condições do estabelecimento primitivo da cidade crearam logo a energia activa para a conservação; e essa energia, expandindo-se, desdobrando-se, emergindo da confusão obscura' do naturalismo para a atmosphera luminosa das idéas, produziu pela primeira vez no mundo o phenomeno moral do patriotismo, que a analogia das condições e uma similhança de historia produziam em Portugal. Assim os portuguezes se acreditavam, e com razão, novos romanos.

Porque não era só na definição psychologica do caracter que reproduziam Roma: era tambem nos traços geraes da historia social. Tambem Roma fóra primitivamente um povo de lavradores-soldados; tambem depois trocou o arado pelo remo, a terra pelo mar, sacrificando o desenvolvimento social e economico da metropole, á embriaguez das conquistas, á fascinação e á dilatação do imperio por mundos tão desconhecidos para elles, como eram para nós os ultramarinos.

II

São exactamente, em geral, as nações pequenas, construidas como Portugal em hostilidade com as condições naturaes de formação e expansão politica, aquellas que mais acceso mostram o patriotismo, nervo intimo da sua existencia e penhor da sua duração. A’ irmandade nascida de um sangue commum, ou de interesses identicos determinados pela geographia, substituem taes povos a irmandade fundada no sentimento quasi religioso de amor por uma abstracção, synthese das vontades communs que os romanos denominaram Patria.

A Patria não é o chão onde nascemos, porque o romano, inventando a ficção juridica, alargou o principio da adopção da familia á sociedade, e o estrangeiro era tão romano como aquelle que nascêra em Roma. Pois não é toda a Italia uma Roma, desde

que o fôro romano se estendeu a toda a penin

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