Imagens das páginas
PDF
ePub
[ocr errors]

o seu genio acordára, temperando-se na educação lyrica. Com o prenuncio ainda vago das aventuras que o esperavam, «por terra nova e estranha, offerecido ao mar remoto e ao vento», porventura o poeta allude, na «perfida esperança» que «longo tempo.o trouxe cego», aos annos consumidos na idea de abraçar o estado ecclesiastico.

Mas o que já se ouve e sempre se ouvirá, é o cantar meigo da harpa da melancolia que, n'outra despedida ao Mondego, diz assim:

(

Por quantos modos, quantos meios,
As minhas saudades me entristecem !

Vida de tantos males salteada,
Amor a põe em termos, que duvida
De conseguir o fim d'esta jornada. 1

[ocr errors]

Aos dezoito (ou dezenove) annos Camões entrava, pois, na côrte, cujas portas lhe abria o nascimento, travando relações de camaradagem com a mocidade dourada do tempo, geração precedente aquella que em Cintra e em Lisboa acompanhava Ø. Sebastião: rapazes alfenados, arrastando o passo e as fallas affectadamente, com a ambição morbida de espantarem o mundo por alguma excentricidade ruidosa ; rapazes de que o rei era o primeiro, com a sua visão louca da conquista do Santo Sepulchro, allucinação aristocratica das Cruzadas, resuscitada por atavismo, e que deu connosco em Alcacerquibir.

A geração de Camões era outra: eram ainda os homens duros e praticos, pilotos o soldados, absorvidos pelo afan de conquistarem e enriquecerem; dando largas ao temperamento violento, ensaiando-se em moços, pelas aventuras da côrte, nas aventuras mais sérias da vida. Essa goração que compunha a roda dos amigos de Camões á sua volta de Coimbra, incluia o duque de Bragança e seu irmão D. Constantino, que depois foi vice-rei da India, o duque de Aveiro, os marquezes de Villa Real e de Cascaes, os condes de Redondo e da Sortelba, D. Antonio de Noronha, e o conde de Vimioso, D. Antonio de Portugal, a quem o poeta chamava o seu Mecenas. 1

1 Sonn. 111.

A côrte era ainda uma academia: em torno da infanta D. Maria congregava-se um circulo de mulheres lettradas: D. Leonor de Noronha; as Sigeas, Angela e Luiza, hellenistas e hebraisantes celebres; Publia Hortensia de Castro; Joanna Vaz, illustrissima em classicos; e a filha de Gil Vicente, que na côrte se chamava já o «Plauto portuguez), e que morrêra em 1536, quando Camões era ainda quasi uma creança, um anno antes de partir para Coimbra. Bernardim Ribeiro, encerrado no seu retiro de Cintra, chorava a morte da princeza amada. Sá de Miranda, mentor litterario de Diogo Bernardes, depois de lançar as lettras portuguezas na esteira em que agora navegavam, acolhera-se no proprio anno da morte de Gil Vicente á sua Thebaida minhota da Tapada, d'onde não voltou a sair. 2 João de Barros, o amigo de Damião de Goes, e que em 1520 se ensaiara escrevendo o Clarimundo, não publicára ainda as suas celebres Decadas, que só dez annos mais tarde (1552) principiariam a vir á luz.

Não eram, porém, os graves estudos dos lettrados e eruditos que absorviam as attenções e as sympa

1 Ode, 7. — 2 C. Michaellis de Vasconcellos, Poes. de Fr. de de Miranda ; Halle, 1885.

thias de um rapaz de dezoito ou dezenove annos, alegre, formoso, robusto. Rimava, mas por galanteria e folgança. As mulheres, a meza, os amigos, o janotismo: eis-ahi as suas preoccupações e os seus exercicios. Se cogitava no futuro, a sua idéa era decerto ganhar a vida na côrte, ou pelas armas, aventurosamente. Presumido, as camisas bordadas, os pellotes de velludo, as ceroulas de chamalote, as carapuças de solia e os chapéos de abas. exaggeradas, que o faziam conhecido, traziam-n'o. então muito mais occupado do que outras cogitações. Ruivo, de olhos azues, rasgados, com seus bigodes. viris, os labios cheios, a testa larga mas «algum tanto carregada), Camões encantava as mulheres, como bom portuguez, dispondo d'aquelle ar amavioso de que falla o Fernam Lopes e que Bernardim Ribeiro celebrava no seu romance da Menina e Moça. Retratou-se a si proprio no Leonardo:

soldado bem disposto
Manhoso, cavalleiro e namorado
A quem amor não dera um só desgosto.

Por sobre namorado, buliçoso e ardente, achavam-n'o em todas as contendas tão frequentes da vida de uma côrte que era o viveiro de capitães destinados a irem por todo o mundo dominal-o com a sua valentia. Querido como rapaz alegre e brioso, ninguem descortinava n'elle o que viria a ser; pois nunca passou por prodigio na infancia, triste sorte que, por via de regra, só produz enfesados ou monstruosidades. Embora poetasse já, Camões era um rapaz como os outros n'uma côrte accentuadamente litteraria ; mas tinha a mais que mui

tos outros uma sensibilidade de tal modo exaggerada, que na primeira crise decidiria da sua vida. O mundo interior não o dominava ainda, mas a erupção dar-se-hia ao primeiro abalo.

Esse abalo foi a sua paixão pela filha de D. Antonio de Lima, que era mordomo-mór do infante D. Duarte. Chamava-se Catharina; Camões (Luis = Liso, ou Niso) chamou-lhe Natercia. Estavam em moda os anagrammas eruditos: Rabelais diziase Acofribas-Nasier, ou Rabie-læsus; Jean Turquet era Naturequite; Calvino, Jean-Cul; Long-se-desavoye significava Louise de Savoie.

Viu-a pela primeira vez resando n’uma egreja, como Petrarcha à sua Laura em Santa-Clara de Avinhão:

Amor alli, que o tempo me aguardava
Onde a vontade tinba mais segura
Com uma rara e angelica figura
A vista da razão me salteava. 1

E Natercia, transfigurada pela imaginação do poeta, foi para ello o que a mulher é para a natureza: o symbolo do amor universal, como Beatrice e Fiammeta, Laura e Catharina de Vancel, Sofronia, Ginevra e Theodora. No recinto luminoso da egreja, Natercia apparecia a Camões como uma revelação do Inconsciente, abrindo ao seu espirito horisontes ainda não vistos, circulos de um mundo por onde o eterno feminino o levava, como Virgilio a Dante, guiando-o pela mão.

[ocr errors]

1 Sonn. 77.

Desde logo a Alôr da sua alegria ingenua de rapaz bulhento se achou transformada n’um desejo ardente de amor, em cujo nucleo estava o côro de sentimentos epicos desabrochados successivamente com o tempo, entretecido na amarga corôa de afflicções e espinhos lancinantes. A sua virgindade sentimental quebrava-se, a sua ingenuidade fugia. O amor fazia-o homem. Começavam-lhe os tormentos da vida; o maior de todos os quaos seria a ambição epica, acordada quando o menor, as torturas do seu amor humano, lhe trouxessem a primeira crise sentimental.

As crueldades da sua amada são como os primeiros balanços da nau, ao embate das ondas nuncias de tempestade :

Ah! Natercia cruel! quem te desvia
Esse cuidado teu do meu cuidado ?
Se tanto hei de penar desenganado,
Enganado de ti viver queria.

Qe foi d'aquella fé que tu me deste ?
D'aquelle puro amor que me mostraste ?
Quein tudo trocar pôde tão asinha ?

Quando esses teus olhos n'outro puzeste,
Como te não lembrou que me juraste
Por toda a sua luz que eras só minha ? 1

Natercia sorria enygmaticamente com o sorriso da Joconda, arrastando o poeta para a via-sacra das torturas que lhe haviam de revelar o seu destino. A mulher é uma sereia por cuja voz enganadora falla a verdade. Natercia perdia o; mas, perdendo-o, ganhava-o para a sua missão. Quando muitos annos depois, em 1558, o poeta, encarcerado em Goa, já na plena posse do seu genio e na completa

1 Sonn. 147.

« AnteriorContinuar »