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sua graça pera conhecerdes & obrardes as cousas de sua vontade & sancto seruiço. E acerca desto crede & day fee a Pedraluarez cabral, fidalgo de nossa casa , & nosso capilào mór em todo o que de nossa parte vos falar requerer & com vosco tratar. De Lisboa ho primeiro de Março de mil & quinhentos.

Dada esta carla a el rey foylhe logo lida pelo lingoa, & despois lhe deu Pedraluarez hủ presente que lhe mandaua el Rey dom Manuel, q era destas peças. Hû bacio de prata dagoa as mãos de bestiães dourado, & hü agomil & hùa copa cô sobrecopa. Duas naças de prata. Quatro almofadas destrado, duas de brocado & duas de veludo carmesim. Hů esparauel de borcado broslado de veludo carmesim. Hů tapete muyto fino , & dous panos darmar deras, hü de figuras, outro de verdura. El rey mostrou q folgaua muylo coestas peças, & pregůtou de que seruia cada bữa. E despois disse a Pedraluares que se fosse pera sua pousada ou pera a frota se quisesse: porğ era necessario inandar polos arrefès que estauão no mar pera comerê em terra, por seu costume Ibe defender ò ho não fizessem lá. E pedraluareş lhe disse que ainda que mandasse pedir os arrefens os não auião de dar porą auião de cuydar û era recado falso. Ao q el rey disse que se tornasse á frota &

que

The mådasse os arrefès : & que ao outro dia tornaria pera assentarê ho trato que el rey de Portugal queria ter ở Calicut. Do que Pedraluarez ficou muyto agastado porque lhe pareceo aquilo desprezo, & teue a el rey por home incostante.

CA P I T O L O XXXVI.

Do

que aconteceo a Pedraluarez cabral em Calicut. Em

quanto Pedraluares esteue falando co el rey de Calicui desejado.os mouros de auer reuolta àlreles, porą não ouuesse effeito ho trato q Pedraluarez queria assentar em Calicut: fizerão com hù escriuão da fazenda del rey que fosse a frota a pedir os arrefés da parte de Pedraluares: & Ayres correa não os quis dar, porq ele deixara dito que posto q lhos pedissè da sua parte que os não desse. E estando nesta pratica ho escriuão do mar em hüa almadia & Ayres correa do bordo da nao, os arrefès polo q Ihes ho escriuão disse lançarãse ao mar pera se acolherê na almadia & fugirë, o que fora se lhe Ayres correa não acodira muylo prestes no esquise da nao com algus marinheiros que tomarão Araxamenoca & outro, & assi quatro malabares: mas ho catual fugio. E è Pedraluares saindo do carame soube o q passaua por hů Portugues: & com ho agastamento que trazia del rey, & com o ğ isto lhe deu não teue acordo pera recolher o falo que tinha na sua pousada, nem A fonso furtado que lá estava com sete Portugueses, & embarcandose cô grande pressa tirou caminho da frota a força de remo, & entrado na capitaina mãdou logo meter Araxamenoca & ho outro debaixo de cuberta, porở não fugissem , & mädou fazer queixume a el rey do escriuão pola reuolta q fizera: mandandolhe dizer que lhe não auia de mandar os arrefens se lhe não mandasse os Portugueses & ho fato q deixara em terra. E por ser noite quando este recado foy a el rey ficou a cousa assi. Porem el rey não deu nephủ castigo ao escrivão, nem mandou nenhüa desculpa a Pedraluares, se não mandoulhe ho seu fato com os Portugueses. E os que lhos leuauão nunca ousarão de chegar á frota cổ medo que os tomassem, pelo que ao outro dia mandou Pedraluarez os arrefès por Ai

res correa, que os entregasse aos Malabares afastados da frota , & estando juntos hûs, & outros pera fazere esta êtrega , saltou Araxamenoca nagoa pera fugir, mas não pode, que hů marinheiro ho apanhou pelos cabelos & deu coele no batel, & ho outro fugio nesta volta , & acolheose aos Malabares. E Afonso furtado com cinco Portugueses teue tèpo de fugir pera Aires correa que se tornou á capitaina & contou a Pedraluarez ho q passaua, q estaua muy espantado da pouca verdade dos Malabares & mais del rey, a que os mouros não deixauão de matinar com repetirè niuytas vezes os males que The tinhå dito dos Portugueses : & fazendolhe crer qne se forão pera paz, q não lhe pedirão arresës, & se fiarầo dele como fazião todos os mercadores, & sein mais cautela fora Pedraluarez a terra & assentara trato, mas por ir de guerra pedia arresës pera se segurar. E coisto passarão tres dias sem el rey mầdar nhů recado a Pedraluarez, que auêdo dó Daraxamenoca por auer tantos dias que não comia ho mandou a el rey liuremente, & ele lhe mandou os dous Portugueses que ainda eslauão em terra, & ho seu fato. E despois cổ prazme del rey, q deu arrefès dous mouros honrrados netos dum mouro Guzarate, foy Aires correa a terra pera assentar feytoria, que assentou com licença del rey, a que disse que el rey de Portugal teria sempre nela outras tais mercadorias como os mouros de Meca leuauão a Calicut: & nesta pratica lhe prometeo el rey de lhe fazer carregar as naos em vinte dias , &

que a sua carrega seria primeyro ģ a de nenhûs estrâgeiros, porque deixaria todos por dar auiamèto a el

rey de Portugal', & mãdou apousentar Aires correa è bìas casas do guzarate auó dos arrefës , a que rogou ĝ fosse lingoa & corretor Dajres correa , & ho instruisse no modo de comprar & vender daquela terra, ho q ele não fez, porque logo os mouros de Meca ho fizerão da sua parte có muytas peitas que lhe derão, & lhe fazia cõprar a especiaria mais cara do q se vendia aos mouros, & fazialhe věder a mer

cadoria de Portugal por unenos do que valia : & quando Aires correa auja de falar a el rey faziaho saber aos mouros pera q fossem presentes, & ho estrouassem no que podessein, & ho ở Aires correa queria dizer a el Rey, mudauao ele ao reues, & coisto não podia Aires correa aproueitar a fazenda da feytoria âles perdia muito: & tudo isto veo Aires correa a saber, per hum mouro chamado Cojebequim, homë muyto principal e Calicut, por ser cabeça dos mouros naturaeis da terra , que tinhão bando contra os do Cairo, & do Estreito de Meca , de que era cabeça outro mouro do Cairo ĝ auja pome Coje çameceriin, que gouernaua as cousas do mar de Calicut, & por esta diuisam que auià antre estás duas nações de mouros, & ser Cojebequim cabeça de hů dos bandos, quis ele tomar amizade com os Portugueses pera se fauorecer coeles, & por isso tinha conuersação cố Aires correa , & The descobrio a treição ở ho Guzarate lhe fazia , & mais que Coje çamneceri a rogo dos outros mouros de Meca por cuidarem que fazião mal aos Portugueses , não deixaua ir á frota nhů dos que estauão na feytoria : dizendo que assi lho mådana el Rey que ho fizesse , & coessa cor não deixaua tornar á frota nhù dos que dela yão a terra. Ho que sabido por Aires correa ho escreueo a Pedraluarez , affeâdolhe muyto ho caso, & dizendo que lhe parecia q os mouros querião fazer algủa treição : & cuydando Pedraluarez û seria assi, por se segurar se leuou do porto cô toda a frota , & se afastou hů pouco pera ho mar onde surgio, do q se el rey espătou mayto, & sabido Daires correa ho porợ ho fazia: disselhe q ele proueria como os mouros não fizessem mais' ho que fazião dåtes, porğ folgaua muyto de os Portugueses terem trato em sua terra : & segurando Aires correa quanto pode se tornou Pedraluarez ao porto, & el rey lirou de corretor & lingoa Daires correa ho mouro Guzarate polas falsidades q fazia , & deu ho mesmo carrego a Cojebequim, por saber que era amigo Daires correa, a quem pera que vendesse melhor a fa

zenda da feytoria deu bữas casas de Cojebequi q estauão junto do mar: & fez delas doação pera sempre a el Rey de Portugal pera ter ali sua feytoria : & a escritura disso foy feyta ở hảa folha douro batido. E porque lodos soubessem ğ ali era a feytoria del Rey de Portugal, mådou a Ajres correa que posesse sobrela hûa bandeira das armas Reais, & assi se fez: & dali por diante ho fauorecia muyto, & por isso os da terra tinhão gråde amor aos Portugueses, & tinhão coeles muyta conuersaçam.

C A P I T O L O XXXVII.

De como Pedraluarez cabral , mãdou tomar hứa nao

pera el Rey de Calicut. Durando

urando esta conuersação antre os Portugueses & os Malabares, mãdou el rey dizer a Pedraluarez cabral, ĝ ele mandaua comprar hů Alifåte a hů mouro de Cochim chamado Patemarcar, & não lho quisera vender dandolhe por ele tanto quanto outrem lhe podia dar , & afora não lho qrer vender lhe mandara dizer algủas descortesias, & antralas fora ở mặdaua ho Alifante a Cabaya, & auia de passar a vista de Calicut Q lá lho podia mandar tomar polos Portugueses em que confiaua muyto: pedindolhe q pois a nao auia de passar a vista de Calicut que lha mandasse tomar, porque compria muyto a sua hõrra tomarse. Pedraluares como tinha a el rey por incăslăte, receaua que não lhe desse a carrega como The tinha prometido, fazia cota de ir carregar a Cochim, & por isso desejaua destar bem cổ el rey de Cochim, pelo que se lhe fazia graue de tomar a nao, receâdo de ho anojar nisso, & assi ho disse aos capitães em hủ conselho que

sobrisso teue: & elles lhe conselharão que com tudo era necessario tomarse a nao, pera el Rey ter credito nos Portugueses. E por isso mandou Pedraluarez fazer prestes a Pero dataide no seu nauio, & deulhe sessenta homěs , & mãdou a hü fidalgo chamado Duarte

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