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deu a

De como Vasco da

gama

el
rey

de Calicut a embaixada

que

lhe leuaua, Daqui prosseguiră seu caminho ale chegarë a Calicut, a cuja entrada leuarà Vasco da gama & os nossos a outro tal pagode como este : & quando foy ao entrar da cidade, era a gente tầta assi da que saya dela a ver os nossos como da ģ ya coeles, que não cabia pela rua. E Vasco da gama ya espătado de ver tanta gente: & quando se ali vio deu muytas graças a nosso senhor por ho deixar chegar a esta cidade, pedindolhe q ho encaminhasse de inaneyra que tornasse a Portugal com ho recado que desejaua. E despois de ir hũ pedaço por aquela rua por onde entrou , por a gente ser lanta q não podião romper os que ho leuauảo no andor se meteo ho Catual coele em bùa casa : & ali foy ter coele hũ irmão do Catual que era grão senhor, & vinha por mandado del rey pera ho acompanhar ate ko paço, & leuaua consigo muylos Naires, & diante muylas trombetas & anafis que yảo tangendo, & assi hü Naire que leuaua bìa espingarda com que tiraua de quando em quãdo. E despois de se receberem Vasco da gama & este senhor com muyto prazer abalarão pera os paços del rey com grande estrondo de tangeres & arroido da gente , q despois da vinda do irmão do Catual deu lugar & se afastaua, & yão com tầto acatamento como que fora ali a pessoa del rey de Calicut, & irião bem tres mil homềs darmas, & pelos telhados, & pelas portas das casas não tinha conto a gente que estaua. E Vasco da gama ya lão ledo de se ver assi receber q disse aos seus rindo. Quão fora estão agora de cuydar è Portugal ĝ nos fazem tamanho recebimento: & cuisto chegou aos paços del rey cô mais de hûa ora de sol. Os paços tirãdo serê terreos erã muyto grades, & parecia ser hû fermoso edificio,

polos muytos aruoredos q parecião perâtre as casas,

& estes erão de muytos & fermosos jardins q auia dentro, è q auia muytas froles & eruas cheirosas, & tanques dagoa pera recreação del rey, ở nüca sae dos paços se não quãdo vay fora de Calicut. Dos paços sayrã muytos caimais & outros senhores a receber Vasco da gama : & etrarão coele em hữ terreiro muyto grande : & dali passarả quatro patios, & á porta de cada hů estauảo dez porteiros : & estas portas passarão por força de muytas pancadas que os porteiros dauão na gente pera fazerè afastar, q não entrasse. E chegado á derradeira porta ģ era da casa onde el rey estaua, sayo de dentro hů homě velho & baixo de corpo, que era ho bramene mór del rey, & abraçou Vasco da gama,

& leuouho dětro cổ os seus. E nesta étrada carregou a gête tanto em demasia q se afogarão algûs. E não aproueitaua darê os porteiros muýtas păcadas de ĝ muytos forão feridos : & coisto teuerào os nossos lugar de entrar. Deste terceiro patio è rarão na casa onde el rey estaua q era grăde & cercada ao derredor dassentos de pao hữs acima dos outros a modo de teatro: & ho chão estaua cuberto de veludo verde de pelo, & as paredes a paramètadas de panos de seda de muylas cores. El rey era homë baço & gråde de corpo & de boa idade, estaua lầçado em hù catele cuberto de hů pano branco de seda & douro: & per cima bũ ceo muyto rico. Tinha na cabeça hìa carapuça de veludo, feyta ao modo de celada antiga , cuberta de pedraria & perlas , & nas orelhas hûas arrecadas do mesmo: tinha vestido hů baju branco, de pano dalgodão finissimo, cô botões de perlas muyto grossas & as casas de fio douro: tinha cîgido hů pano bråco do mesmo algodão , que lhe chegaua ao giolho , & os dedos das mãos & dos pés cheos daneis douro com muyto fina pedraria , & nos braços muytos braceletes ricos , & nas pernas manilhas douro. Junto coeste catele estaua hüa batega de pé alto toda douro, que são de feiçà de copos de Frandes chãos, se não q são nayores & menos

el rey

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couos. E nesta estaua ho betele q el rey masligaua cô cal & areca, que são hûs pomos de tamanho de nozes noscadas: & comesse isto ē toda a India porğ faz bỏ bafo, & exuga muylo ho estamago , & mata a sede : & como he mastigado lançãno fora, q não bo engolem & tomão outro. E pera låçar esie betele mastigado & cospir, estaua ali hů cospidor douro, tamanho como hứa bacia meaã tăbề de pé, & ́assi estaua hů guinde douro û he da feiçã dagomil ou quasi, & estaua cheo dagoa pera

lauar a boca quãdo acabasse de mastigar ho betele ğ assi se costuma. E este betele lhe daua hů homě velho que estaua jüto do catele, & os outros que estauão na casa linhão as mãos ezquerdas diàle das bocas porą não fosse ho seu bafo ler a el rey, o ở hả por grãde descortesia , & assi cospir ou escarrar, & por isso nã ho faz ninguě na casa onde está el rey. Entrãdo Vasco da gama nesta casa fez a el rey reuerencia següdo ho costume da terra, que he abaixarse todo tres vezes cố as mãos juntas como què louua a Deos estèdidas pera diãte: & el rey lhe acenou logo q se fosse perto delle, & mådou ho assentar nağles assentos q disse. E assentado čtrarão os seus & adorarão el rey assi como ele fez: & el rey os mãdou tâbề assentar de fronte dele: & madoulhes dar agoa as mãos pera desencalmarè, porq posto ĝ fosse inuerno não deixaua de fazer calma. E lauadas as mãos mandoulhes dar figos & jacas pera ở coinessem logo, o q eles fizerão de bõa vontade & sem pejo, o qel rey folgaua de ver porở oulhaua pareles & riase , & despois falaua com ho velho q lhe daua ho betele. E muyto mais mostrou folgar quãdo os nossos pedirão de beber, q lho derão por guides : & como sabião ĝ se costumaua beber dalto por auerè os Malabares por çugidade tocar cỏ os beiços no vaso por õde bebê quiserão beber dalto : & não sabedo ainda ağle modo de beber daualhes a agoa no goto & tussião & outros errauão a boca , & cayalhes a agoa pelo rosto, entornãdoseThe pelos peitos, do q el rey muyto gostaua : & oulhan

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do
pera
Vasco da gama,

disselhe

por hü lingoa ğ falas-se com ağles homës honrrados q ali estauả : & q dissesse o q quisesse q eles ho dirião. Do q ele não foy nada côtête, porở lhe pareceo aquilo desprezo : & respõdeo pelo lingoa, q ele era embaixador del Rey de Portugal, hů rey muylo poderoso,: & ở os reys Christãos costumauão de não receber as ēbaixadas por terceyras pessoas se não por si mesmos: & inda perante muyto poucas pessoas,

& estas de muyla cõfiàça. E por se isto assi costumar nas terras donde ele vinha, não auia de dar a embaixada a outré se não a ele. O q el rey disse ģ era bě, & q assi se fizesse. E logo madou leuar Vasco da gania com Fernão martinz pera outra casa q estaua com outro catale como ağle & assi aparamentada : & despois ĝ lá esteue foyse el rey parela ficãdo os nossos na casa de fora, & isio seria sol posto. E elrey como foy na camara, lançouse no catele não estãdo hi a fora Vasco da gama & Fernã martinz mais que ho lingoa del rey, & ho bramene mór , & ho velho q lhe daua ho betele, & mais hů seu védor da fazenda. El rey preguntou a Vasco da gama de que parte do můdo erag:

& ở queria : ao que ele respõdeo q era embaixador dû rey Christão do cabo do occidēle, senhor dů reyno principal chamado Portugal, & assi doutros muytos, pelo qual era muyto poderoso de gête, & muyto njais rico de lodas as cousas necessarias pera hů rey ser muyto mais rico que nenhů outro daquelas partes : & que auia seșsenta annos que os reys seus antecessores têdo fama que na India auia reys Christãos & muyto grandes sephores principalınente el rey de Calicut, inandaua descobrir per seus capitães ağla cidade pera terë amizade com os reys dela , & os terě por irmãos como era rezão: & visitarenos por seus embaixadores : & não porą tiuessem necessidade de sua riqueza porġ a q auia em suas terras, douro, prata & outras cousas de preço lhe sobejaua : & ở os capilães ğ yão a este descobrimento andauão nele hů anno & dous, ale q lhes falecia ho man

3

&

timento: & sem acharé o que buscauão se tornauă pera portugal o ở tinha custado muylo. E q el rey dổ Manuel ğ então reynaua , desejando de dar fim a esta empresa que auia låto těpo q duraua, por lhe nã faltar ho mantimèto como dåtes lhe dera tres naujos carregados deles , & ho mädara por capitão mór de todos tres, dizêdolhe q não tornasse a Portugal ate q lhe não descobrisse aquele rey dos Christãos q era senhor de Calicut, porque se tornasse sem isso lhe madaria cortar a cabeça: & q se ho achasse q the desse duas cartas suas , ģ The daria ao outro dia por sér então ja tarde, & ô The dissesse que ele era seu irmão & amigo, q lhe pedia muylo ở pois mandaua de tão longe buscalo que quisesse aceitar sua amizade, The mandasse seu embaixador pera a cõfirmar, &

que

dali por diante se visitassem por seus ebaixadores, como se costumava antre os reys Christãos. El rey mostrou q folgaua cỏ a embaixada , & assi ho disse a Vasco da gama, & ğ ele fosse muyto bề vindo : & pois el rey de Portugal qria ser seu amigo & irmão, q ele ho seria seu, & The mådaria sobrisso seu embaixador: ho ğ Vasco da gama lhe pedio muyto q fizesse: porở não ousaria daparecer diante del rey seu senhor sem ele. El rey lhe prometeo ở ho mädaria , & q logo ho despacharia. E despois de lhe pergütar polo estado delrey de Portugal, & quãto auia de sua terra a Calicut, & quãto se deteuera na viajem, por ser ja muyto noyte lhe disse q se recolhese : & pergûtoulhe se ĝria pousar cổ mouros se cô Christãos , & ele disse que cổ nenhûs se não só, & el rey mãdou a hů mouro seu feytor q o fosse apousentar, & lhe fizesse dar todo ho necessario.

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