Sidónio e Sidonismo: vol. 2 História de um caso político

Capa
Imprensa da Universidade de Coimbra / Coimbra University Press, 01/03/2006 - 415 páginas
1 Crítica

 O lente republicano da Universidade de Coimbra que, no ano de 1908, lançava uma acusação violenta contra a instituição, defendendo a laicidade do ensino e o laicismo, não é o mesmo que em 1918 se senta nos "doutorais", abrindo as portas ao regresso da tradição académica que, numa certa conjuntura (e só nela), pode ser entendida como uma das formas da Tradição? É o mesmo que permite a penetração do pensamento católico e da ação monárquica? Será esta uma questão relativa à "pessoa" de Sidónio ou uma questão resultante das "circunstâncias" em que pôde irromper um "movimento" que afinal o ultrapassa e que a história chamará "sidonismo"? Sidónio Pais terá sido, na verdade, um germanófilo, defensor de um sistema de poder autoritário, ou a sua presença ministerial em Berlim vale sobretudo como um elemento de vida, sendo sim significativa a sua afirmação presidencialista, como forma de encarar a República e como tentativa de a salvar da instabilidade permanente, regressando assim à lógica presidencialista americana e, sobretudo, brasileira, que marcou as primeiras propostas constitucionais portuguesas? Seja como for, para além de Sidónio está, sem dúvida, a representação do seu mito e a influência que ele exerceu numa direita republicana ou monárquica — a síntese pessoana do "Presidente Rei" é de um significado fundamental — para lá da sua morte trágica, em 14 de Dezembro de 1918. E não há nada como uma morte trágica para criar um mito ou mitos vários...
Partidos e associações cívicas de "direita" apelarão sempre para a imagem de Sidónio, caracterizando-se mesmo a elas próprias de "sidonistas", e para a imagem da "Ditadura", que passaria a ser designada não tanto como um regime de exceção, várias vezes assumido na Monarquia Constitucional ou na República, mas já como um "regime" em si mesmo, que daria origem a uma prática institucional de "terceira via". Por isso os salazaristas apelavam também para a ideia de um "novo Estado", de uma "República Nova" (como existira a ideia de uma "Monarquia Nova"), que sentiram, de forma indelével, na experiência ditatorial de Sidónio Pais. Entende-se, assim, toda a lógica de Salazar ao afirmar, em 28 de Maio de 1934: "As ditaduras não me parecem ser hoje parênteses dum regime, mas elas próprias um regime, senão perfeitamente constituído, um regime em formação. Terão perdido o seu tempo os que voltarem atrás, assim como talvez também o percam os que nelas supuserem encontrar a suma sabedoria política". Quem foi afinal Sidónio Pais? Dêmos a palavra a Malheiro da Silva e a todos os que, depois desta publicação, o quiserem criticar ou interrogar. E a sua tese é que Sidónio representou a via presidencialista da República, aproveitada — é verdade — por amplos sectores, durante a sua ditadura e depois dela, e representou, no fundo, a via autoritarista que a ideia de República também continha, como as ideias e as práticas da Revolução Francesa possuíam essa mesma tendência, conforme o procuraram provar alguns historiadores, como é o caso paradigmático de François Furet.

 

Opinião das pessoas - Escrever uma crítica

Não foram encontradas quaisquer críticas nos locais habituais.

Índice

Primeira Parte Ascensão política
Segunda Parte Cerco e Queda
Fontes e Bibliografia

Palavras e frases frequentes

Acerca do autor (2006)

Armando Malheiro da Silva nasceu em Braga em 1957. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga (Universidade Católica Portuguesa) e em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Habilitado com o antigo Curso de Bibliotecário-Arquivista pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Em 1989, na Universidade do Minho, prestou Provas Públicas com uma tese intitulada Ideologia e Mito no Miguelismo. Subsídios para o estudo da contra-revolução no Portugal oitocentista. Doutorado pela Universidade do Minho, onde defendeu, em 1999, a tese de doutoramento, intitulada Sidónio e Sidonismo. História e Mito. É professor associado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (Ceis 20).

 

He was born in Braga in 1957 and holds a Degree in Philosophy from the Braga Faculty of Philosophy of the Portuguese Catholic University and a Degree in History from the Faculty of Letters of the University of Oporto. He is also a graduate of the former Librarian-Archivist Degree Course of the Faculty of Letters at the University of Coimbra. He presented his credentials for the award of Master at the University of Minho in 1989 with a dissertation entitled: “Ideologia e Mito no Miguelismo: Subsídios para o estudo da contra-revolução no Portugal oitocentista” [Ideology and Myth in Miguelism: Subsidies for the study of the eighteenth century Portuguese counter-revolution]. He received his Doctorate from the University of Minho in 1999 with a thesis that dealt with the following issue: “Sidónio e Sidonismo. História e Mito” [Sidónio and Sidónionism: History and Myth]. He is Associate Professor at the Faculty of Letters of the University of Oporto and contributor to the 20th Century Centre for Interdisciplinary Studies at the University of Coimbra (CEIS 20).

Informação bibliográfica