Lisia poetica: ou, collecção poesias modernas de auctores portuguezes, Volumes 5-6

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Typ. Commercial, 1849
 

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Passagens conhecidas

Página 138 - Vem assentar-se á luz meiga da tarde, Na tarde do viver, junto do teixo Da montanha natal. Na fronte calva, Que o Sol tostou e que enrugaram annos, Ha um como fulgor sereno e santo. Da aldeia semideus, devem-lhe todos O tecto, a liberdade, ea honra e vida. Ao perpassar do veterano os velhos A mão que os protegeu apertam gratos ; Com amorosa timidez os moços Saudam-no qual pae.
Página 101 - Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus formosos olhos nunca enxuito, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.
Página 141 - Sem que as faces lhes tinja a cor do pejo; Sem que o remorso os corações lhes rasgue. Do Christo o nome passará na terra. Não ! Quando, em pó desfeita, a cruz divina Deixar de ser perenne testemunho Da avita crença...
Página 137 - Do humilde camponez não é ludibrio Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem ; Que por ti o cultor de ferteis campos Colhe tranquillo da fadiga o premio, Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura Lhe diga: «é meu, e és meu! A mim deleites, «Liberdade, abundancia: a ti, escravo, «O trabalho, a miseria unido á terra, «Que o suor dessa fronte fertilisa, «Emquanto, em dia de furor ou tedio, «Não me apraz com teus restos fecunda-la. » Quando calada a humanidade ouvia Este atroz blasphemar,...
Página 137 - Não vae contaminar, se a filha virgem Do humilde camponez não é ludibrio Do opulento, do nobre, oh! cruz t'o devem; Que por ti o cultor de ferteis campos Colhe tranquillo da fadiga o premio, Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura Lhe diga: — é meu, e és meu! A mim deleites, Liberdade, abundancia: a ti, escravo, O trabalho, a miseria unido á terra, Que o suor dessa fonte fertiliza, Em quanto, em dia de furor ou tedio, Não me apraz com teus restos fecundal-a.
Página 140 - Este longo esperar do dia extremo, No esquecimento do ermo abandonada, Foi duro de soffrer aos teus remidos, Oh redemptora cruz. Eras, acaso, Como um remorso e accusação perenne No teu rochedo alpestre, onde te viam Pousar tristonha e só? Acaso, á noite, Quando a procella no pinhal rugia, Criam ouvir-te a voz accusadora Sobrelevar á voz da tempestade? Que lhes dizias tu?
Página 143 - Cruzam o seu fulgor ; Nas horas do furor As vagas cruza o mar. Os ramos enlaçados Do roble, choupo e til, Cruzando em modos mil, Se vão entretecer. Ferido, abre o guerreiro Os braços, sólta um ai, Pára, vacilla, e cáe Para não mais se erguer.
Página 232 - Tange, tange, augusto bronze, Teu som alegre e festivo A cada nova pancada. Me torna mais pensativo. Quantas vezes me chamaste Em meio de meus folguedos, A louvar c'o povo todo Da Igreja lindos segredos ! . . Ora á missa convidando, Ora ao solemne sermão, Ora a invejar os anjinhos Que levava a Procissão. Eu era doido no templo (Vos sons do orgam sagrado, Canto, insenso, ramalhetes, E c'o trono illuminado.
Página 231 - Longe idéa tão funesta ! Era assim que te alegravas Todos os dias de festa. Era assim que tu folgaste Quando fui, débil menino, Mergulhar nas santas aguas O meu corpo pequenino. Era assim que ao Ceo dizias.
Página 136 - Sozinha estavas Ao por do sol, e ao elevar-se a lua Detrás do calvo cerro. A soledade Não te pode valer contra a mão ímpia, Que te feriu sem dó.

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