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objectivismo artificial, de nenhuma fórma positivo, porque nada ha de mais logico e verdadeiro que a existencia do passado e a sua acção no presente. Manda a critica desassombrada que se procure a verdade dos factos, que se estabeleçam os planos verdadeiros e que se lhes dé a perspectiva; manda a boa philosophia que d'elles se tire lição.

Se a philosophia da historia foi iniciada na Grecia com Socrates, nas obras de seu discipulo Platão, e por Aristoteles, aos quaes se seguiram Polybio e Xenophonte, verdadeiros antecessores de Santo Agostinho e Salviani, mais tarde, de Machiaveli, Campaneli, Bodin, e depois, de Montesquieu, Turgot, Voltaire, Condorcet, Guizot, Comte, Michelet, etc., na França, e de Leib. nitz, Iselin, Wegelin, Schlözer, Muller, e depois, de Herder, Kant, Schiller, Schelling, Schlegel, Hégel, etc., na Allemanha, e dos pensadores da Inglaterra e da Italia, vejamos onde foi que os estudos historico tiveram principio.

Não discutiremos, aqui, a antiguidade do Egypto e da Babylonia, porque tal questão ainda está por decidir; só referiremos as duas rasões principaes, que Hommel, professor particular na Universidade de Munich, apresenta, para demonstrar a maior antiguidade da Babylonia':

1. As mais antigas citações da Biblia referem-se á Babylonia, depois á Assyria e finalmente ao Egypto.

2.a As pyramides egypcias, primitivamente, foram escalonadas, como as babylonicas; prova isto a pyramide de Sakkara, mais antiga que as de Gizeh e que parece ter sido construida durante a primeira dynastia. Esta pyramide é escalonada e tem cinco degraus.

Está hoje provado, em vista das escavações feitas em Tello por M. de Sarzec, e por muitos outros do

1 Historia da Babylonia e da Assyria.

a

cumentos, que a Assyria foi, primitivamente, uma colonia babylonica, fundada pouco antes do segundo millenario antes de Christo, com a mesma lingua. mesma cultura da metropole. A Babylonia foi, segundo as mais antigas noticias, habitada pelos sumerios, accadios de origem ural-altaica, aparentados com os turco-tartaros, que, lançados nas planicies da Asia central, nomadas livres, degeneraram nos actuaes turcos, em tudo oppostos aos seus avós sumerios. Estes fundiram-se com os semitas a ponto de ser difficil differençal-os nas representações graphicas babylonicas, emquanto que nas assyricas o typo semita é puro. Reparando n'esta particularidade conclue Hommel que A colonisação da Assyria, com elementos babylonicos, ter-se-ia effectuado, portanto, n'uma epocha em que os emigrantes semitas não se tinham misturado, ainda, em grande quantidade, com a população sumerica, rasão a mais, por outra parte, em favor da não anterioridade da Assyria alêm de 1800 annos, antes de Christo»', emquanto que a Babylonia já era notavel 4000 annos antes de Christo. Por esta epocha iniciaram, os sumerios, segundo todas as probabilidades, a escripta cuneiforme, já precedida da escripta pictographica, e manifestaram-se nos estudos cosmogonicos, dignos do maior apreço; da mesma fórma se notabilisaram nas artes, como prova o cylindro de Sargão, do anno de 3800, antes de Christo; fundidos com os semitas, talvez, absorvidos por elles, creou-se o imperio babylonico e estenderam-se até á Phenicia, onde foram ensinar o que nas margens do Tigre e do Euphrates tinham aprendido.

As invasões dos elamitas, por 2300, antes de Christo, foram de secundaria importancia, mercê dos diques que lhes oppoz, por 1900, antes de Christo, o norte de Baby

Historia da Babylonia e da Assyria, introducção.

lonia; e as dos coseos', saídas das gargantas e valles que estão a Este de Babylonia, incommodaram largo tempo os antigos possuidores. É, porém, difficil, até encontrar novos documentos, precisar, com segurança, qual foi a influencia d'estes invasores na brilhantissima civilisação babylonica.

Para Hommel a civilisação babylonica ha de ser considerada como a mais antiga do mundo e mãe de todas as outras da antiguidade» 2 e, d'ahi, que os principios da civilisação humana procedem das margens do Tigre e do Euphrates; crê que os egypcios procederam da Asia, tudo o está indicando.

É um ponto incontroverso que as inscripções babylonico-assyricas e os hieroglyphicos egypcios são os primeiros documentos escriptos que nos apparecem, mas perpetuam factos que se passaram na epocha em que foram gravadas e têem, por conseguinte, um valor muito differente do que lhes seria attribuido se referissem factos succedidos seculos antes. As chronicas e as listas, a chamada chronica historica, que começa com Nabonasar, são, apenas, historias de tyrannos dictadas por elles mesmos ou por seus descendentes. No Egypto as inscripções hieroglyphicas serviam para a classe sacerdotal monopolisar o seu saber, como, na idade média, serviu, á mesma classe, o latim; mas sendo a classe sacerdotal, em todas as religiões, indolente e facciosa, produzindo puerilidades, as inscripções egypcias, por ella, em grande parte, redigidas, não tornaram intensa a luz que se antevia quando Champolion as começou a decifrar.

Os coseos fallavam uma lingua affim das linguas dos hetitas, armenios, pre-aryanos e elamitas, do grande tronco de dialectos alaródicos, representados hoje pelo georgino, segundo Hommel, Tomaschek e Gratz.

2 Historia da Babylonia e da Assyria, introducção.

Na celebre bibliotheca de Assurbanipal talvez existissem chronicas interessantes, n'este genero, mas nem Deodoro nem Herodoto nos fallam d'isso.

Para Bossuet seriam os livros dos Juizes, de Samuel, dos Reis e dos Prophetas, que fazem parte da Biblia, os primeiros monumentos historicos, propriamente ditos, mas a Biblia nada mais é que o repositorio de lendas extremamente poeticas, as suas relações symbolicas pouco interesse inspiram á sciencia, mórmente depois que se demonstraram as duas redacções jehovahista e elohimista, talvez feitas durante o captiveiro; é certo, porém, que um fundo de verdade alimenta aquellas tradições deturpadas, mas não é entre os livros historicos que, por estas rasões, tem logar essa magnifica encyclopedia, soberba epopêa da baixa Caldea, mais bella no espirito, que os poemas homericos, que o Kalevala, que o Nibelungen.

Devem, igualmente, ser postos de parte os fragmentos, que existem, do Avesta, o mais antigo monumento, escripto, da raça árica, porque é um livro essencialmente religioso.

Os orientalistas que pronunciam a phrase « ex Oriente lux, não podem defender, como trabalhos historicos, os Vedas, o Ramayana e o Maha-Bharata; no Rig, principalmente, ha verosimilhanças, na descripção do viver dos árias, e o Atharvan tem certo valor historico, mas • Maha-Bharata e o Ramayana, e os Vedas lithurgicos: Iadjur (branco e negro) e Sama, contam historias inacreditaveis onde predomina o exagero, sendo o principal defeito d'esta litteratura a ausencia completa de chronologia, o que, só por si, a torna, quasi, inutil.

Na China poder-se-iam encontrar os primeiros livros de historia entre os que produziu a escola confucionista, por exemplo o Tchun-Tsieou (Estio e outomno) que, segundo a chronologia cerica, sempre phantastica, foi escripto entre o vi e o v seculos, antes de Christo, e o Chou-King, talvez, anterior, mas a antiguidade da civi

lisação da China é contestada, por tal fórma, que nem já se lhe concede a invenção do vidro, que, segundo modernos estudos, foi introduzido no celeste imperio 400 annos depois de Christo, da polvora e da artilheria que lá foram introduzidas pelos europeus, depois da invasão mongolica; mesmo as sciencias astronomicas, parece terem sido levadas para a China pelos arabes. Não é, pois, na China, na India, na Persia, nem entre os hebreus, n'uma palavra, não é na Asia nem no Egypto que se encontra o genero historico.

Após as civilisações do norte da Africa e do levante, surge a Grecia e, como outr'ora nos campos de Illion, o poder oriental, concentrado no exercito de Xerxes, vem rojar-se-lhe aos pés, entregando-lhe o sceptro da realeza de todo o mundo conhecido.

O grego foi o creador da verdadeira arte, apesar de centenares de mythos e de tradições, de baixos relevos e de estatuas revelarem herança de Este, em nada fica prejudicado o valor dos gregos, que souberam dar ás supremas manifestações do seu espirito privilegiado um cunho individual, seductor como as planicies que habitavam, cortadas de estreitos rios, pequenos montes e amenos valles a cada um dos quaes prendiam famosas lendas, que trinta seculos de revoluções espantosas não poderam esquecer e, muito menos, imitar.

Ao lado do theatro e da philosophia creou-se, na Grecia, a Historia; tibia, ainda, com os logographos, foi, depois, altamente comprehendida por Herodoto, Thucydides e Xenophonte.

Ainda que os effeitos da arte fossem attendidos pelos logographos, a despeito da investigação, que daria a verdade scientifica, estes primeiros historiadores gregos formam a vanguarda nos estudos d'esta natureza. No seculo v, antes de Christo, a epopêa homerica attingíra a ultima redacção e as façanhas de Achilles, Agamemnon, Diomedes e Ulysses, escutavam-se por toda a Grecia, quer fossem recitadas pelos aédos, quer fossem can

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