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da Bretanha, são um dos primeiros estudos quando trabalhava com Merson em Paris e que definem a sua carreira. Ha ahi qualquer coisa da eschola de pintura seiscentista da Flandres. As preoccupações de detalhe na reproducção do interior da habitação que documentam a vida intima da gente, acompanhadas da veracidade com que estão tratadas as pessoas, naturalmente dispersas e gozando dos prazeres d'uma desalteração veranil, não são só inspiradas n'essas bellas composições de Tenniers, como marcam o inicio d'uma serie grande de quadros, muitos dos quaes se acham dispersos por mãos amigas do pintor e que formam com outros, existentes em casa de seu cunhado o Snr. Doutor Vicente Machado de Faria e Maia com quem Duarte Maia habita uma apreciavel collecção.

O moleiro Panella das Furnas, sentado dentro do seu moinho, vendo-se perto da armação das mós, n'um ambiente escuro, apenas illuminado pela luz d'uma fresta invisivel, aberta na parede d'um dos lados, é outro estudo d'interior rustico que merece um lugar selecto entre os trabalhos d'historia documental da nossa ethnographia.

Domingos Rebello, n'esses estudos que comprehendem a exposição que fez em sua casa antes de partir para o Brazil, deu expansão a muitas scenas de costumes populares michaelenses e n'esses quadros está reproduzida a vida religiosa das nossas aldeias e mesmo da cidade; o seu caracter impressionista afastava-nos, comtudo, da escliola realista de Duarte Maia cujos quadros nos merecem mais valor intrinseco debaixo do ponto de vista documental. Domingos Rebello tem egualmente uma larga lista de retratos e de scenas rusticas e paizagens, mas os trabalhos de Duarte Maia são mais authenticos e estudados no detalhe.

Ha na atmosphera insular um phenomeno d'humidade que quem nunca o viu nos campos da Ilha só poderá ter uma ideia no quadro de Duarte Maia representando o «pastor da aguilhada». Esse phenomeno dá-se em dias de calor após intensas chuvas. O reaquecimento da superficie do solo estabelece uma evaporação constante e regular e uma endosmose entre as camadas formadas pelas nuvens frias do ceu e as humidades quentes da terra; e uma onda de nevoa eleva-se muito azulada, muito tenue na atmosphera, cobrindo como um veu diaphano a visão da paizagem. E' essa emanação humida que se vê maravilhosamente verdadeira no quadro a que me referi e que se pode considerar uma obra prima. O fundo d'esse quadro representa as montanhas nas Furnas, muito indistinctas e muito tremulamente detalhadas nos realces e nos combiantes das côres verdes da gamma vegetativa, n'um ambiente, comtudo, bem illuminado e bem claro, sobresahindo no primeiro plano a magistral figura do camponez e a neblina que se levanta lentamente, que mais parece um veu quêdo que uma massa em movimento.

Os retratos de José da Camara Mello Cabral, do Visconde das Laranjeiras, o de Rodrigo Rodrigues e o meu são trabalhos da mais conscienciosa technica e da maior probidade; o estudo dos trajos, da compleição, da pose, da expressão e mesmo dos sentimentos que animam os retratados é perfeito. De volta á Ilha, no verão de 1897, o nosso amigo, depois de fixar definitivamente domicilio na casa de seu cunhado o Doutor Vicente Machado de Faria e Maia, só sae para o extrangeiro ou para Lisboa em curtas vizitas.

Desloca-se na Ilha ou para o concelho da Povoação, onde seu cunhado exerce as funcções de Juiz de Direito da Comarca, ou para a Ribeira Grande ou para Villa Franca, acompanhando-o sempre e a sua irmã; e por ahi deixa traços da sua passagem em varios pequenos quadros d'assumptos locaes ou reproduzindo typos de camponezes. Um d'esses quadros, que sahe fóra do programma da collecção dos estudos de costumes para a fixação de documentos luistoricos, é o quadro do interior e altar de St.° André da Ribeira Grande, que é hoje propriedade do Dr. Luiz Bernardo Leite Athayde. Ha n'esta offerta quasi que a declaração que motivou a escolha do assumpto para quadro do interior de St. André da Ribeira Grande. O Dr. Luiz Bernardo, que allia aos dotes de pintor eximio os de critico e

historiador d'arte michaelense, fez a sua peregrinação como todos os amadores d'arte teem feito a St. André da Ribeira Grande, uma pequena ermida que a tradição nos diz ser a primeira egreja construida na Ribeira Grande pelos colonizadores, e que, de facto, apresenta no seu interior varias demonstrações da sua vetusticidade, taes como um triptico consagrado a St. André, St. Barbara e St." Catharina, e a arcaria interior que sustenta o tecto e que divide a nave da sacristia do pequeno templo, e a pia d'agua benta; o triptico ainda è um problema solver quanto á sua origem, pois que elle se assemelha a alguns quadros da eschola dos primitivos flamengos - Henrique Bles no seu ultimo periodo preoccupando-se com o naturalismo (1530-1550); a arcaria é no puro estylo gothico simples, como é a pia. D'essa peregrinação do Dr. Luiz Bernardo resultou conversa sobre o St.° André triptico e sobre a data da construcção do primitivo edificio da ermida e d'ahi a offerta que representa uma excepção d'as sumpto na pintura de Duarte Maia.

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Matta no Cabonco

O quadro é todo envolvido de luz e sombras, e na meia obscuridade do fundo da capella, sobre o altar, sem ornamentos nem decorações, divisa-se o sublime triptico do seculo XVI por entre a arcaria meia illuminada pela luz que entra por detraz, pela porta grande da capella e pela pequena entrada da sacristia.

Um dia que conversava com o meu amigo Maia em sua casa, fiz algumas observações a um quadro do Dr. Luiz Bernardo que se achava na minha frente representando um canto da sua propria sala. Foi uma offerta retribuitiva disse-me Maia, ao interior

de St. André da Ribeira Grande que lhe dei. E era interessante o contraste entre as differentes telas d'um colorista que é o pintor de St. André da Ribeira Grande e quelle quadrosinho de pequenas dimensões de cores vivas, mas de technica bem. differente, d'um impressionismo marcante.

Na collecção dos seus quadros, que é grande, ha muitos estudos incompletos, algumas recordações de recantos apreciados de paizagem insular, retratos d'amigos, typos decamponezes, interiores d'habitações rusticas, reproducções d'officios industriaes e a variedade do colorido, de procura de luz, de motivo, não é menos notavel do que a correcção do desenho, o cuidado da verdade do assumpto ou da pessoa retratada, a belleza da escolha na natureza.

Aqui vê-se a figura d'uma camponeza: beiços grossos, olhos baixos, tez mo.. rena; é o verdadeiro typo da nossa rapariga do campo, um pouco acanhada, triste, pensamentos que se prendem a algum namorado com quem ella irá brevemente realisar o seu enlace matrimonial desejado; ha qualquer coisa de mystico na sua attitude, o seu olhar amortecido indica uma resolução natural, muito premeditada e naturalmente amadurecida em pensamentos repetidos e transformados n'um mesmo sentido. Mais alem, illuminada pela luz intensa d'um dia de verão, resalta d'uma larga moldura doirada uma cara risonha d'um velho dos seus 70 annos, barba branca cahida em caixo, olhar scintillante, chapeu de palha d'abas largas cobrindo-lhe a fronte; não é difficil de se perceber que se trata d'um modesto proprietario rural que satisfaz completamente a sua felicidade, n'um trabalho probo d'agricultura, conscienciosamente executado em bases d'economia positiva; o seu olhar franco, a sua expressão animada inspiram sympathia e amizade é uma cara amiga. N'um ambiente escuro, esverdeado pelo reflexo dos materiaes que se notam

pelo chão, sobre bancos e em prateleiras, está um homem em mangas de camisa com uma jarra em barro crú, dando ao pé a um pedal que commanda por uma correia um volante de madeira, ao qual elle vae applicar a jarra; uma janella deita luz sobre o apparelho e illumina mal o recinto; é uma ollaria de Villa Franca que reproduz o quadro, ainda por envernizar e emmoldurar e que o auctor me mostra como dos ultimos a que deu execução

Outra curiosidade que se me depára é uma casinhola de pedra por entre ramada de pinheiros e trepadeiras, com a sua porta pintada de vermelho, de taboas mal ajustadas, carcomidas pela humidade junto ao degrau; ao lado, na parede, construida de pedra solta, vê-se uma argola de ferro, unica coisa significativa n'aquelle decoro enigmatico; é o exterior d'um estabulo de burro no Cabouco n'uma propriedade de familia onde o pintor vae passar alguns dias no verão. N'essa mesma propriedade existem duas camphoras frondosas (laurus-camphora) de mais de dois seculos d'existencia, dispostas como duas sentinellas, uma ao pé da outra; ao lado d'esses grossos troncos pelo relvado do matto sombrio, d'um verde escuro e baço, florescem amaryllis bellas-donas, d'um côr de rosa palido; são duas arvores d'estimação, duas curiosidades botanicas, e um bello trecho de matta, muito colorido, muito decorativo que formam outro assumpto do quadro. Sobre a serra na Achada das Furnas, ha occasiões em que o sol, por entre umas abertas de nevoeiro movediço, banha de uma luz azulada, coada pelas varias camadas de nuvens sobrepostas, a atmosphera das chapadas dos montes; ha uma variedade de cores que se misturam n'essas occasiões por sobre as rugosidades do terreno e que vão do branco ao preto por entre verdes, castanhos e todos os coloridos das floresinhas que por alli existem; esses effeitos de paizagem provenientes de nevoas azuladas acamadas sobre um immenso trato de terrenos incultos, onde só vegeta a queiró, a herva e algum pequeno cedro rasteiro, estão admiravelmente tratados pelo pintor n'um quadro que foi exposto em 1916 na exposição da Eschola Industrial na rua do Castilho e que eu tornei a admirar em sua casa.

Essa exposição que era a quarta de bellas artes, organisada por uma commissão d'artistas, sob a presidencia do Director da Eschola Industrial, o Snr. Arthur Viçoso May, tambem era uma demonstração da actividade e do gosto que dedica á pintura Duarte Maia, que era um dos seus membros com Ernesto do Canto, o habil amador das estatuetas humoristicas, Domingos Rebeilo e Francisco Alvares Cabral.

As exposições de pintura teem uma maravilhosa influencia no espirito dos artistas, amoldando-lhes as tendencias, corrigindo-lhes o golpe de vista e o senso artistico, adaptando-os ás feições pessoaes dos expositores. Olhar para os retabulos antigos das egrejas, ver as obras d'arte conhecidas dos pintores ou dos esculptores celebres, não completa a educação de quem cultiva as bellas artes; é preciso retemperar o caracter nas obras dos rivaes e luctar com elles para a supremacia.

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Rapariga de chaile

Esse grupo organizador das exposições de Ponta Delgada soube vencer as difficuldades que se impunham para a realisação periodica d'esses certamens e levou a cabo a empreza com inexcedivel exito. Duarte Maia não foi dos menos activos e cabe-lhe uma boa parte dos esforços empregados; e como expositor lá

tinha o seu lugar marcado com os seus trabalhos primorosos em forma, luz, realidade e colorido.

O verde da paizagem insular é bastante sombrio; as lavas das erupções vulcanicasdos seculos XV, XVI e XVII, o verde glauco da queiró, a falta de cal nos terrenos, as grotas e as rochas, são a causa d'esse colorido que, para muita gente, é d'apparencia triste; as telas de Jacintho Gago Machado de Faria e Maia, os quadros de Luiz Bernardo Leite Athayde são documentos bellissimos, onde se reflectem a sentimentalidade silenciosa e a harmonia profundamente sombria d'essa paizagem ; Duarte Maia procura a luz onde ella existe, porque ella apparece na vizinhança dos trigaes, das estufas d'ananazes, nas serras cobertas de nevoa quando o sol rompe por entre as brumas; e, sobretudo, e ahi está a sua especialidade, reproduz a alma popular nos seus costumes laboriosos, estuda os typos physicos, vae á personalidade nascente das individualidades e offerece-nos uma variedade d'estudos que são a natureza, a vida, a sociedade michaelense reproduzida aos pedaços por mão de mestre e por um temperamento superiormente dotado.

A lista das series dos quadros é grande, e seria assumpto para novo artigo estar 2 historiar e a criticar os varios outros quadros que estão em sua casa e por casa d'amigos. Já me referi aos indispensaveis para marcar os caracteristicos e os cuidados que a pintura merece ao pintor, assim como os necessarios para classificar a arte do auctor d'elles, quer debaixo do ponto de vista technico, quer sob as disposições de espirito e de gosto que formam o temperamento artistico de Duarte Maia.

Quem o vir jogar o xadrez no Club Michaelense, á noite, terá uma demonstração do caracter do pintor, porque elle desdobra a sua personalidade ao jogo como a desdobra no homem mundano; classico, tradicionalista, meticuloso, probo. Tendo estudado os mestres do xadrez, c seu jogo desenvolve-se nas aberturas classicas, depois miudamente defendido, antecipando ataques, vae preparando a avançada das suas peças e a victoria; assim é a pintura filiada n'esses mestres naturalistas da eschola hollandeza e flamenga: classico na representação das coisas, pessoal no estudo do detalhe com o qual elle deu aos assumptos michaelenses as particularidades caracteristicas insulares.

A. J. C.

MEMORIAS
DA

FREGUEZIA DE NOSSA SENHORA DOS PRAZERES

DO

Logar do Pico da Pedra, colligidas de documentos e tradições pelo Vigario da mesma Freguezia Antonio Furtado de Mendonça, no anno de 1913

Assistencia do culto e clero, sua fundação no Pico da Pedra

Um dos factos mais notaveis da historia da egreja em Portugal foi, sem duvida, o produzido pela mudança de regimen e estabelecimento da Republica.

Com a recusa das pensões facultadas ao clero pelo novo governo, e com as quaes se pretendia subornar-lhe a consciencia, e com o fim de accelerar o aniquilamento da egreja no nosso paiz, unico alvo de todas as leis oppressoras, condensadas no famoso decreto da Separação, obra suja de um audacioso inimigo da egreja, tornou-se mister o estabelecimento da assistencia do culto e clero em todo o paiz.

Na diocese dos Açores, se por um lado havia a favor d'esta instituição a fé dos povos d'este archipelago, incomparavelmente mais fervorosa do que a do povo do continente portuguez, por outro havia contra ella a falta de costume nos povos em contribuir para a sustentação do clero, visto que esta diocese, pertencendo sempre ao mestrado de Christo, fôra sempre sustentada em seus encargos pelo respectivo padroado.

Os bons costumes que haviam vigorado em tempo de contribuir para a sustentação do clero, por meio de benesses e differentes offertas com que se completavam as congruas parochiaes, foram em S. Miguel de todo abrogados por um Decreto civil datado de 17 de Maio de 1832, assignado em Ponta Delgada pelo Sr. D. Pedro IV, primeiro precursor do Dr. Affonso Costa, auctor da lei da Separação.

E porque é pouco conhecido esse documento, aqui se transcreve o que n'elle se legislou relativamente ao assumpto de que se trata.

Art. 10 Cessam os ordenados pagos até agora pelo thesouro publico aos ouvidores ecclesiasticos.

Art. 11-Ficam prohibidas todas as offertas, emolumentos ou benesses que se costumam levar por occasicão da administração dos sacramentos do baptismo, penitencia ou matrimonio, ou estes pertençam aos parochos e mais empregados ecclesiasticos ou ás fabricas das egrejas; não se poderá, por isso, exigir de ora avante quantia alguma, nem a titulo de assignatura ou publicação dos proclamas, nem a titulo da luz que se accende para a administração do baptismo, a qual será fornecida gratuitamente pela fabrica da egreja.

Art. 12-Ficam supprimidos os pagamentos das luctuosas, das offertas e do signal funerario, quando dos parochos e thesoureiros se exigir sómente a encommendação e acompanhamento do freguez defuncto.

Esta carta de alforria concedida peio idolo dos liberaes a todos os catholicos portuguezes, que ficariam a servir-se dos seus parochos como de servos de gleba, fsem outra retribuição mais do que a facultada pelo estado, que outro idolo (Afonso Costa) se encarregaria de supprimir, só na Ilha de S. Miguel teve inteiro vigor.

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