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Acompanhavam o Ex. Prelado os Srs. conego João Pereira Damaso, Prior da Matriz de Ponta Delgada e José Pacheco Muniz de Bettencourt secretario particular de S. Ex, Rev,ma,

Visita pastoral

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No dia nove de Agosto de 1917, ás 9 horas da manhã, chegou á residencia do parocho do Pico da Pedra, vindo das Calhetas, onde descançára na noite antecedente, o Sr. Bispo d'esta Diocese D. Manuel Damasceno da Costa, acompanhado do seu secretario particular Dr. José Pacheco Muniz de Bettencourt, do Parocho das Calhetas e do P. Manuel Muniz Machado que d'aqui fôra expressamente buscar S. Ex. Rev.m.

Destinou o illustre Prelado este dia para descançar, allivio de que muito carecia, não só por muito fatigado da jornada pastoral que vinha fazendo de Ponta Delgada, pelo lado occidental d'esta ilha, em que percorreu e visitou todas as freguezias até esta, mas ainda por um incommodo de saude, que estava a soffrer, e de que felizmente se restabeleceu.

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No dia 10, uma sexta-feira pelas 8 horas da manhã deu S. Ex." Rev.TM" entrada solemne na egreja parochial, sahindo da residencia parochial em habitos prelaticios (rochete e murça) acompanhado do parocho, de dois conegos e d'outros ecclesiasticos para tanto convidados, e seguido da banda musical d'esta freguezia.

Entrou pela porta da sacristia onde se revestiu de estola, pluvial e mitra, e tomando lugar debaixo do pallio á porta da mesma sacristia, deu a volta ao adro e entrou pela porta principal na qual era aguardado pelo parocho, effectuando-se alli as cerimonias do ritual dos bispos. Sustinham as varas do pallio seis ecclesiasticos entre os quaes o ouvidor d'esta comarca, e foi constituido o resto do prestito por meninos do côro com a cruz e ciriaes á frente, sem opas nem seculares.

Durante o trajecto do adro e á entrada tocou a Banda o hymno de N. S.2 dos Prazeres, e no proseguimento do prestito pela nave central da egreja foi entoado o cantico da "Magnificat" pelo povo com acompanhamento do orgão.

Depois das orações do estylo foi cantada pelo povo a antiphona "Sub-tuum praedidium, cantando em seguida a oração de N. S. o Ex. Prelado.

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Cantou o parocho depois o «Confiteor-Deo, e foi dada a benção apostolica por S. Ex. Rev.ma

Tomando este assento na sua cadeira, apresentaram-se-lhe duas creanças conduzindo nas mãos duas taças de flores que collocaram a seus pés, e, n'esta occasião leu o parocho uma allocução, em que saudava o seu Bispo, e fazia o elogio das suas virtudes a qual fica tombada n'este mesmo livro, após este registo.

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Seguiu-se a missa do Ex. Prelado em que foi acolythado pelos Ex.mos couegos João Pereira Damaso e José Pacheco Muniz de Bettencourt, no fim da qual ministrou S. Ex. Rev.m a communhão aos numerosos fieis, que para isso se haviam preparado.

Foi ministrado o sagrado chrisma ao meio dia a 308 pessoas, na sua quasi totalidade da freguezia, trabalho que se effectuou em muito boa ordem em volta da egreja.

No mesmo dia, pelas 5 horas da tarde, effectuou-se a procissão dos defunctos ao cemiterio parochial constituindo o prestito que sahiu da egreja parochial, a bandeira das almas á frente entre dois lampeões altos, a cruz grande das endoenças a meio entre dois lampeões da mesma forma, a cruz parochial no fim conduzida com os ciriaes por meninos do côro, o clero e S. Ex." Rev.ma de Pluvial preto, mitra e baculo, seguido da Banda local que tocava uma marcha funebre.

Faziam duas extensas alas na procissão os fieis do sexo masculino sem opas, e seguiam-na as pessoas do sexo feminino, não havendo memoria de uma procissão tão extensa, tão grave e tão commovente, como esta.

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Cantadas as preces proprias no cemiterio, a pedido do Ex. Prelado, subiu a um banco a meio do mesmo que estava cheio de assistentes, o parocho proprio, fazendo uma allocução adequada aos motivos que alli fizeram reunir aquella multidão.

Com o mesmo cerimonial e apparato se fez o regresso para a egreja parochial em que se deu por finda a visita pastoral.

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Notas

Depois da leitura da allocução do Parocho na entrada da egreja parochial, e antes da sua missa, falou o Ex.mo Prelado, agradecendo a todos as manifestações de que acabava de ser alvo.

Depois de ministrado o chrisma procedeu-se ao exame dos altares, baptisterio, alfaias e archivo, mostrando-se satisfeito por tudo o Ex.mo Prelado.

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Quando do regresso da procissão de defunctos chegou o Ex. Prelado á egreja parochial, fallou ainda ao povo, significando a sua immensa satisfação pelo modo por que tudo se effectuára.

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No sabbado, 11, ás 8 da manhã seguiu o Ex. Prelado para Rabo de Peixe acompanhando-o o seu secretario e o parocho d'esta freguezia.

Allocução pronunciada pelo parocho do Pico da Pedra na recepção do seu Bispo a 10 d'Agosto de 1917

Ex.mo e Rev.

e Rev.1o Snr.

E' V. Ex. Rev.ma o terceiro Prelado sagrado d'esta Diocese, que visita officialmente esta egreja, desde a sua fundação ha cento e dez annos.

Na minha já longa parochiação de 29 annos n'esta, freguezia, coube-me a honra de receber, com esta, duas d'essas visitas.

Dou graças a Deus e a sua mãe 'santissima, Nossa Senhora dos Prazeres, minha excelsa padroeira, pelo prazer que me concedeu e a todos os meus parochianos, de ver sentado n'essa cadeira um Bispo, que, na modestia do seu viver e no ardor do seu zelo é um retrato vivo e animado dos antigos prelados, cujos traços biographicos pareciam apenas do dominio da historia.

V. Ex. sem o pensar e apenas em obediencia aos estimulos da consciencia, tem feito reviver no seu episcopado as virtudes, que foram o timbre dos maiores evangelisadores christãos.

No coração apostolico de V. Ex. não ha apenas a notar as fibras de um fervoroso christão.

Na sua actividade incançavel revela-se V. Ex. um fiel continuador da grande obra missionaria, que nós, os portuguezes, iniciamos no mundo, atravessando mares nunca d'antes navegados, descobrindo novas terras e affrontando novos perigos.

V. Ex. com o seu zelo e actividade é uma affirmação consoladora das energias de uma raça, que por mais que a julguem decahida, sempre que se lhe offerece occasião, tem vida e força para exemplificar os maiores heroismos.

Não é pequeno aquele que V. Ex. vem desempenhando entre nós.

N'uma diocese tão vasta como esta, não limita V. Ex. a sua operosidade apenas aos serviços burocraticos da sua secretaria, nem aos labores diplomaticos da sua alta posição social.

V. Ex. é o bispo missionario que percorre este vasto archipelago, na ancia de ver e conhecer de perto o seu numeroso rebanho para o illustrar com a sua doutrina e santificar com as graças de que Deus o fez dispenseiro.

Bemdigo a Divina Providencia, porque no ultimo periodo da minha vida,

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em que tantas desillusões tem vindo tomar o logar das melhores e mais carinhosas esperanças, me permittiu ver na nossa diocese um Bispo, que em tudo e por tudo faz lembrar essa figura portuguezissima de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, o santo Arcebispo de Braga, o modelo mais completo de actividade e abnegação apostolica, que faz o orgulho da nossa historia de povo christão e evangelisador.

Honrando-nos V. Ex. com a sua visita hoje, é meu dever aliás bastante agradavel, apresentar-lhe n'esta hora, com os meus maiores agradecimentos, o meu mais rendido respeito e acatamento á sua alta dignidade de Principe da Egreja e de Grande de Portugal, porque o é como bispo portuguez.

Na presença de V. Ex. e, n'esta hora solemne, renovo os meus votos de obediencia á sua elevada auctoridade, sentindo apenas que a edade em que entrei, já me não permitta gosar por muito tempo o seu amistoso governo.

D'essas duas creanças receba V. Ex." as flores que veem depositar a seus pés. E' o singello mas significativo reconhecimento da infancia d'esta terra, pelo desvelo do seu pastor na catechisação infantil do seu rebanho.

N'outros logares tem V. Ex." recebido sobre a cabeça e a sua mitra as flores do respeitoso e fervoroso enthusiasmo com que o tem acolhido o catholico e piedoso povo d'esta ilha.

Aqui, depois de uma longa jornada, prefiro honrar os pés de V. Ex.a, como fiel imitador que é, dos mais activos e ardentes peoneiros da evangelisação christä.

Merecem bem um tapete feito das mais mimosas flores, os pés que se não cançam de percorrer a estrada do dever.

Desculpe e perdoe V. Ex.a a simplicidade campesina com que o recebemos. Podemos assegurar a V. Ex. que a um Santo não receberiamos d'outro modo.

E, terminando, sirva-se V. Ex." abençoar este seu humilde cooperador e o pequeno rebanho que lhe tem confiado, demorando a sua visita entre nós, porque, só assim, mostrará que comprehendeu devéras o bem que todos lhe que

remos.

E tenho dito.

Epidemia

Um facto notavel e de bem tristes effeitos assignalou o anno de 1918 para o mundo inteiro.

As alegrias da paz com o termo de uma guerra terrivel que durou 4 annos foram ensombrados pelas angustias e pelo lucto, produzidos por uma epidemia que invadiu o mundo inteiro, cuja prophylaxia era inteiramente desconhecida.

Coube a sorte á ilha de San Miguel de participar d'este flagello, que primeiro se manifestou em Ponta Delgada, onde fora trazida pela tripulação de um navio japonez, ao qual fôra dada livre pratica.

D'alli irradiou para os restantes povoados d'esta ilha, sendo os que mais sentiram os seus terriveis effeitos a Villa da Lagoa e a freguezia de Rabo de Peixe não tanto pela sua numerosa população como por serem logares onde predomina a classse maritima que á falta de limpeza e asseio e dos mais rudimentares confortos allia os actos nocivos do alcoolismo.

Na Ribeira Quente verificou-se o mesmo por identico motivo.

No Pico da Pedra em que não predominam taes causas, sentiu-se comtudo um largo effeito da epidemia que, durando com maior intensidade 3 semanas, produziu ao todo 28 obitos, devendo comtudo notar-se, que o registo annual d'estes, não excedeu o dos nascimentos, como succedeu n'outros logares, onde essa differença foi bastante sensivel.

E quando a epidemia victimava de preferencia os novos por toda a parte, succedeu que aqui só falleceram quatro n'essas circumstancias, sendo as mais pes

soas já edosas e com antigos achaques pulmonares e bronchiticos, que facilitaram o accesso contagioso e os seus mortiferos effeitos.

Houve a notar como circumstancia de maior difficuldade para o devido tratamento o facto de cahirem de cama familias inteiras ficando desprovidas de quem as pudesse tratar.

A caridade fez então prodigios e suppriu com vantagem a assistencia official, que aqui se não chegou a estabelecer.

Dos que conseguiram escapar ao terrivel contagio, ou que puderam curar-se d'elle mais cedo, ou foram d'elle mais levemente attingidos, não faltaram pessoas de um e outro sexo que se prestaram a fazer o serviço de enfermagem nas casas da sua vizinhança, havendo mulheres que em sua casa e sem mais imposições do que as da caridade, coseram pão para 4, 5 e 6 casas.

A assistencia medica feita pelo Dr. Virginio Cabral de Lima, que fixou residencia em Rabo de Peixe e tinha de attender áquella freguezia, a esta e á das Calhetas, foi regulada por modo a não faltar apenas nos casos graves, percorrendo em todos os dias o parocho d'esta freguezia todos as casas onde a epidemia penetrára, fazendo diariamente registo dos casos mais graves em um boletim que na sua residencia aguardava o medico, sendo em media 6 as casas que o mesmo tinha de visitar.

Para o serviço que ao Parocho coube n'esta afanosa tarefa facultou em alguns dias o Regedor Caetano Moniz Taveira o seu char-à-bancs, e porque este trabalho de vistoriação absorvia o mais do tempo fazia o parocho apenas a encommendação dos cadaveres e estes eram levados sem mais cerimonias religiosas ao cemiterio, não havendo to ques de sinos.

Da assistencia official foram gastos n'esta freguezia apenas cem mi reis, e uma barrica de petroleo, sendo esta freguezia de todas as d'este concelho a que menos dispendeu por conta d'aquella instituição..

Tem o nome de grippe pneumonica a epidemia, que se suppõe fazer 2 mil victimas n'esta ilha, é havendo começado a manifestar-se com maior força n'esta freguezia nos primeiros de novembro, no principio do mez seguinte dava por finda a sua horrivel tarefa, que tantas lagrimas fez derramar e tantos trabalhos 'e sustos causou.

Escola official do sexo masculino

Com a pretenção da reforma officialmente solicitada pela Snr. D. Maria de Nazareth Tavares Muniz, professora da escola do sexo masculino do Pico da Pedra, foi esta Snr. substituida interinamente na sua cadeira por Manuel Alvaro de Mattos, de Villa Franca, de Maio a Julho de 1912; depois d'este por D. Maria dos Anjos Pereira, da Maia, de Julho de 1913 a Julho de 1914; depois d'esta por Manuel Cordeiro, de Rabo de Peixe, desde 2 de novembro de 1914 até 21 d'Abril de 1915; depois d'este por D. Maria da Gloria Lima, de Villa Franca, desde 17 de Maio de 1915 até 29 d'Abril de 1916; depois d'esta por D. Luzia Armanda de Medeiros, da Povoação, desde 10 de Maio de 1916 até 31 de Janeiro de 1919; depois d'esta por Urbano Telles Ferreira, de Villa Franca, desde 5 de Maio de 1919 até ao fim de Julho do mesmo anno.

Havendo desistido do seu pedido de reforma a Snr. D. Maria de Nazareth Tavares Muniz, voltou esta Snr. a occupar a sua cadeira recomeçando o seu ensino a 3 de Dezembro de 1919.

-IIM-

D. Mariana Belmira d'Andrade

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1844-1921

No dia 17 de fevereiro do presente anno, falleceu, na villa das Velas, esta distincta mulher de lettras, que foi uma das boas mentalidades do archipelago açoreano, bem privilegiado, aliás, sob o ponto de vista da intellectualidade dos seus habitantes.

A senhora D. Mariana Belmira d'Andrade nasceu na pequena ilha de S. Jorge no ultimo dia do anno de 1844.

Foram seus paes Manuel José d'Andrade, commerciante, e D. Maria Severina d'Andrade.

Os avós paternos de D. Mariana Belmira eram michaelenses, e naturaes dos Fenaes da Luz. Chamavam-se José Antonio da Ponte e Genoveva de Jesus.

Foram seus avós maternos Amaro José d'Avellar e Victorina Claudia, elle pertencente a uma familia numerosamente representada nos Açores e no continent da Republica.

A esta pertenciam tambem os drs. Avellares, distinctos medicos, que durante muitos annos exerceram clinica em Ponta Delgada, e pertence o Dr. Aprigio d'Avellar, existente n'esta cidade, onde foi um dos ornamentos do fôro michaelense durante o periodo activo da sua longa vida.

Na villa das Velas passou D. Mariana Belmira quasi toda a sua existencia.

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Vista panoramica das Velas

Dotára-a a natureza de intelligencia excepcional. Não tendo cursado qualquer estabelecimento de instrucção secundaria, especial ou superior, reduzida ao convivio da familia (1) e de poucas pessoas intimas, adquiriu grande bagagem litteraria, e aprendeu quasi sósinha a tocar piano e a ler e traduzir a lingua

franceza, que comprehendia correntemente, sem que, todavia, a pronunciasse com correcção.

A mocidade da poetisa deveu ter decorrido n'uma apparente inercia; mas consagrada, no remanso do seu pequeno gabinete, á acquisição da opulenta bagagem litteraria de que o seu poemeto philosophico, A Sibylla, constitue o melhor diploma.

Foi n'essa epoca que conviveu com uma senhora, dotada de bons conhecimentos, a qual residiu alguns annos nas Velas, na qualidade de preceptora dos filhos do opulento proprietario da ilha de San Jorge, o Conselheiro José Pereira da Silveira e Cunha, cuja virtuosa esposa, D. Brites, foi uma grande amiga da escriptora.

(1) A familia Andrade da ilha de San Jorge é, geralmente falando, intelligente e sabedora. Um ir mão da poetisa, o sr. Manuel de Andrade, advogado, escreve com notavel facilidade. Um filho d'este, Camilio, cursou aqui o Collegio Açoriano com muito aproveitamento e exerceu o cargo de secretario da Camara das Velas, tendo fallecido muito novo, em julho ultimo, da ruptura de um aneurisma. Devia o nome á grande admiração que o seu progenitor consagrava á obra litteraria de Camillo Castello Branco. Ao Sr. Camillo de Andrade devemos alguns dos apontamentos que se encontram n'esta biographia. Outras informações tivemo-las da propria poetisa que por occasião de passar em viagem para Lisboa e de Lisboa para a sua casa, nos deu a honra de ser nossa hospeda.

A. M.

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