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ORGANIZAÇÃO DE MUSEUS EM PONTA DELGADA

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XVI

A attenção que ás questões de arte se vae dedicando por todo o Paiz chegou até nós e tendo ultimamente ouvido algumas opiniões sobre o que se julga conveniente fazer no sentido de os Açôres cuidarem um pouco da sua educação artistica, pensámos dizer o que reputamos mais proveitoso a realizar, não com a presumpção de termos competencia especial no assumpto, mas sómente pelo interesse que sempre por elle tomamos.

Assim, exporemos o nosso modo de ver sobre a forma que se nos afigura mais acertada de proficuamente impulsionarmos essa educação artistica, apresentando planos que, depois de submettidos á critica, poderão, talvez, concorrer um pouco para a consecução do fim proposto.

O problema do nosso progresso artistico só se poderá resolver convenientemente cuidando-se da organização dos museus e assim, partindo d'este ponto que, a nosso vêr, é fundamental, faremos as considerações e apresentaremos os alvitres que julgamos convenientes e em harmonia com as condições particulares do nosso meio.

Arte Geral

Um povo que pretende progredir necessita não só cuidar do seu desenvolvimento moral,intellectual e physico mas ainda da sua educação artistica por forma a poder abranger todo o alto sentido da arte, factor importante do seu aperfeiçoamento que por via das formas puras do Bello ir-lhe-ha revelando a belleza da vida e do mundo em suas variadas modalidades, e em seus infinitos aspectos, avivando-lhe ainda os sentimentos nobres da raça, já como estimulo nos momentos de desalento, já como fonte caudal de justo orgulho nos de maior gloria.

A arte é a documentação plastica da historia da humanidade e assim ella como monumento da tradição ensina a respeitar o passado e conjunctamente reata o fio de antigos esplendores não só trazendo á consciencia dos povos a limpida noção da sua solidariedade, do seu valor e das suas responsabilidades para com as gerações futuras, como ainda mantendo o seu nivel moral á altura em que o tinham aquelles que com raro brilho e arduos sacrificios souberam amar a sua Patria, elevando-a em consideração, enriquecendo-a em poder e ungindo-a n'uma aureola de prestigio.

Nenhum portuguez illustrado poderá defrontar-se com os admiraveis paineis de São Vicente sem que em sua alma sinta um vivo orgulho de descender d'essa raça heroica representada n'aquellas austeras figuras de reis, de religiosos, de pescadores e de cavalleiros, e assim é, porque nas velhas tabuas e expressa n'uma das melhores linguagens picturaes está uma das mais brilhantes paginas da nossa historia, quando as raras faculdades do povo portuguez expandiam na sua maior pujança e quando o culto pelos mais puros sentimentos patrioticos attingiam a mais notavel elevação.

A arte é um poderosissimo factor de civilização porque ensina os homens a amar e a comprehender a vida, considerada ella como um momento apenas da continuidade historica da raça a que pertencem: o thema pois que ella nos expõe é complexo e o seu fim do mais alto valor social.

São estas, a nosso vêr, as consequencias da sua acção, da realização dos seus verdadeiros ideaes e da exteriorização da sua essencia que bem se pode synthetizar n'um infinito anceio de perfectibilidade: e como essa perfectibilidade não perten

ce aos homens mas sim á harmonia geral da natureza como labor supremo, saídory das mãos de Deus, a boa e verdadeira arte na sua trajectoria infinita, animada pela eterna aspiração de conquistar estádios de crescente pureza acompanhará o modelo Mãe, tentando comprehender o que elle exprime do seu divino sentimento.

Assim Deus dotou os homens com esse maravilhoso dom a que chamamos intuição artistica para, por meio d'ella, poderem desvendar um pouco do que de maravilhoso ha do seu espirito expresso na natureza-a projecção da obra divina -coino já alguem disse: e como ella é a suprema Belleza, a suprema intelligencia e a suprema Moral os homens por meio da arte procuram, integrar-se n'essa admiravel triologia, n'esse deslumbramento que é a vida universal, tentando balbuciar a linguagem a um tempo encantadora é enigmatica dos seus mysterios.

O pensamento divino pretendeu tornar-se perceptivel, materializando-se e as-f sim o sentimento artistico, vibração subtil que diviniza um pouco o homem, foi o meio de interpretação d'esse pensamento, e assim elle será ascensionalmente mais puro á medida que nos fôr offerecendo interpretações mais perfeitas.

A arte, pois, será tanto mais elevada quanto mais integralmente conseguir preparar a alma humana, para que, por si possa apprehender o assombro de Belleza, o rythmo de harmonia,o equilibrio de forças e a profundeza de intelligencia nas quaes se funda toda a natureza, vivendo inalteravelmente sujeita aos dictames de leis inflexiveis e deslizando no rolamento lento e methodico da sua evolução.

Deus é o supremo artista; a sua abra é o supremo modelo a seguir e a interpretar.

Miguel Angelo dizia: "a boa pintura é nobre e devota por si propria, porque, «entre os sabios, nada eleva mais a alma do que à difficuldade da perfeição que se "approxima de Deus e que com elle se funde; ora, a boa pintura não é senão uma "copia das suas perfeições, uma sombra do seu pincel, uma musica enfim, uma *melodia e só uma intelligencia muito viva poderá sentir a grande difficuldade, eis *porque ella é tão rara e porque poucos a podem attingir e sabem produzir.»

N'estas palavras exprime o maior artista de todos os tempos a sua impressão sentida sobre o que seja a verdadeira arte, a qual jámais se poderá divorciar da idéa de Deus, symbolo supremo da perfeição ideal, cuja obra vemos erguida em admiraval laboração banhada em luz que nos deslumbra ao ser encarada em conjuncto pela nossa intelligencia e pelo nosso sentimento dentro do acanha do ambito das faculdades sensórias e do limitado poder das intellectivas com as quaes foi dotado o homem e ao ser abrangida na complexidade das suas forças, no equilibrio da sua acção e na cadencia inalteravel dos seus pendulos.

E' precisamente esse movimento, essa vibração constante da materia que constituem a essencia da arte dando-lhe feição divina e assim espiritualizam-se e elevam-se em beleza moral os que cultivam e sentem a arte pairando n'aquella's regiões em que só se aspira á perfeição que se approxima de Deus e que com elle se funde, da qual nos falou o grande artista italiano.

A intelligencia foi concedida ao homem para que pudesse tentar desvendar o enigma da suprema sciencia e a par d'ella foi-lhe concedido tambem o sentimento artistico, para que conhecesse a belleza das manifestações d'essa sciencia, e assim o sábio e o artista egualmente ascendem em perfectibilidade á fonte originaria ao sentirém brilhar em seus espiritos a centêlha do atomo desaggregado do poder creador.

Todo o esforço humano tendente á conquista da Verdade nada mais é senão o culto do Bello e este a aproximação de Deus. A arte, pois, assim encarada é uma das formas mais nobreş da actividade humana, já pela sua essencia, já pelas suas consequencias na civilização dos povos.

«E' unicamente pela arte-escreveu Ramalho Ortigão-inherente á natureza "humana progressiva e eterna que hoje em dia os homens se associam no destino "e na solidariedade da especie» indo Peladan mais longe ao accrescentar que a "maior de todas as garantias que o cidadão pode dar de collaborar na vida com

<mum de ordem e de discipliha sociaes, reside não só no respeito que manifesta «pelo passado, como no prazer puro e quasi sagrado que experimenta ao vêr uma "obra de arte.»

A arte, pois, já está muito afastada d'aquelle tempo em que era considerada apenas como mero recreio para os sentidos e util passatempo para o espirito, sendo hoje comprehendida como um dos mais importantes factores de progresso social. Longe vae já essa phase rudimentar, estreita e egoista em que a arte não passava de mero privilegio das classes ricas que em seus palacios armazenavam as mais puras e preciosas manifestações artisticas,

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A arte é hoje patrimonio commum que se patenteia e pertence a todas as classes; os museus já não são aquelles templos fabulosos da antiguidade onde as musas presidiam ás artes liberaes, nem tão pouco essas necropoles de raridades avára ou snobemente guardadas nos solares da nobreza, os museus são hoje os palacios sumptuosos do povo prodigalizando egualmente a toda a hierarchia social o conforto moral resultante da sua immensa e erudita licção de cultura do Bello ministrada gratuitamente.

E assim na organização dos museus está o signal certo da civilização dos povos e no seu desenvolvimento um dos mais seguros meios de aquilatar o seu grau de civilização. Esta orientação democratica marcada pelos legisladores da Convenção foi seguida por toda a parte e depois especializada,diffundida e disseminada passando-se dos grandes museus nacionaes aos provinciaes e regionaes e até aos constituidos pelas obras de uma unica escola ou de um só artista.

Em Portugal nós encontramos já hoje a par dos grandes museus nacionais como os de arte antiga e moderna de Lisboa, os provinciaes como o de Machado de Castro, em Coimbra, e outros mais, acompanhando assim o nosso Paiz o que por todas as nações cultas se tem feito n'este sentido.

Nas provincias, nos pontos afastados da metropole e dos grandes centros, começam a surgir os pequenos museus regionaes aos quaes compete desempenhar um papel importantissimo por isso que vão levar as luzes do ensinamento artistico a regiões onde elle jámais poderá ser exercido por meio diverso.

Se, porém, attendermos aos Açores, reconheceremos que, dada a sua situação geographica a outocentas milhas do continente, são elles o ponto do territorio portuguez europeu onde mais necessarios são os museus e foi a comprehensão exacta de preencher essa lacuna que levou a Commissão Administrativa do Museu Municipal de Ponta Delgada a n'elle crear em 1912 uma Secção de Bellas Artes por indicação do Ex.mo Sr. Coronel Francisco Afonso Chaves, como legatario do benemerito Manuel Ignacio Correia.

Na mesma senda de progresso temos nós tambem seguido mas affigura-senos devermos caminhar um pouco mais.

A Secção de Arte do Museu de Ponta Delgada existe pois ha nove andos apresentando por emquanto um numero diminuto de telas, mas seleccionadas, da auctoria dos mais notaveis pintores portuguezes da actualidade: Carlos Reis, Condeixa, Veloso Salgado, Alves Cardoso, Falcão Trigoso, João Vaz, Ezequiel Pereira, Conceição Silva, e outros alli se acham representados.

Este inicio do nosso museu partiu de um nucleo de amadores de Bellas Artes que organizaram Exposições em Ponta Delgada em 1913, 1914 e 1915, ás quaes concorreram artistas michaelenses e continentaes, adquirindo essas commissões organizadoras alguns trabalhos, já com o producto das entradas para esses certamens de arte, já com subsidios votados pela Camara Municipal de Ponta Delgada e Junta Geral do Districto. Outras obras foram tambem ahí adquiridas por amadores de arte e offerecidas ao museu sobresahindo d'entre elles o devotado amigo do museu e illustre titular Sr. Marquez de Jacome Corrêa.

Alem d'estas dadivas outras mais vieram feitas por particulares e mesmo por alguns artistas como Domingos Rebello e Ernesto Condeixa.

Como se vê, o museu tem tido a amparal-o nos seus primeiros e vacillantes passos, o interesse de alguns amigos, interesse valiosissimo, sem duvida, mas que não é sufficiente para que possa ter um progresso seguro, garantindo-lhe uma vida ampla e consequentemente uma missão largamente educativa. Vejamos o que julgamos susceptivel fazer-se a fim de lançar o museu em um mais rapido enriquecimento. Trinta e tantas telas, alguns exemplares de decoração architectonica, e de ceramica, de talha e epigraphia, eis os seus modestos haveres actuaes.

O museu, portanto, embora esteja ainda longe de prestar os serviços que lhe competem, representa, no emtanto, o resultado da conjugação de varios esforços, uma manifestação expressa da vontade commum, um anceio e uma aspiração collectivos que necessitam ser attendidos, amparados e robustecidos. Utopia é sem duvida julgar poder o nosso museu possuir telas de subido preço, ou authenticas obras primas, pela razão de ser pobre o nosso meio. Essas aspirações tem de se restringir ao ambito das nossas forças, ao campo do possivel e assim enveredarmos pelo caminho das realizações praticas.

O museu de Ponta Delgada necessitatornar conhecidos do nosso publico, exemplares typicos que reunam as caracteristicas de uma epocha ou a maneira de um artista, ou, melhor, necessita iniciar a sua missão educativa por forma methodica e proficua. Um exemplar dos primitivos, ou um hespanhol do periodo de ouro da arte nossa vizinha, um flamengo ou um italiano tem de figurar alli, assim como tem o museu de nos dizer tambem que a arte portugueza floresceu outr'óra attingindo apogeus de notavel brilho.

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Entrada para o Museu Municipal

tações de arte, interessando o publico, illustrando-o, despertando-lhe o gosto pela arte nacional cuja existencia é ignorada pela maioria que não dispõe de meios pecuniarios para sahir da Ilha.

Não é esta empreza impossivel de se realizar, pois até a propria legislação a preconiza e patrocina.

A defeza dos interesses artisticos e archeologicos pertence aos conselhos de arte e archeologia que funccionam nas sédes das circumscripções em que se acha dividido o Paiz, uma em Lisboa, outra no Porto e outra em Coimbra.

A esses conselhos que tem attribuições consultivas e deliberativas compete promover junto do governo que lhe sejam facultados todos os elementos necessarios ao cumprimento da sua missão e ao estudo, conservação e enriquecimento das collecções dos museus, assim como organiza: exposições destinadas a estimular e desenvolver a actividade artistica nacional e nas quaes se farão acquisições para os museus, ou que tenham por fim tornar conhecido um artista, uma epocha, um ramo de arte decorativa ou popular.

Está, pois, bem no espirito da legislação vigente a forma proposta de intensificarmos a utilidade do nosso museu, a qual é ainda mais claramente admissivel ao vermos que aos conselhos compete mais proceder á acquisição em exposições publicas ou particulares de obras de arte e peças archeologicas para os museus, escolher aquellas que devem ser expostas, e superintender no tratamento ou reparação dos quadros, esculpturas e quaesquer outros objectos artisticos e archeologicos que façam parte dos museus.

A indicação, pois, da exposição de obras de arte e peças archeologicas encorporadas deve ser extensiva a todos os museus incluindo os municipais.

Assim adoptando-se essa orientação poderia o museu apresentar por exemplo uma boa cópia de Rubens, seguindo-se algumas taboas portuguezas do seculo XVI, depois uma cópia de Miguel Angelo, um original de Sequeira, um gothico, uma sepia de Vieira Luzitano, uma gravura de Bartolozzi, um movel ou uma porcellana indo-portuguezes e assim por deante, apparecendo junto de cada manifestação de arte pequenas noticias, rapidos esclarecimentos que puzessem em relevo os mais notaveis traços biographicos do artista, as suas mais vincadas caracteristicas, a posição que occupa no quadro geral da historia da arte o perfil da eschola, o interesse historico ou o valor artistico da peça apresentada. .

E' esta a melhor forma e a mais viavel, em nosso entender, de o museu de Ponta Delgada prestar grandes serviços á instrucção e á educação do nosso meio. Arte Regional

Nas crises de lethargia e torpor, quando a alma nacional atravessa phases de desalento e se sente deprimida, urge pôr em acção os elementos de renascimento e todos os estimulos afim de se debellar esse doentio estado moral.

O povo portuguez atravessa, a nosso vêr, uma d'essas crises soffrendo as ne

fastas consequencias de ruins orientações, d'entre as quaes sobresae e avulta a perniciosa influencia de um extrangeirismo snob imposto ou apresentado pelos seus dirigentes inttellectuaes por forma attrahente.

Tem sido essc extrangeirismo um dos principaes factores a minar a vida nacional, incutindolhe o virus demolidor e execravel da desnacionalização, e, em vez de se exaltar, de se valorizar, de

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O velho pavilhão da Exposição adaptado provisoriamente ao museu se fazer comprehender e

ainda de se procurar apre

sentar com orgulho o que possuimos de nativo e o que somos (como nação definida e autonoma, dotada de caracter e de tradições proprias e inconfundiveis, bem pelo contrario, impensadamente, queremos crêr, tem sido desprezado e mais do que isso ridicularizado o que é bem portuguez.

Assim tem-se perdido um pouco o ideal commum, a aspiração collectiva, a cohesão nacional e consequentemente os sentimentos patrios que só germinam de uma profunda e segura consciencia da individualidade e do caracter nacional nitidamente vincado.

Nos odios pessoaes, nas divergencias politicas, nas luctas partidarias provocadas em geral pelo egoismo de uma acanhada politica sectaria, vão sendo gastas as nossas melhores energias esquecendo-se todo um longo e honroso passado de

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