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emprehendimentos, o achado da Terra Nova por açoreanos. A par d'ester notabilissimo feito cria-se amor á vida do mar, e o trafico maritimo desenvolve-se, indo collocar nos mercados da Europa os fructos do labor agricola açoreano e resultado da sua iniciativa industrial, depois, vão mais longe os nossos antepassados, dirigem-se tambem, seduzidos pelas honras da guerra e pelas riquezas, para a Africa e para a India, e assim, cerca de um seculo apoz o descobrimento, vemos as nossas Ilhas transformadas en importantes centros agricolas, commerciaes e industriaes, em contacto com os grandes meios europeus, assim como com os dominios indicos e americanos.

Foi este o trabalho colossal d'essas primeiras gerações de açoreanos que, sentindo scintillar em si bem viva a alma da raça, alargaram o seu vôo em luctas tremendas e sacrificios sem fim, procurando acompanhar a civilização coeva.

Essas relações commerciaes na sua acção lenta sem duvida, mas continuada, foi-nos approximando dos centros de avançada cultura e de outros ainda que eram revelações de desconhecidos e deslumbrantes mundos, e assim n'ellas encontramos uma fonte importantissima do nosso progresso social, pelo que possuia de estimulo para novos interesses e vastos emprehendimentos e pela renovação de idéas que ia proporcionando...

A acção civilizadora derivada do commercio não se limitava apenas ao enriquecimento material do meio, mas ainda as suas consequencias instructivas; o pastel, por exemplo, principal producto da exportação, deu-nos em troca muitas alfaias fabricadas em Sevilha, na Inglaterra e na Flandres, que eram outros tantos centros de avançada cultura e de progresso artistico.ata

Se attentarmos depois no roteiro dos nossos galeões que navegavam para o oriente achamos a explicação da existencia entre nós de preciosidades da antiga arte no puro estylo oriental ou no indo-portuguez vindo directamente das colonias ou por via de Lisboa.

Ricas colchas, finas porcellanas, valiosas peças de mobiliario jà hoje raras, foram n'esses afastados tempos importadas para estas Ilhas e ainda hoje nos. estão dizendo a prosperidade d'essa vida antiga.

Ella foi, sem duvida, a resultante da ambição do mando, do desejo de riqueza, da aspiração a um rapido ennobrecimento, tendencias estas postas em agitado movimento pela energia juvenil da raça robustecida pela crença e amparada pela fé sob a segura protecção de Deus,

O sentimento religioso foi o grande esteio, o mais firme amparo e a maior força de reacção contra os desalentos e contra as depressões e o grande elemento de fortalecimento moral contra os desanimos resultantes das dores e das desillusões,

Assim merece elle que lhe rendamos a nossa homenagem.,

A organização, pois, de um museu de arte religiosa nos Açores, dadas as circumstancias historicas indicadas, e que vincaram no perfil moral dos açoreanos o traço predominante de um povo de commerciantes e de navegadores que. por todo o mundo se espalharam levados pela sua fé, afigura-se-nos, repetimos, emprehendimento digno de ser realizado pela sua elevada significação historica.

Terminando estas breves considerações, nas quaes tentámos demonstrar a utilidade dos museus de arte e ethnographia n'esta Ilha, a forma de os organizar e a orientação que nos parece mais apropriada, lembraremos ainda não se tratar da creação de novos museus, mas apenas da ampliação dos que já existem. Temos uma secção de arte no Museu Municipal e possuimos um museu de arte religiosa em inicio.

A secção de arte desdobra-se em arte geral e arte regional, e o museu da Matriz amplia-se derivando ainda para ethnographia conventual.

E assim na Secção de Arte Geral colheria o publico uma mais vasta edu.

cação artistica; á de arte regional caberia uma missão especialmente de caracter nacionalizador e patriotico; e a de arte religiosa e ethnographia conventual seria uma lição historica de chamamento ao culto das tradições.

*

Assim julgamos ser este o melhor caminho a seguir na resolução do proble ma da nossa educação artistica. Para este importante assumpto chamamos a attenção das corporações administrativas, uma vez que a administração dos reditos publicos só será proveitosa e perfeita quando attender simultaneamente ao bemestar material dos povos e ao seu aperfeiçoamento moral e intellectual, e n'esta parte do seu programma intervem a protecção aos museus.

Finalmente, appellamos para o alto criterio e elevada competencia do dignissimo Director das Bellas Artes e para o illustre e erudito Director do Museu d' Arte Antiga, Sr. Dr. José de Figueiredo, devotado protector da Arte Nacional, a quem a Nação tantos e tão relevantes serviços deve, para que Suas Excellencias nos prestem o seu valioso auxilio, a fim de que, nos Açores, canto de Portugal, sempre tão esquecido e por vezes injustamente desprezado, se sintam tambem os beneficos effeitos da nobilissima cruzada prégada no continente, do resurgimento da Arte Nacional e das tradições patrias, o que no fundo é a mais brilhante lição e o mais proveitoso ensinamento que aos portuguezęs podem ser ministrados presentemente.

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A população da Ilha de S. Miquel durante o seculo XIX

A POPULAÇÃO GERAL EM ALGUMAS EPOCHAS E SEU AUGMENTO

A população michaelense, no decorrer do seculo, soffreu trez crises proveni-. entes das correntes d'emigração, formadas por gente que procurava trabalho e que o não encontrava no seu meio, porque as pequenas industrias manufactureiras nunca receberam o auxilio devido, nem da iniciativa particular, nem da administração publica. Os capitalistas.não acceitavam propostas d'empregos industriaes; pelo outro lado o Estado e as Corporações Publicas pouco se convenceram que do desenvolvimento da producção industrial resultaria mais tarde materia tributavel, muito util para o augmento da receita publica, e nunca se lançaram n'uma politica decidida á protecção da pequena industria. A população, vendo-se restringida á agricultura, limitada a sua acção, afogada na concorrencia, emigrava. Emigrava no principio do seculo para o Brazil que era colonia portugueza e onde a terra estava por arrotear; tornou a emigrar, em 1852, para o Brazil, facilitada por navios contractados que regularmente vinham buscar trabalhadores para as explorações agricolas das roças; emigrou em 1879, para as Ilhas Sandwich; e, no fim do seculo, emigrou para os Estados Unidos da America do Norte, onde ha terra por trabalbar, mas, onde a actividade fabril das cidades costeiras os empregava e os emprega ainda.

Ha periodos em que o augmento annual da população baixa, comparada com a progressão d'outros, mas é certo que durante as epochas emigratorias essa baixa manifesta-se notavelmente, para não vir deixar duvidas sobre as suas origens.

A riqueza publica resentiu-se das crises emigratorias, mas seria um erro attribuir essas crises á emigração, porque ella não foi senão o resultado de males sociaes de natureza intima, economica e social. O progresso da riqueza insular tão pouco estagnou na sua marcha atravez o seculo; mas a progressão não se deu pela forma como se deveria dar, attendendo ás qualidades moraes e physicas das populações e aos recursos da terra. Bastou uma grande industria mercantil-a exportação da laranja--para occupar gente e parar a sahida de habitantes para o extrangeiro, e o estabelecimento d'emprezas fabris como a do alcool e a do tabaco para attenuar sensivelmente as correntes emigratorias; e sempre que se deram essas correntes emigratorias estavam as industrias passando por difficuldades, taes como doenças nos laranjaes, aggravamentos d'impostos na producção, etc.

Não visamos um estudo social e por isso não commentaremos mais debaixo de qualquer ponto de vista economico, os quadros estatisticos que formos apresentando sobre a população michaelense atravez do seculo passado, mesmo da emigração, não falaremos senão para explicar ou demonstrar as crises positivas que soffreu a população. E' sobre ella exclusivamente que queremos escrever e faremos o possivel por nos arredarmos o menos que pudermos do assumpto que é vasto já de si.

Antes de entrarmos nos numeros comparativos das antigas estatisticas anteriores aos censos, publicaremos na integra o quadro da população por edades do Engenheiro Francisco Borges da Silva de 1813,

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Borges da Silva dá-nos em 1800 para a Ilha de S. Miguel.

Harding Read, consul inglez em 1806..

Borges da Silva em 1813.....

57.161 habitantes

61.245

"

62.353

«

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O Governador Civil Antonio Teixeira de Macedo em 1852.

O augmento é pois:

nos primeiros 7 annos de 4.084 habitantes de 583 por anno e de 12,2 por milhar

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Temos depois d'analysados estes numeros em contas redondas e pondo de fóra as repetições dos annos comprehendidos nos agrupamentos que em meio seculo a Ilha de S. Miguel teve um augmento de 35.500 habitantes á media annual de 710 individuos é na progressão de 12,4 por milhar.

As baixas deram-se entre 1806 e 1821, isto é, quando o governo de D. João VI começou a promover a emigração para o Brazil parada com a guerra napolionica e o conflicto europeu ; e de 1849 a 52 começa novamente a accentuar-se com os principios d'emigração clandestina que em 1852 é registada officialmente por uma regularização de tiragem de passaportes e legalmente estabelecida em navios estrangeiros que aqui vinham a esse fim.

De 1852 a 12 de novembro de 1873 embarcaram para o Brazil cerca de 9 mil individuos naturaes da Ilha. Ao começo, reprimidos pelas zelosas auctoridades do Districto, cujo chefe era o Dr. Felix Borges de Medeiros, a emigração era posta em pratica por via dos portos do Continente ou dos das outras Ilhas, depois fez-se directamente do porto de Ponta Delgada.

Durante 21 annos a emigração manteve-se n'uma media de 423 pessoas por

(+) Este quadro de Borges da Silva traz alguns erros nas parcellas de que resulta não conferirem as sommas.

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Conjugando este quadro com quadros sobre nascimentos e casamentos em vaConjugando este quad este qua rios annos e periodos, sese não obtem absolutamente com precisão uma idéa exacta do' progresso da natalidade no Districto, dá-nos, comtudo, um' confronto poveitoso: Nascimentos, obitos e accrescimo de população por 1000 habitantes no Districto em differentes epcchas

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Tomando as freguezias do concelho de Ponta Delgada em differentes epochas:

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Esta população exclue pretos, pretas, clero e pessoal dos conventos. Percentagem media da totalidade dos nascimentos sobre os obitos: 20 p. c.

Comprehendendo 10 mil emigrados clandestinos,

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