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III

Foi filho e companheiro do Thebano,
Que tão diversas partes conquistou:
Parece vindo ter ao ninho lispane,
Seguindo as armas que contino usou:
Do Douro, e Guadiana o campo ufano,
Já dito Elysio, tanto o contenton,
Que alli quiz dar aos já cansados ossos
Eterna sepultura, e o nome aos nossos.

IV

( ramo que lhe vês para divisa,
O verde thyrso foi de Bacco usado,
( qual á nossa idade amostra e avisa,
Que foi seu companheiro, e filho amado.
Vês outro que do Tejo a terra pisa,
Despois de ter tão longo mar arado,
Onde muros perpetuos edifica,

E templo a Pallas, que em memoria fica.

V

Ulysses he o que faz a sancla casa
A' deosa, que lhe dá a lingua fecunda;
Que se lá na Asia Troia insigne abrasa,
Cá na Europa Lisboa ingente funda.
Quem será est'outro cá, que o campo arrasa
De morios, com presença furibunda?
Grandes batalhas tem desbaratadas,

Que as aguias nas bandeiras tem pintadas.

VI

Assi o Gentio diz: responde o Gama:
Este que vês, pastor já foi de gado;
Viriato sabemos que se chama,

Destro na lança mais, que no cajado:
Injuriada tem de Roma a fama,

Vencedor invencibil, afamado;

Nio tem com elle, não, nem ter puderam O primor que com Pyrrho já tiveram.

VII

Com força não, com manha vergonhosa
A vida The tiraram, que os espanta:
Que o grande aperto em gente, inda que hon-
A's vezes leis magnanimas quebranta. (rosa,
Outro está aqui, que contra a patria irosa
Degradado comnosco se alevanta:

Escolheo bem com quem se alevantasse,
Para que eternamente se illustrasse.

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Ves, comnosco tambem vence as bandeiras
Dessas aves de Jupiter validas;

Que já naquelle tempo as mais guerreiras
Gentes de nós souberam ser vencidas:
Olha tão subtis artes, e maneiras,
Para adquirir os povos, tão lingidas;
A fatidica Cerva que o avisa:

Elle he Sertorio, e ella a sua divisa.

IX

Olha est'outra bandeira, e vê pintado
O grão progenitor dos Reis primeiros:
Nós Hungaro o fazemos, porém nado
Crem ser em Lotharingia os estrangeiros:
Despois de ter co'os Mouros superado
Gallegos e Leonezes cavaleiros,

A' Casa sancta passa o sancto Henrique,
Porque o tronco dos Reis se sanctifique.

X

Quem he, me diz est'outro que me espanta, (Pergunta o Malabar maravilhado)

Que tantos esquadrões, que gente tanta,
Com tão pouca, tem roto e destroçado?
Tantos muros asperrimos quebanta,
Tantas batalhas da, nunca cansado,
Tantas coroas tem por tantas partes
A. seus pés derribadas, e estandartes?

ΧΙ

Este he o primeiro Affonso, disse o Gama,
Que todo o Portugal aos Mouros toma,
For quem no Estygio lago jura a Fama
De mais não celebrar nenhum de Roma:
Este he a quelle zeloso, a quem Deos ama,
Com cujo braço o Mouro imigo doma,
Para quem de seu reino abaixa os muros,
Nida deixando já para os futuros.

XII

Se Cesar, se Alexandre Rei tiveram
Tão pequeno poder, tão pouca gente,
Contra tantos imigos, quantos eram
Os que desbaratava este excellente:
Não creas que seus nomes se estenderam
Com glorias immortaes tão largamente,
Mas deixa os feitos seus inexplicaveis,
Vê que os de seus vassallos são notaveis.

XIII

Este que vês olhar com gesto irado
Para o rompido alumno mal soffrido,
Dizendo-lhe que o exercito espalhado
Recolha, e torne ao campo defendido:
Torna o moço do velho acompanhado,
Que vencedor o torna de vencido:
Egas Moniz se chama o forte velho,
Para leaes vassallos claro espelho.

XIV

Ve-lo cá vai co'os filhos a entregar-se,
A corda ao collo, nu de seda e panno,
Porque não quiz o moço sujeitar-se,
Como elle promettera ao Castelhano:
Fez com siso e promessas levantar-se
O cerco, que já estava soberano:
Os filhos, e mulher obriga á pena;
Para que o senhor salve, a si condena.

XV

Não fez o consul tanto, que cercado
Foi nas forcas Caudinas de ignorante,
Quando a passar por baixo foi forçado
Do Samnitico jugo triumphante:
Este, pelo seu povo injuriado,

A si se entrega só, firme e contente;
Est'outro a si, e os filhos naturais,
E a consorte, sem culpa, que doe mais.

XVI

Vês este que sabindo da cilada

Dá sobre o Rei, que cerca a villa forte; Já o Rei tem preso, e a villa descercada: Ilustre feito, digno de Mavorte?

Velo cá vai pintado nesta armada,

No mar tambem aos Mouros dando a mortë,
Tomando-lhe as galés, levando a gloria
Da primeira maritima victoria:

XVII

lle Dom Fuas Roupinho, que na terra,
E no mar resplandece juntamente
to'o fogo que accendeo junto da serra
De Abyla, nas galés da Maura gente
Olha como em tão justa e sancta guerra,
De acabar pelejando está contente:
Das mãos dos Mouros entra a felice alma
Triumphando nos Ceos com justa palma.

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