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Era-vulg. te a resoluçao, em que estava de nao

confentir que o Rei de Cambaya le-
vantaffe no muro hum padrao de ine
júria para o Estado da India , hum cura
ral de affronta para todos os Porto-
guezes, que ficavaó fechados como
animaes perdidos. Elle fahé a campo
armado; põe os Officiaes em fugida;
faz desmanchar a parede, e manda le-
var á Fortaleza todos os materiaes
e ferramentas. Sobe aos ultimos pon-
tos do desconcerto a cólera do Sul-
tað Mamud com esta noticia , e Co-
ge Çofar sempre attento para naõ per-
der os lanços da sua fortuna , vendo-o
tomado della , atiça o fogo, sopra as
chammas faz lavrar as lavaredas, e
com este discurso inflammado intenta
fazer inextinguivel o incendio.

Que efperas, Rei invicto , Sultao poderoso de Cambaya , tu que fazes tremer a terra

affuftar os mares perturbar as Esféras ? Em que te detens , Monarca adorado do Universo, só de quatro monstros acantonados em Dio , offendido, affrontado , ou por: que a ti te desconhecem, ou porque

fe

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se nao conhecem a fi? Detens-te, el- Era vulg.
peras, que estes brutos, estes tigres,
eftas féras agora com medo enterra.
das na cova de Dio, recobrem alen-
tos , sabaõ devorantes por Cambaya,
como leões ás prezas, façao au teu no-
me mais injúrias, aos teus vaffallos
mais insultos, te reduza a sua barba.
ridade ao estado de teu tio o invenci.

vel Badur, acabado ás mãos dos trahi
3 dores mais vis ? Morraó as hydras af-

fogadas no berço. Se as deixares nu:

trir nao deves temer que te devo. 0

rem ? Se ellas na vida ainda te nað pe tocaố, na honra que fundo te ferem!

Se quaesquer homens por ella lao obris gados a expor maito, os Reis devem 5

arriscar tudo. Que importa se despe-
dace a Corôa , quando a reputaçað le
rompe , quando o respeito se perde?
Eu ,

i que sou hum Elrangeiro em bi Cambaya , aonde busquei hum refugio

com o Baxá Mustafá, porque aos feus

Soberanos devo honras como vaffallo, tor

amor como filho , já nao tenho foffri.
mento , falta-me a tolerancia para ser
testemunha sem accao, paciente fem

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Era vulg. vingança dos despresos

, que os Bare baros Portuguezes fazem na minha face aos meus Pais aos meus Reis, aos Monarcas de Cambaya , a quem Çofar deve tudo. Senhor, dá-me ar mas, .e gente para ir arrancar do mundo os monstros da abominacao. Se ao que peço me nao differes , eu marcho só, chego a Dio , bato a Fortaleza

, dos Portuguezes com a cabeça , mor. ro phrenerico ; mas nella deixarei gravado para a pofteridade o Epitaphio advertido. Aqui se matou Coge Ço. far defefperado por nao ter meios de vingar o seu Rei offendido , que nao quiz vingar-se.

Nao podiaõ deixar de produzir os seus effeitos razões taó fórtes applica, das a hum animo todo cheio de estimulos. Sultað Mamud agradeceo a Coge Çofar as demonstrações do zelo; nomeou-o Capitað General dos seus Exercitos ; encarregou-lhe a expediçað contra os Portuguezes de Dio para a executar como bem lhe pareceffe ; mas

; que até ao tempo prefixo de entrar em acçao, fizesse guardar inviolavel o le

gre:

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gredo. Com as cautelas neceffarias deo Era vulg:
Gofar principio ás negociações pelas
Cortes da India até ao Malabar ; con-
vidando os Principes com promessas de
Vantagens para huma alliança geral
contra os Portuguezes. Elles nao po-
diaó deixar de elperar o mesmo, que

O segredo cobria ; e attentos a sua
conservaçao , o Governador para a
guerra, que esperava , mandou de Goa
prover a Fortaleza na forma , que fica
Teferido,

Esta era a figura , em que se achavao os negocios da India , quando D. Joað de Castro chegou á barra de Goa com seis níos, que neste anno labírað do Reino. O Infante D. Luiz lhe negociou o despacho de Governador do Elado em que vinha provido, e com elle embarcárað seus dous filhos D. Alvaro, e D. Fernando de Castro; filhos benemeritos da natureza , e da disciplina de tao grande Pai. Os Capitães, que trazia ás suas ordens, erao D. Jeronymo de Menezes , filho de D. Henrique ; irmao do Marquez de Vil. la-Real, e Cunhado do Governador, TOM. XIII,

S

que

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Era vulg. que trazia o governo de Bacaim ; Jora

ge Cabral com o mesmo despacho, le D. Jeronymo nað o serviffe; D. Ma. noel da Silveira provído em Ormuz; Simao de Andrade, e Diago Rebelo, que haviao voltar com as nãos da care regaçao. Em Moçambique tomou o Governador a bordo a Simao de Mel. lo com a gente, que escapára do naufragio da sua náo e chegou a Goa com feliz viagem.

Martim Affonso lhe entregou o governo com as formalidades costumadas , nao podendo deixar de sentir as mudanças dos amigos da fortuna, que coftumað adorar o Planeta, que narce', e apedrejar o que se põe. Só fe achou Martiin Affonso, sem lembrane ça nos homens de que elle era parente estimado do Conde da Castanheira valido. Forse por esta considera. çao, ou pela grandeza da alma de D. Joað de Castro, elle tratou a Martim Affonso por humas maneiras civis bem differentes daquellas , com que Martiin Affonfo tratára a D. Eftevao da Gama. Muita da Nobreza , que anda.

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