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LXXII.

« E, se esta informação não for inteira,
Tanto quanto convem, d'elles pretende
Informar-te; que é gente verdadeira,
A quem mais falsidade enoja, e offende:
Vai ver-lhe a frota, as armas, e a maneira
Do fundido metal, que tudo rende;
E folgarás de veres a policia
Portugueza na paz, e na milicia. »

LXXIII.

Ja com desejos o idolátra ardia
De ver isto, que o Mouro lhe contava :
Manda esquipar bateis; que ir ver queria
Os lenhos, em que o Gama navegava :
Ambos partem da praia, a quem seguia
A naira geração, que o mar coalhava;
A' capitaina sobem forte e bella,
Onde Paulo os recebe a bordo d' ella.

LXXIV.

Purpureos são os toldos, e as bandeiras
Do rico fio são, que o bicho gera;
N'ellas estão pintadas as guerreiras
Obras, que o forte braço ja fizera:
Batalhas teem campaes, aventureiras,
Desafios crueis, pintura fera,

Que, tanto que ao gentio se apresenta,
Attento n'ella os olhos apascenta.

LXXV.

Polo que ve pergunta: mas o Gama
Lhe pedia primeiro «que se assente,
E que aquelle deleite, que tanto ama
A seita epicuréa experimente. »>
Dos espumantes vasos se derrama
O liquor, que Noé mostrara á gente :
Mas comer o gentio não pretende,
Que a seita, que seguia, lh'o defende.

LXXVI.

A trombeta, que em paz no pensamento
Imagem faz de guerra, rompe os ares :
Co'o fogo o diabólico instrumento
Se faz ouvir no fundo la dos mares.
Tudo o gentio nota ; mas o intento
Mostrava sempre ter nos singulares
Feitos dos homens, que em retrato breve
A muda poesia alli descreve.

LXXVII.

Alça-se em pe, com elle o Gama junto,
Coelho de outra parte; e o Mauritano
Os olhos põe no béllico transunto
De um velho branco, aspeito soberano;
Cujo nome não pode ser defunto

Em quanto houver no mundo tracto humano:

No trajo a grega usança está perfeita;

Um ramo por insígnia na direita.

LXXVIII.

Um ramo na mão tinha... Mas o' cego
Eu, que commetto insano e temerario,
Sem vós, nymphas do Tejo, e do Mondego,
Per caminho tam árduo, longo e vario!
Vosso favor invoco, que navego

Per alto mar, com vento tam contrario,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

LXXIX.

Olhai, que ha tanto tempo que cantando
O vosso Tejo, e os vossos Lusitanos,
A fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo, e novos danos :
Agora o mar, agora exp'rimentando
Os perigos mavórcios inhumanos;
Qual Canace, que á morte se condena,

N' uma mão sempre a espada, e n' outra a pena.

LXXX.

Agora com pobreza avorrecida
Per hospicios alheios degradado;
Agora da esperança ja acquirida,
De novo, mais que nunca, derribado;
Agora ás costas escapando a vida,
Que d'um fio pendia tam delgado,
Que não menos milagre foi salvar-se,
Que pera o Rei judaico accrecentar-se.

LXXXI.

E ainda, nymphas minhas, não bastava
Que tammanhas miserias me cercassem;
Senão que aquelles, que eu cantando andava,
Tal prémio de meus versos me tornassem:
A troco dos descanços, que esperava,
Das capellas de louro, que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tam duro estado me deitaram.

LXXXII.

Vêde, nymphas, que ingenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,

Que assi sabem prezar com taes favores
A quem os faz, cantando, gloriosos !
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar ingenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memoria,
Que merecerem ter eterna gloria!

LXXXIII.

Pois logo em tantos males é forçado,
Que so vosso favor me não falleça,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde feitos diversos engrandeça :
Dai-m'o vós sos, que eu tenho ja jurado,
Que não o empregue em quem o não mereça;
Nem per lisonja louve algum subido,

Só pena de não ser agradecido.

LXXXIV.

Nem creais, nymphas, não, que fama desse
A quem ao bem commum, e do seu rei,
Antepuzer seu próprio interesse,
Imigo da divina e humana lei:
Nenhum ambicioso, que quizesse
Subir a grandes cargos, cantarei,
So por poder com torpes exercicios
Usar mais largamente de seus vicios:

LXXXV.

Nenhum, que use de seu poder bastante,
Pera servir a seu desejo feo ;

E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteo.
Nem, Camenas, tambem cuideis que cante
Quem com hábito honesto e grave, veo,
Por contentar ao rei no officio novo,
A despir, e roubar o pobre povo.

LXXXVI.

Nem quem acha que é justo, e que é direito
Guardar-se a lei do rei severamente;

E não acha que é justo, e bom respeito,
Que se pague o suor da servil gente:
Nem quem sempre com pouco experto peito
Razões aprende, e cuida que é prudente,
Pera taixar com mão rapace e escassa,
Os trabalhos alheios, que não passa.

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