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LX.

Pois a tapeçaría bella e fina,
Com que se cobre o rustico terreno,
Faz ser a de Acheménia menos dina;
Mas o sombrio valle mais ameno.
Alli a cabeça a flor cephísia inclina
Sobolo tanque lúcido e sereno:
Florece o filho, e neto de Ciniras,

Por quem tu, deusa páphia, inda suspiras.

LXI.

Pera julgar difficil cousa fora,

No ceo vendo, e na terra as mesmas cores,
Se dava ás flores côr a bella Aurora,

Ou se lh'a dão a ella as bellas flores.
Pintando estava alli Zephyro, e Flora,
As violas, da côr dos amadores;
O lirio roxo, a fresca rosa bella,
Qual reluze nas faces da donzella.

LXII.

A candida cecem, das matutinas
Lagrymas rociada, e a mangerona
Vêem-se as lettras nas flores hyacinthinas,
Tam queridas do filho de Latona :
Bem se enxerga nos pomos, e boninas,
Que competía Chlóris com Pomona.
Pois se as aves no ar cantando voam,
Alegres animaes o chão povoam.

LXIII.

Ao longo d'agua o níveo cysne canta,
Responde-lhe do ramo philomella :
Da sombra de seus cornos não se espanta
Acteon n'agua crystallina e bella :
Aqui a fugace lebre se levanta

Da espessa matta, ou tímida gazella;
Alli no bico traz ao caro ninho

O mantimento o leve passarinho.

LXIV.

N'esta frescura tal desembarcavam
Ja das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as bellas deusas, como incautas.
Algumas doces citharas tocavam,
Algumas arpas, e sonoras frautas;
Outras co' os arcos de ouro se fingiam
Seguir os animaes, que não seguiam.

LXV.

Assi lh' o aconselhara a mestra experta,
Que andassem pelos campos espalhadas ;
Que vista dos Barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na fórma descoberta
Do bello corpo estavam confiadas,
Posta a artificiósa fermosura,

Nuas lavar se deixam n' agua pura.

LXVI.

Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os pés de terra cubiçosos;
Que não ha nenhum d'elles, que não saia
De acharem caça agreste desejosos;
Não cuidam que sem laço ou redes, caia
Caça n'aquelles montes deleitosos
Tam suave, doméstica e benina,
Qual ferida lh'a tinha ja Erycina.

LXVII.

Alguns, que em espingardas, e nas béstas
Pera ferir os cervos, se fiavam,

Pelos sombrios mattos, e floréstas,
Determinadamente se lançavam :

Outros nas sombras, que das altas séstas
Defendem a verdura, passeavam

Ao longo d' agua, que suave e queda
Per alvas pedras corre á praia leda.

LXVIII.

Começam de enxergar subitamente
Per entre verdes ramos varias cores;
Cores, de quem a vista julga e sente,
Que não eram das rosas ou das flores;
Mas da lã fina, e seda differente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se, per arte, mais fermosas.

LXIX.

Dá Velloso espantado um grande grito:
« Senhores, caça estranha (disse) é esta :
Se inda dura o gentío antiguo rito,
A deusas é sagrada esta floresta :
Mais descobrimos do que humano esp❜rito
Desejou nunca; e bem se manifesta,

Que são grandes as cousas e excellentes,
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

"

LXX.

Sigamos estas deusas, e vejamos

Se phantasticas são, se verdadeiras. >>
Isto dicto: veloces mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras.

Fugindo as nymphas vão per entre os ramos;
Mas, mais industriósas, que ligeiras,
Pouco e pouco surrindo, e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando.

LXXI.

De uma os cabellos de ouro o vento leva
Correndo, e de outra as fraldas delicadas :
Accende-se o desejo, que se ceva

Nas alvas carnes súbito mostradas :
Uma de indústria cahe, e ja releva
Com mostras mais macias, que indinadas,
Que sobre ella empecendo tambem caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.

LXXII.

Outros per outra parte vào topar

Com as deusas despidas, que se lavam:
Ellas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Umas, fingindo menos estimar

A vergonha que a força, se lançavam
Nuas per entre o matto, aos olhos dando
O que ás mãos cubiçosas vão negando.

LXXIII.

Outra, como acudindo mais depressa
A' vergonha da deusa caçadora,

Esconde o corpo n' agua; outra se apressa
Per tomar os vestidos, que tem fora.
Tal dos mancebos ha, que se arremessa
Vestido assi, e calçado (que co' a mora
De se despir ha mêdo que inda tarde)
A matar na agua o fogo, que n'elle arde.

LXXIV.

Qual cão de caçador, sagaz e ardido, Usado a tomar n' agua a ave ferida, Vendo no rosto o férreo cano erguido Pera a garcenha, ou pata conhecida, Antes que soe o estouro, mal sofrido Salta n'agua, e da presa não duvida; Nadando vai, e latindo: assi o mancebo Remette á que não era irmã de Phebo.

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