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LXXXVII.

« De não sair em terra toda a gente,
(Por observar a usada preeminencia)
Aindaque me peze estranhamente,
Em muito tenho a muita obediencia:
Mas, se lh' o regimento não consente,
Nem eu consentirei que a excellencia
De peitos tam leaes em si desfaça,
So porque a meu desejo satisfaça.

LXXXVIII.

« Porêm como a luz crástina chegada
Ao mundo for, em minhas almadias
Eu irei visitar a forte armada,
Que ver tanto desejo, ha tantos dias:
E se vier do mar desbaratada,
Do furioso vento, e longas vias,
Aqui terá, de limpos pensamentos
Piloto, munições, e mantimentos. »

LXXXIX.

Isto disse; e nas aguas se escondia
O filho de Latona: e o messageiro
Co' a embaixada, alegre, se partia
Pera a frota, no seu batel ligeiro.
Enchem-se os peitos todos de alegria,
Por terem o remedio verdadeiro,
Pera acharem a terra, que buscavam ;
E assi ledos a noite festejavam.

XC.

Não faltam alli os raios de artificio,
Os tremulos cometas imitando :
Fazem os bombardeiros seu officio,
O ceo, a terra, e as ondas atroando.
Mostra-se dos Cyclópas o exercicio,

Nas bombas, que de fogo estão queimando:
Outros com vozes. com que o ceo feriam,
Instrumentos altísonos tangiam.

XCI.

Respondem-lhe da terra junctamente,
Co' o raio volteando, com zunido;
Anda em gyros no ar a roda ardente;
Estoura o po sulphúreo escondido.
A grita se alevanta ao ceo, da gente;
O mar se via em fogos accendido ;
E não menos a terra; e assi festeja
Um ao outro, á maneira de peleja.

XCII.

Mas ja o ceo inquieto revolvendo
As gentes incitava a seu trabalho;
E ja a mãe de Memnôn a luz trazendo,
Ao somno longo punha certo atalho:
Iam-se as sombras lentas desfazendo,
Sobre as flores da terra, em frio orvalho;
Quando o rei melindano se embarcava
A ver a frota, que no mar estava.

XCIII.

Viam-se em derredor ferver as praias
Da gente, que a ver so concorre leda :
Luzem da fina púrpura as cabaias;
Lustram os pannos da tecida seda :
Em logar de guerreiras azagaias,
E do arco, que os cornos arremeda
Da lua, trazem ramos de palmeira;
Dos que vencem, coroa verdadeira.

XCIV.

Um batel grande e largo, que toldado
Vinha de sedas de diversas cores,
Traz o rei de Melinde, acompanhado
De nobres de seu reino, e de senhores:
Vem de ricos vestidos adornado,
Segundo seus costumes, e primores;
Na cabeça uma fota guarnecida,

De ouro, e de seda, e de algodão tecida.

XCV.

Cabaia de damasco rico e dino,
Da tyria côr, entre elles estimada;
Um collar ao pescoço, de ouro fino,
Onde a materia, da obra é superada;
C' um resplandor reluze adamantino
Na cinta a rica adaga bem lavrada;
Nas alparcas dos pes, emfim de tudo,
Cobrem ouro, e aljofar ao veludo.

XCVI.

Com um redondo amparo alto de seda,
N' uma alta e dourada hastea enxerido,
Um ministro á solar quentura veda,
Que não offenda, e queime o rei subido.
Musica traz na proa, estranha e leda,
De aspero som, horríssimo ao ouvido;
De trombetas arcadas em redondo,
Que sem concerto, fazem rudo estrondo.

XCVII.

Não menos guarnecido o Lusitano,
Nos seus bateis, da frota se partia
A receber no mar o Melindano,
Com lustrosa e honrada companhia.
Vestido o Gama vem ao modo hispano;
Mas franceza era a roupa que vestia,
De setim da adriática Veneza,

Carmesi, côr que a gente tanto preza:

XCVIII.

De botões d'ouro as mangas véem tomadas,
Onde o sol reluzindo a vista cega;

As calças soldadescas recamadas
Do metal, que fortuna a tantos nega:
E com pontas do mesmo delicadas
Os golpes do gibão ajuncta, e achega;
Ao italico modo a aurea espada ;

Pluma na gorra, um pouco declinada.

XGIX.

Nos de sua companhia se mostrava,
Da tincta, que dá o múrice excellente,
A varia côr, que os olhos alegrava,
E a maneira do trajo differente.
Tal o formoso esmalte se notava,
Dos vestidos olhados junctamente,
Qual apparece o arco rutilante
Da bella nympha, filha de Thaumante.

C.

Sonorosas trombetas incitavam

Os animos alegres, resoando:

Dos Mouros os bateis o mar coalhavam,
Os toldos pelas aguas arrojando.

As bombardas horrisonas bramavam,
Com as nuvens de fumo o sol tomando;
Amiudam-se os brados accendidos;
Tapam co' as mãos os Mouros os ouvidos.

CI.

Ja no batel entrou do capitão

O rei, que nos seus braços o levava :
Elle co' a cortezia, que a razão,
(Por ser rei) requeria, lhe fallava.
C'umas mostras d' espanto, e admiração,
O Mouro o gesto, e o modo lhe notava;
Como quem em mui grande estima tinha
Gente, que de tam longe á India vinha.

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