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III.

Promptos estavam todos escuitando
O que o sublime Gama contaria ;
Quando, despois de um pouco estar cuidando,
Alevantando o rosto, assi dizia :

Mandas-me, o' rei, que conte declarando
De minha gente a gran' genealogia :
Não me mandas contar estranha historia;
Mas mandas-me louvar dos meus a gloria.

IV.

«Que outrem possa louvar esforço alheio,
Cousa é que se costuma, e se deseja;
Mas louvar os meus proprios, arreceio
Que louvor tam suspeito mal me esteja:
E pera dizer tudo temo, e creio
Que qualquer longo tempo curto seja :
Mas, pois o mandas, tudo se te deve;
Irei contra o que devo, e serei breve.

V.

«Alem d'isso, o que a tudo emfim me obriga, É não poder mentir no que disser;

Porque, de feitos taes, por mais que diga,

Mais me ha de ficar inda por dizer :

Mas, porque n' isto a ordem leve, e siga,
(Segundo o que desejas de saber)
Primeiro tractarei da larga terra;
Despois direi da sanguinosa guerra.

VI.

« Entre a zona, que o cancro senhorea,
Meta septentrional do sol luzente;
E aquella, que por fria se arrecea
Tanto, como a do meio por ardente,
Jaz a suberba Europa; a quem rodea,
Pela parte do Arcturo e do Occidente,
Com suas salsas ondas, o Oceano;
E, pela Austral, o mar Mediterrano.

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VII.

Da parte d'onde o dia vem nascendo, Com Asia se avisinha; mas o rio,

Que dos montes Rhipheios vai correndo
Na alagoa Meótis, curvo e frio,

As divide : e o mar, que fero e horrendo
Viu dos Gregos o irado senhorio;
Onde agora, de Troia triumphante,

Não ve mais que a memoria, o navegante.

VIII.

«La onde mais debaixo está do polo,
Os montes hyperbóreos apparecem;
E aquelles, onde sempre sopra Eolo,
E, co' o nome dos sopros, se ennobrecem.
Aqui tam pouca força teem de Apolo
Os raios, que no mundo resplandecem,
Que a neve está contino pelos montes,
Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

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IX.

Aqui dos Scythas grande cantidade Vivem, que antiguamente grande guerra Tiveram sobre a humana antiguidade, Co' os que tinham então a egypcia terra : Mas quem tam fóra estava da verdade, (Ja que o juizo humano tanto erra) Pera que do mais certo se informara, Ao campo damasceno o perguntara.

X.

Agora n' estas partes se nomea
A Lappia fria, a inculta Noroega;
Escandinavia ilha, que se arrea

Das victorias, que Italia não lhe nega.
Aqui, em quanto as aguas não refrea
O congelado hinverno, se navega
Um braço do sarmático Oceano,
Pelo Brusio, Suecio, e frio Dano.

XI.

« Entre este mar, e o Tánais vive estranha Gente, Ruthenos, Moscos, e Livonios, Sarmátas outro tempo; e na montanha 'Hercyna, os Marcomanos são Polonios. Sujeitos ao imperio de Alemanha

São Saxones, Bohemios, e Pannonios;
E outras varias nações, que o Rheno frio
Lava, e o Danubio', Amásis, e Albis rio.

XII.

Entre o remoto Istro, e o claro estreito
Aonde Helle deixou co' o nome a vida,
Estão os Thraces de robusto peito,
Do fero Marte patria tam querida;
Onde co'o Hemo, o Rhodope sujeito
Ao Othomano está, que sumettida
Byzancio tem a seu serviço indino:
Boa injuria do grande Constantino!

XIII.

Logo de Macedónia estão as gentes,
A quem lava do A'xio a agua fria:
E vós tambem, o' terras excellentes
Nos costumes, ingenhos e ousadia;
Que creastes os peitos eloquentes,
E os juizos de alta phantesia,

Com quem tu, clara Grecia, o ceo penetras,
E não menos per armas, que per letras.

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XIV.

Logo os Dálmatas vivem; e no seio,

Onde Antenor ja muros levantou,

A suberba Veneza está no meio

Das aguas, que tam baixa começou.

Da terra, um braço vem ao mar, que cheio De esforço, nações varias sujeitou ;

Braço forte de gente sublimada

Não menos nos ingenhos, que na espada.

XV.

Emtôrno o cerca o reino neptunino, Co'os muros naturaes, per outra parte: Pelo meio o divide o Apennino,

Que tam illustre fez o patrio Marte: Mas despois que o Porteiro tem divino, Perdendo o esforço veio, e bellica arte: Pobre está ja de antigua potestade : Tanto Deus se contenta de humildade!

XVI.

« Gallia alli se verá, que nomeada
Co' os cesáreos triumphos foi no mundo,
Que do Séquana, e Rhódano é regada,
E do Garumna frio, e Rheno fundo :
Logo os montes da nympha sepultada
Pyrene, se alevantam, que (segundo
At iguidades contam) quando arderam,
Rios de ouro, e de prata então correram.

XVII.

Eis-aqui se descobre a nobre Hespanha, Como cabeça alli de Europa toda; Em cujo senhorio, e gloria estranha Muitas voltas tem dado a fatal roda: Mas nunca poderá com força, ou manha, A fortuna inquieta pôr-lhe noda, Que lh'a não tire o esforço e ousadia Dos bellicosos peitos, que em si cria.

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