Imagens das páginas
PDF
ePub

Nascer pera viver, e pera a vida
Faltar-me quanto o mundo tem pera ella!
E não poder perdella!

Estando tantas vezes ja perdida!
Emfim, não houve trance de fortuna,
Nem perigo, nem casos duvidosos,
(Injustiças d'aquelles que o confuso
Regimento, do mundo antiguo abuso,
Faz sôbre os outros homens, poderosos!)
Que eu não passasse, atado á fiel coluna
Do sofrimento meu, que a importuna
Perseguição de males em pedaços

Mil vezes fez á força de seus braços.

Em o começo da ecloga XI, tambem escripta após haver regressado a Portugal, Camões, sob o nome de Limiano, rompe nas mesmas queixas, dizendo, que cuidando acharia descanso, socego e abrigo em sua patria, so achara n'esta uma continuação dos mesmos, ou maiores infortunios. Eis suas pala

vras :

Podia ser; que muito tempo fora
Andei d'esta ribeira, patria minha,
Onde triste me ves andar agora.

Tinha la pera mi, que a vida tinha

Mais socegada ca, e mais segura

Entre os meus, que com gosto a buscar vinha.

Foi d'outro parecer minha ventura;

Discordia so achei, e achei dureza,

Em logar de socego e de brandura.

Quando o nosso Poeta (acabada a expedição contra o rei de Chembé) arribou a Goa, governava Francisco Barreto, per morte de D. Pedro Mascarenhas, succedida n'esta cidade em 16 de junho de 1555; e, porque, em tal occasião, escreveu alguns versos mordazes, com o título de Disparates da India, e certa composição satyrica em prosa e verso (1) motejando pessoas principaes, que fizeram um festejo em obsequio do novo governador, mandou-o este prender, e depois exiliar para as ilhas Molucas, em o anno seguinte de 1556. Sentiu em extremo

(1) Uma e outra cousa anda co' as suas Rhymas.

Camões tal prepotencia, de que se queixou pas Rhymas, dizendo :

A pena d'este desterro,

Que eu mais desejo esculpida
Em pedra, ou em duro ferro.

Navegando de Goa para Macau, á vista da foz do rio Mecon, na costa de Camboja, deu a nau em uns baixos, e fazendo-se pedaços sobre um d'elles (renovando o caso de Cesar) sahiu o nosso Poeta a terra, preservando com uma mão este seu poema Os Lusiadas. Elle mesmo narra esse infausto successo na bellissima estancia 128 do canto X. Eil-a :

Este receberá plácido e brando,

No seu regaço o canto, que molhado
Vem do naufragio triste e miserando,
Dos procellosos baixos escapado,

Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
N'aquelle, cuja lyra sonorosą

Será mais afamada, que ditosa.

N'essa paragem compoz (segundo se presume) as suas Redondilhas tam celebradas de Lope de Vega (1), e as quaes começam :

Sobolos rios, que vão

De Babylonia, me achei, etc.

Em que, paraphraseando o salmo 15o Super flumina Babylonis, faz erudita allusão entre as calamidades, que padeceram as Hebreus n' aquelle captiveiro, e as que elle, no seu actual desterro, experimentava.

Chegado Camões a Macau, assentou ahi residencia, e acquiriu algum cabedal no emprego de provedor-mor dos defunctos; o qual (conforme Mariz) lhe havia conferido o vice-rei, pera ver se o podia levantar da pobreza, em que sempre andava involto; mas a esta circumstancia parece oppor-se a razão do motivo; pois foi exiliado; e assim é mais verosimil

(1) Edição de Madrid, no prologo.

que obtivesse depois o tal emprego per outros meios, que não chegaram á noticia dos Escriptores da sua vida.

Cinco annos se demorou em Macau; e presume-se teve tambem alguma assistencia em Tidore, e Ternate; pois descreve, como testimunha ocular, as situações, e cousas notaveis d'essas ilhas, em o canto X dos Lusiadas; poema que elle bastantemente adiantou em todo aquelle tempo.

É tradição constante que passava muitas horas a trabalhar n' essa composição em uma gruta, a qual inda hoje se mostra em Macau, e é denominada : Gruta de Camões.

Ao fim d'esse periodo embarcou para Goa, onde chegou no anno de 1561, sendo vice-rei D. Constantino de Bragança, o qual succedera no governo a Pedro Barreto, em o dia 3 de septembro de 1558. Em obsequio d'esse fidalgo, que lhe mostrava affecto, compoz o nosso Epico as elegantes oitavas que começam :

Como nos vossos hombros tam constantes, etc.

Em as quaes celebra os heroicos feitos de seus progenitores, e as acertadas acções do seu governo. Mas, durando esse governo poucos mezes (pois findou no de septembro d'aquelle anno 1561, em que lhe succedeu D. Francisco Coutinho, conde de Redondo) experimentou logo o Poeta diversa fortuna; por quanto, imputando-se-lhe algumas culpas na administração do cargo, que exercitara em Macau, foi outra vez preso per ordem do novo vice-rei.

Havia ja purgado as pretendidas culpas, eis que um tal Miguel Rodrigues Coutinho, alcunhado Fios-seccos, por certa divida o mandou embargar no carcere, do qual escreveu ao conde vice-rei (estando este de viajem) o seguinte faceto memorial:

Que diabo ha tam damnado,

Que não tema a cutilada
Dos Fios-seccos da espada

Do fero Miguel armado?

Pois se tanto um golpe seu

Sôa na infernal cadeia,
(De que o demonio arreceia)
Como não fugirei eu?

Com razão lhe fugiria,

Se contra elle, e contra tudo,
Não tivesse um forte escudo
So em Vossa Senhoria.

Por tanto, senhor, proveja,
(Pois me tem ao remo atado)
Que antes que seja embarcado,
Eu desembargado seja.

Pôsto em liberdade, volveu Camões ao exercicio das armas, sem todavia abandonar o das Musas; por quanto, n' esse mesmo tempo compoz algumas de suas Rhymas, e terminou Os Lusiadas, no intuito de offerecer essa immortal epopea ao seu joven monarcha; para cujo fim resolveu trasladar-se a Lisboa.

Poz-lhe atalho porêm a essa determinação Francisco Barreto; o qual, com o cargo de capitão, passava a Sofala; instando-lhe fosse em sua companhia, e offerecendo-lhe por emprestimo duzentos cruzados para as provisões da viajem; o que elle acceitou, por intender que assim conseguiria mais facilmente o seu transporte para o reino, aguardando alli ensejo de embarcação.

Correspondeu-lhe, n'esta parte, o effeito á esperança; pois, a poucos mezes d'estada em Sofala, arribou áquelle porto (de passagem para Lisboa) a nau denominada Santa Fé; e n'ella Heitor da Silveira, Duarte de Abreu, e outros cavalheiros seus confidentes; os quaes brindaram o nosso Poeta com a conveniencia d'embarcação gratuita. Presentiu esse designio Pedro Barreto; e, para impedil-o, interpoz a restituíção dos duzentos cruzados; que, por serem ja gastos, difficultavam a partida; mas congregando-se os referidos cavalheiros, satisfizeram a dívida, e resgataram o devedor. Avultava tambem entre elles o nosso célebre historiador Diogo de Couto; o qual, n'essa occasião, contrahiu familiaridade com Camões; e este, após haverlhe mostrado o poema dos Lusiadas, incitou-lhe o desejo d'illustral-o com algumas annotações : o que o mesmo Couto executou depois; mas esse trabalho não sahiu a publico.

Chegou finalmente o nosso Poeta a Lisboa, no anno de 1569, governando ja el-rei D. Sebastião, e estando esta cidade afflictissima com um grande contagio; o que foi motivo

de Camões dilatar a publicação do sobredito poema quasi tres annos; pois so no de 1571, a 4 de septembro, obteve o privilegio real; e, no seguinté 1572, se acabou de imprimir com tanta acceitação do mundo litterario que, no mesmo anno, se reiterou a edição.

Passou depois o restante de sua vida, isto é, espaço de sete annos, em tal extremo de miseria, que lhe era necessario mandar o seu escravo Antonio de noite a pedir esmola, para remediar, no preciso sustento, ó a que não podia supprir a limitada somma de quinze mil reis annuaes, de que el-rei lhe fez mercê polos seus serviços, com obrigação de residir na corte.

M. Raynouard, na sua ode a Camões, traduzida per Francisco Manuel, celebrou, na seguinte estrophe, a fidelidade d'esse bonissimo escravo:

Se o caro nome teu não poude o Vate

Illustrar no seu metro,

No meu te hei por segura alta lembrança
De gran' renome, Antonio.

Sabe, que esse sublime sacrificio

Tem de achar nos meus hymnos

Ecco fiel, oh servidor magnanimo!

Nos devolvendos seculos;
Pregoando, que ennobrece esse teu zelo

Da mendiguez a opprobrio.

E Antonio Ribeiro dos Sanctos, na sua ode a Camões :

O sublime Cantor, que sobre as azas

Do sagrado Poema leva aos astros

Ó Gama illustre, e a lusitana empresa

Dos gangeticos mares;

Dizei, qual digna recompensa, oh Musas!
Teve o seu canto, de que se honra Appollo,
Que a tanto feito, a tanto heroe valente
Deu immortal memoria ?

Do rico imperio da gemmante Aurora,
Onde soltou aos ceos a voz divina,
Nem ouro, nem fulgente pedraria
Lhe deu a sorte avára.

De seus illustres meritos sublimes,

« AnteriorContinuar »