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sol, e verem se havia alli algumas povoações, ou se era deserta. Andando assi espalhados em magotes de uma parte pera a outra, foram dar com dous homens pretos de cabello revolto, como os de Guiné, um pouco mais baços, que estavam apanhando mel ao pe de uma monteira, com cada um seu tição na mão, pera os quaes se foram chegando a passo largo; e, postoque ambos com espanto e mêdo de verem gente tam desacostumada, se pozessem em fugida, tomaram os nossos um d'elles, e o trouxeram a Vasco da Gama; com que se recolheu alegre ás naus, cuidando que se intenderia com alguns dos linguas, que levava; mas em toda a frota não houve pessoa que o podesse intender senão per acenos: e, sem mêdo, nem receio, comeu, e bebeu de todas as iguarias, que lhe deram, com dous grumetes, a quem Vasco da Gama mandou que lhe fizessem boa companhia. E porque era ja tarde quando se recolheram, o negro ficou aquella noite na nau; e ao outro dia pela manhã o mandou vestir de pannos de côres, e por em terra, despedindo-se elle dos nossos mui ledo e contente da boa companhia que lhe fizeram, e sobre tudo, d'alguns cascaveis, continhas de crystallino, e outros brincos, que levava. Estes arreios com que este homem saiu em terra, fizeram inveja aos que o viram; porque ao outro dia vieram á praia quinze ou vinte d'elles: polo que, mandou logo Vasco da Gama poiar a gente nos bateis, com que se veio a terra, trazendo comsigo mostra d'especiarias, ouro, aljofar, e seda: o que os negros estimaram pouco, por não saberem o que era. Então lhe mandou dar cascaveis, ceptis, e anneis d' estanho, e outras cousas d'esta calidade; o que tomaram mui alegres, especialmente os cascaveis, polo som que faziam; e d'alli per diante começaram de vir á praia seguramente, e dar dos mantimentos, que havia na terra, a troco de outras cousas.

Com esta familiaridade, um homem honrado, per nome Fernan' Velloso, determinou, em companhia d'alguns d'estes negros, a que se ja fizera familiar, ir ver suas habitações, e modo que tinham em suas casas; e pera isso houve licença de Vasco da Gama: os quaes mostrando n' isso contentamento, o levaram comsigo, e de caminho tomaram um lobo marinho com que o festejaram; e como nem o guisado do lobo, nem o

modo da terra satisfizessem muito a Fernan' Velloso, acabado o banquete começou de caminhar pera onde as naus estavam. Os negros, que per ventura faziam conta de o trazerem comsigo mais tempo pera o festejarem ao seu modo, vendo-o tornar tam de subito, se vieram com elle athé á praia, mandando aos moços da aldeia que os seguissem com suas armas, que são dardos, e zagaias guarnecidos nos cabos de ossos, e pontas de cornos de alimarias, com que ferem, como se fossem de verdadeiro aço temperado. Isto parece que devia ser pera se defenderem, se Fernan' Velloso se queixasse da companhia, que lhe fizeram, e os nossos lhes quizessem, por isso, fazer mal.

Chegando Fernan' Velloso á praia, começou a bradar « que lhe acodissem; » mas por elle ser mui rebolão, assomado, e fallar sempre valentias, não se deram os nossos muita pressa, nem os negros lhe faziam mal, nem intendiam que pedia soccorro contra elles; comtudo como Vasco da Gama, que á mesma hora estava ceiando, soube o que passava, mandou fazer signal aos capitães pera o seguirem : os negros vendo os bateis vir com muita gente, recolheram-se pera onde os moços estavam escondidos com as armas, deixando Fernan' Velloso na praia, sem lhe fazerem nenhum mal. Vasco da Gama, cuidando que eram todos ja idos, saiu com a gente em terra, descuidado do que havia de ser; porque os negros parecendo-lhes que os nossos vinham com má tenção, se descobriram dos matos em que estavam embrenhados, e deram tam de subito nos nossos que, ás zagaiadas, os fizeram recolher aos bateis mais depressa do que desembarcaram. N'esta briga foi ferido Vasco da Gama, e outros tres da companhia.

Vasco da Gama se fez á véla uma quinta feira 16 dias de novembro; e, aos 20, dobrou o cabo de Boa-Esperança; a quem os marinheiros, por ser muito espantoso, chamam das tormentas. Ao domingo seguinte chegaram á aguada de San' Braz. Alli fez Vasco da Gama queimar a nau dos mantimentos, de que era capitão Gonçalo Nunes, por d'ella não haver necessidade.

D'essa aguada de San' Braz partiu a frota a 8 de dezembro, e navegando ao longo da costa, lhe deu um temporal, que a fez engolfar; o qual acabado, tornou a buscar a terra, e aos

16 dias chegou á vista de uns ilheos chãos; e aos 10 dias de janeiro de 1498, viram andar ao longo da praia muitos homens e mulheres grandes de corpo, e de côr baça. D'esta terra partiu a armada aos 15 dias de janeiro; e aos 25 dias chegou á bocca d' um rio grande onde ancorou.

Logo pela manhã viram vir pelo rio abaixo algumas almadias a remo com gente da mesma calidade, que os que atraz tinham visto. Estes homens, em chegando ás naus sem nenhum mêdo, nem receio, subiram pela enxarcia tam seguros como se tiveram conhecimento com os nossos; que vendo a limpeza d'elles, os deixaram entrar nas naus, onde foram bem festejados, tudo per acenos e signaes: por quanto Martin Afonso, nem os outros linguas os poderam intender.

Entre algumas pessoas de calidade, que vieram ver o Gama, veio tambem um mancebo, de quem, per acenos, com algumas palavras que fallava do arabigo, poderam os nossos intender que da terra onde elle era, vinham naus tammanhas como as nossas, e que não era muito longe d'alli. A qual nova foi de grande contentamento a todos; e por isso poz Vasco da Gama nome a este rio dos bons signaes. Ahi mandou dar pendor ás naus, e lhe adoeceram muitos dos nossos de diversas doenças, por a terra ser alagadiça, baixa, e lançar de si vapores grossos e maus.

Despois que as naus foram prestes, partiram d' aquelle logar aos 24 dias de fevereiro; e, ao primeiro de março, surgiram em Moçambique.

O Xeque ou capitão d'esse logar, per nome Çacoeia, mandou um presente de refresco a Vasco da Gama; e este mandoulhe em retorno alguns vestidos, e outras cousas. Çacoeia foi ver Vasco da Gama á nau, acompanhado de muitas almadias, e gente bem adornada com arcos, frechas, e outras armas que usam. Vasco da Gama o veio receber a bordo, e aos que com elle vinham, mandou dar vinho e fruita. N'esta merenda, entre outras practicas, que tiveram, perguntou Cacoeia a Vasco da Gama «se eram Turcos, se Mouros, e d'onde vinham; se traziam livros de sua lei, que lh'os mostrassem, e assi as armas que se mais usavam em sua terra » : ao que lhe respondeu, «que os livros de sua lei lhe mostraria despois; que, quanto ás ar

mas, eram aquellas com que os seus estavam armados. » Isto dito, pediu a Cacoeia pilotos pera o levarem á India; os quaes elle lhe prometteu, e lhe mandou dous. Sabendo porêm os Mouros que os nossos eram christãos, cobraram-lhe tal odio, que resolveram matal-os, e tomarem-lhes as naus; o que um dos pilotos descobriu a Vasco da Gama : polo que se fez logo á vela, e chegou a Mombaça; mas como o rei d'esta cidade lhe quiz armar traição, velejou pera a cidade de Melinde, diante da qual surgiu dia de Pascoa de Resurreição.

El-rei de Melinde era muito velho e doente; e, postoque desejasse de ir ver as naus, a má disposição lh'o estorvava: com tudo, seu filho mais velho, herdeiro do reino, que ja regia por elle, as veio ver no mesmo dia, despois de jantar, em uma almadia grande, acompanhado de gente nobre muito bem ataviada. Vasco da Gama, como soube da vinda do principe, mandou toldar e embandeirar o batel; e com doze homens dos mais vistosos, o veio receber antes que chegasse ás naus. O principe como vinha desejoso de ver os nossos de perto, em chegando ao batel, se lançou dentro, e foi logo abraçar Vasco da Gama sem pejo, nem ceremonias, perguntando-lhe, despois que se assentou, muitas cousas como homem prudente; no que despenderam um bom pedaço de tempo. Este principe pediu a Vasco da Gama que quizesse ir ver seu pae que, por ser muito velho e entrevado, não podia fazer o mesmo: e que, pera segurança d'isso, elle se iria com seu filho pera as ǹaus; do que se Vasco da Gama excusou, dizendo « que não trazia licença pera o fazer. »

Todo o tempo que alli esteve a armada, mandou o principe visitar a Vasco da Gama, e os outros capitães com refresco da terra: além do que, lhe deu um bom piloto Mouro Guzarate, per nome Malemocanaqua; e com o muito desejo que tinha de nossa amizade, tomou a fé a Vasco da Gama, que tornasse per alli; porque em sua companhia queria mandar um embaixador a el-rei de Portugal, pera com elle assentar paz, e amizade; com a qual, e muito amor dos da terra, partiram os nossos d'aquella cidade de Melinde uma terça feira 24 dias d'abril; e seguindo sua viajem pelo golpham que se faz da costa Ide Melinde athé a de Malabar, a uma sexta-feira 17 dias de

maio, viram uma terra alta, a qual o piloto Malemocanaqua não poude bem conhecer, por o tempo andar encoberto com chuveiros; mas ao domingo seguinte pela manhã viu umas serras, que estão juncto da cidade de Calecut; de que logo pediu alviçaras a Vasco da Gama, que lh'as deu boas, e de boa vontade : e uo mesmo dia foram surgir duas leguas da cidade de Calecut; d'onde despois alguns barcos os levaram ao surgidouro d'essa mesma cidade.

Um degradado, que Vasco da Gama mandou desembarcar, encontrou casualmente na cidade um Mouro, natural de Tunez, chamado Monçaide, com o qual voltou a bordo. Vasco da Gama, despois de abraçal-o, tomou d'elle largos informes acerca de Calecut, e do seu rei. Despois do que, mandou pedir ao mesmo rei uma audiencia, a qual este lhe concedeu.

Vasco da Gama deixou as naus encommendadas a seu irmão Paulo da Gama, e a Nicolau Coelho, dizendo-lhes «que se algum desastre lhe acontecesse em Calecut, e sentissem que podiam correr risco em esperar por elle, que se fizessem á véla, e tomassem outro porto do Malabar, pera ahi comprarem algumas especiarias, com que, e com as novas do que tinham descoberto, se tornassem ao reino; que elle não podia al fazer senão em pessoa ir ver el-rei de Calecut, e dar-lhe as cartas que trazia del-rei seu senhor; que era o remate do caminho, que tinham feito. >> E, por as naus não ficarem desprovidas de gente, não quiz levar comsigo mais que doze homens.

Na mesma hora que Vasco da Gama desembarcou, o fez o Catual tomar em um andor. D'este modo começaram a caminhar, Vasco da Gama no seu andor, e o Catual em outro; indo os Naires, e os nossos a pe ao redor dos andores, espantados de verem homens de tam longe, e de trajo tam desacostumado em todas aquellas provincias.

Assim chegou Vasco da Gama aos paços do Samorim; o qual o recebeu n' uma sala magnifica. Em Vasco da Gama entrando fez a reverencia requerida em tal logar; e o mesmo fizeram os outros Portuguezes: el-rei lhe acenou que se chegasse pera o catel em que elle estava, e o mandou assentar em um dos degraus do estrado em que tinha o catel, e aos outros mandou que fizessem o mesmo nos assentos que estavam ao redor da

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