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CAPITULO QUINTO

A nação portugueza

I

Substituir o maravilhoso christão ou medieval pelas fabulas da Antiguidade restaurada, não é em Camões, nem no Portugal quinhentista, um simples capricho litterario. Já procurámos determinar-lhe as origens moraes e philosophicas; já indicámos tambem de passagem o traço politico intimamente relacionado com ellas, e voltamos agora para assentar melhor um ponto essencial na comprehensão da epopeia portugueza.

Assim como o Paraiso biblico se transforma na ilha dos Amores, onde, em vez de peccado-original, achamos a propria apotheose do amor sexual; assim como, em vez de céo, vimos abertas as portas do Olympo, e Jupiter no throno em que nos autos medievaes se sentava Deus-pae; assim como, em logar dos córos de serafins e potestades da mythologia christan, dançam na terra e no mar as rodas de nymphas e sereias: assim tambem os heroes da

historia antiga tomam o logar dos campeões da Edade média. Ajax substitue Rolando; Alexandre, Carlos-Magno; e o combate epico de Roncesvalles, ou as façanhas do Cid, esquecem-se pelas tradições da guerra de Troia.

O pensar, o sentir, a ambição e o desejo universaes, eram para Portugal reproduzir os feitos e o genio d'aquelle povo, o romano, que rematára politicamente a missão da Antiguidade mais caracterisada ainda pela força e pela grandeza, do que pelo encanto e agudeza peculiares dos gregos. Por um acto de vontade collectiva, Portugal quiz ser e foi uma imitação de Roma; e esse acto de vontade, semente da sua energia heroica, deu physionomia propria a um pequeno povo que primeiro vivêra indistincto entre os varios reinos da Hespanha, apenas porventura caracterisado differencialmente pelo lyrismo da sua alma celtica, egual em todo o caso dos dous lados do Mondego, mais egual ainda em ambas as margens do Minho.

A vontade consciente e deliberada de reproduzir Roma, encontrando um apoio natural e quasi physico, primeiro na tradição apenas negativa da separação autonomica, depois na expansão maritima e nos dominios ultramarinos, em parte filhos da geographia, em parte consequencia das necessidades da independencia: essa vontade firme e decidida cria um sentimento correlativo, o patriotismo, elevando-o ás culminações de uma piedade quasi religiosa, exactamente como succedêra em Roma.

A missão de Roma na historia dos povos europeus foi conceber pela primeira vez a idéa abstracta de Nação, deduzindo-a do facto natural da familia. Nenhum povo no mundo attingira ainda este momento de constituição social: nem os orien

taes, principalmente os semitas, portadores da idéa de Imperio, que era uma aggregação apenas militar ou fiscal, sem unidade na ascendencia, na lingua, nas instituições civis: conjuncção mais ou menos transitoria de elementos ethnicos dispersos e a que a espada de um guerreiro conseguia impôr um dominio brutal, dando-lhe só uma apparencia de ordem; nem os occidentaes, principalmente aryanos, e sobretudo os gregos, que exgotaram a sua vitalidade politica, sem saírem da esphera rudimentar da aggregação em cidades ou republicas federadas. O laço de união federativa não tinha o caracter de abstracção bastante para se affirmar de um modo categorico; o principio organico da unidade não excedia as muralhas de cidade, e, na sua instabilidade, as ligas apresentavam o aspecto de constantes aggregações e desaggregações de moleculas sociaes em busca de um novo molde constitucional.

Não o achou a Grecia, e por isso o valor da sua historia, eminente no pensamento e na arte, é mediocre nas instituições e na politica. Agitando-se ás cegas n'um torvelinho, teve de submetter-se ao governo de Roma para conseguir a paz que é, afinal, a necessidade primaria das sociedades, e que ellas buscam quando procuram formulas constitucionaes.

Da ordem material dos imperios, da agitação esteril das cidades republicanas, extraíu, Roma um typo constitucional novo, a Nação, e com elle um sentimento egualmente novo, o Patriotismo. A nação, alargando a milhões de homens e a regiões inteiras, os vinculos sociaes da cidade, unificados e generalisados, apparecia como uma urbs ideal em que o laço federativo se transformava no accordo das instituições e na centralisação da auctoridade,

mantendo, na propria espontaneidade social, essa ordem que os imperios só attingiam esmagando a sociedade com a espada e com o imposto.

A verdadeira grandeza romana consiste n'esta invenção, a cuja sombra todos os povos civilisados viveram depois no mundo, animados por uma alma nova e mais ou menos vibrante. A toda a idéa corresponde um sentimento. Uma noção manifesta-se sempre ao mesmo tempo como idéa e como sentimento, como pensamento e como affecto. Se a idéa é como a raiz, penetrando com energia no mais fundo da alma intellectual para lhe sorver a força, o sentimento é como a flôr, desabrochando com effusões de graça na amplitude do espaço para o encher de piedade e encanto.

O patriotismo romano, e o portuguez, formado á sua imagem, foram das mais bellas flores que a piedade humana creou. O sentimento natural do amor, base da familia, e o sentimento natural de carinho pela terra em que nascemos, fundiam-se, cruzavam, gerando de si a flôr mystica do patriotismo: quasi religião que, sendo o amor da terra e o amor do sangue, é, porém, mais do que ambos, no orgulho do nome, no respeito da tradição, no enthusiasmo ardente por esse mytho que se nos gera nos espiritos, a Patria, e que chega a provocar culto como os dos deuses.

O reapparecimento do patriotismo antigo, depois do intervallo em que o torvelinho communalista da Edade média reproduzia os tempos federaes da Grecia, é um dos caracteres da Renascença; mas nenhum povo, durante essa época, deu aos seus sentimentos e idéas politicas, nem ás suas instituições reformadas, um caracter de reproducção mais fiel de Roma, do que o povo portuguez. Portugal

foi verdadeiramente, no corpo e na alma, uma segunda Roma; e foi o por decisão voluntaria e consciente de todos os seus espiritos superiores. O ardor quasi religioso do patriotismo nacional ninguem nos tempos modernos o excedeu. E nenhum portuguez excedeu Camões no amor pela patria, baluarte glorioso de um pensamento e de uma vontade, cujas muralhas pousavam firmemente sobre a rocha palpitante da paixão pela terra, pelo sangue e pela historia lusitana.

Toda a geração dos quinhentistas, Camões, Sá de Miranda e o proprio Gil Vicente, tão popular e tão archaico, estavam penetrados d'esta fé patriotica e da idéa de que o caracter portuguez era formado á imitação de Roma. Nas Cortes de Jupiter, Marte dil-o claramente:

E mais eu tenho cuidado
D'este reino lusitano,

Deus me tem dito e mandado
Que lh'o tenha bem guardado
Porque o quer fazer romano.

1

Nos Lusiadas, esta idéa é dominante. Venus diz da lingua portugueza que, ao ouvil-a, «com pouca corrupção crê que é latina». 1 Baccho «arde, morre, blasphema e desatina» porque «via estar todo o céo determinado de fazer de Lisboa nova Roma». 2 E Venus, entre os argumentos de defeza para os portuguezes, allega quanto «imitam as antigas obras de meus romanos». 3

Ora esta idéa, que poderia não passar de uma preoccupação litteraria, se porventura a não visse

1 C. 1, 33.-2 C. vI, 6-7.—3 C. Ix, 36.

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