Imagens das páginas
PDF
ePub
[ocr errors]

ESTANCIA III

Cessem do sabio Grego e do Troyano
as navegações grandes que fizeram ;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
a fama das victorias que tiveram ;
que eu canto o peito illustre lusitano,
a quem Neptuno e Marte obedeceram :
cesse tudo o que a Musa antigua canta
que outro valor mais alto se alevanta

I

Cessem do sabio Grego e do Troyano as grandes navegações que fizeram; cale-se de Alexandro e de Trajano a fama das victorias que tiveram ; porque eu canto o peito illustre, o varão luzitano a quem obedeceram Neptuno e Marte; cesse tudo o que cantou a Musa antiga, porque certamente se levanta e apparece agora outro valor mais alto e outro assumpto mais digno de ser cantado.

[ocr errors]

Vs. 1 e 2) Cessem, etc. Expressão elliptica (1) por: Cessem de ser tão celebrados, etc. Sabio grego, Ulysses (antonomasia, o nome commum e a periphrase em vez do nome proprio, vide «Figuras de estylo»), personagem grego, rei de Ithaca, uma das ilhas Jonias, hoje Théaki,-foi pae de Telémaco e marido de Penélope e um dos principaes heroes do cerco de Troya (2). Depois da tomada e incendio d'esta cidade, quiz voltar para junto de Pénélope, mas Neptuno (3), irrita

[ocr errors]

(1 Ellypse, vid, o nosso folheto «Figuras de estylo».

(2) Troya, Illion on Pergamo, cidade da Asia Menor. Sustentou contra os gregos um cerco que durou dez annos. Os restos da cidade foram descobertos por Schliemman (1822-1890), archeologo allemão, nos arredores da actual localidade de Hissarlick,

e hellenista

(3) Neptuno, (mythologia), deus do mar, filho de Saturno e irmão de Jupiter e de Plutão. No seu palacio, ao fundo dos mares, sustinha elle os cavallos de crina d'ouro que o arrastavam dentro d'um carro por sobre as aguas. Era casado com Amphitrite. Ao seu nome se ligam duas recordações literarias: 1.° Quos ego (phrase suspensiva čujo

sentido equivale a eu deveria ...) palavras em forma de reticencia que

...

e

do contra elle, fel-o vaguear sobre as ondas, errante durante dez annos, fazendo-lhe ver constantemente, por uma especie de miragem, a sua querida Ithaca, que se desvanecia no momento em que elle julgava alcançal-a. Compara-se a Ithaca uma coisa ardentemente desejada atraz da qual se corre que escapa no instante em que se cuida deitar-lhe a mão. Homero (1), no seu poema epico a «Odysseia» (2) narrou aquella longa viagem de Ulysses. Como applicação litteraria e em sentido figurado, se usa, por isso, chamar-se-odysseiaa toda a narrativa d'uma viagem aventurosa, toda a serie de acontecimentos bizarros e variados: a sua vida foi uma verdadeira odysseia. Gabriel Pereira de Castro, fallecido em 1632, escreveu um poema em 10 cantos, a « Ulysseia ou Lisboa edificada», tendo por assumpto a fundação de Lisboa, attribuida a Ulysses. Alguns litteratos, contemporaneos de G. Pereira de Castro, quizeram-no collocar acima de Camões, phantasia que a posteridade não confirmou. O poema é escripto em moldes classicos, regularmente metrificado, mas eivado de gongorismos (3). Gabriel Pereira de Castro ainda

Virgilio (a) (Eneida, I, 135) attribue a Neptuno irritado contra os ventos desencadeados sobre o mar, e que, na bocca d'um superior, denotam a colera e a ameaça :- 2. o seguinte verso de Lemierre, poeta tragico francez, (1723-1793), do seu poema sobre o «Commercio»: Le trident de Neptune est le sceptre du monde, para exprimir, sob uma forma figurada, que o imperio do mar dá o imperio do mundo.

(1) Homero, celebre poeta grego, considerado como sendo o auctor da Illiada e da Odysseia. Sete cidades da Grecia disputavam entre si a honra de terem sido o seu berço natal. Representa-o a tradição velho e cego, errando de cidade em cidade e recitando os seus versos; mas, principalmente desde as discussões levantadas por Vico (philosopho italiano, 1668-1744) e Augusto Wolf (philosopho e erudito allemão, 17591824), chegou-se ao ponto de contestar-se a sua existencia e a affirmar-se que a Illiada e a Odysseia não são mais que o resumo dos cantos mais populares dos antigos dedos (poetas cantores da epoca primitiva, entre os gregos), postos em ordem pelos diascevastos (grammaticos do tempo de Pisistrato (tyranno de Athenas).

(2) De «Odusseus» que, em grego, quer dizer Ullysses.

(3) Gongorismos, exageração de ornatos que se introduziu na literatura hespanhola como imitação do estylo de Gongora, e que consiste em trocadilhos, metaphoras e pensamentos demasiadamente affectados. Da

(a) Virgilio, o mais celebre dos poetas latinos, auctor da Eneida, das Georgicas e das Bucolicas (70-19 J.-C.),

escreveu algumas obras juridicas, que lhe deram um logar honroso entre os jurisconsultos.

Sabio avisado, prudente, como o provou em varios episodios da sua vida.- O Troyano (antonomasia, o nome commum pelo nome proprio) é Enéas, principe troyano e filho de Anchises (1) e de Venus (2). Arrasada Troya, veio á Italia, no Latium. (3) As suas navegações e proezas foram cantadas por Virgilio, o mais celebre dos poetas latinos, na sua

Hespanha, esta feição literaria passou para Portugal implantando entre, nós a chamada Escola gongorica, conhecida tambem pela seiscentista, que durou pelo seculo XVII.

(1) Anchises, principe troyano. Por occasião do incendio de Troya, Enéas levou-o aos hombros até aos navios, Muitas vezes se faz allusão em litteratura a este exemplo d'amor filial,

re

(2) Venus (Myth.), em grego Aphroditê, era a deusa da formosura, e personificava a fecundidade da natureza. A sua origem é contada de diversos modos. Homero diz que ella era filha de Jupiter e de Dionêa, nympha do Oceano; segundo Hesiodo (poeta grego do sec. IX ou do VIII a. J-C., nasceu da escuma do mar. Era mulher de Vulcano, e teve por filhos: Hymeneu, que presidia aos casamentos; Priapo, deus dos jardins, e Cupido, ou o Amor (gr. Eros). Este ultimo era presentado sob as feições d'uma linda creança, com azas, armado d'um arco, trazendo no hombro uma aljava carregada de flechas e tendo sobre os olhos uma venda. Venus foi a protectora do joven Adonis, personificação da primavera, a quem Marte fez despedaçar por um javali e a deusa metamorphoseou em anémona.-Os antigos figuravam Venus sempre acompanhada d'um cortejo de divindades secundarias, das quaes as mais importantes eram as Horas e as tres Graças: Aglaé, Thalia, e Euphrosina. A loura Venus era particularmente adorada na ilha de Cythera (hoje Cerigo, no Archipelago), e na ilha de Chypre, onde ella possuia em Amathonte, em Paphos e em Idalia, templos celebres rodeados de deliciosos bosquedos. Representavam a Venus sentada n'um carro formado d'uma concha marinha e puchada por pombas, cingida por um magnifico cinto, presente de Jupiter, que ainda Varias estatuas celebres d'esta deusa mais realçava a sua formosura. ainda hoje existem e se guardam como verdadeiras preciosidades, entre outras: a Venus de Medici (em Florença), a Venus Cally pigia (em Napoles), a Venus de Capua (em Napoles), e a Venus de Milo, descoberta n'esta ilha (no Archipelago) em 1820, e que presentemente se admira n'uma das salas do Museu do Louvre, em Paris.

[ocr errors]
[ocr errors]

(3) Latium, antiga região da Italia central, situada entre a Etruria e a Campania, ao longo do mar Tyrrhêno.

maravilhosa epopeia a «Eneida». Fizeram, obraram, executaram, realizaram, puzeram em pratica.

Vs. 3 e 4)-Cale-se, extinga-se.--Alexandro, do grego Alexandros, d'onde modernamente Alexandre. Refere-se o poeta a Alexandre-Magno, rei da Macedonia e afamado guerreiro e conquistador dos tempos antigos (356-323 a. J.-C).-Trajano, imperador romano (98-117), foi vencedor dos Dacios e dos Parthas, e um excellente organisador. Em sua honra, se erigiu em Roma, em 112, a celebre Columna Trajana, monumento archeologico de primeira ordem. Tiveram, alcan

çaram.

Vs. 5 e 6) Que eu canto, porque eu vou celebrar em verso, • peito illustre lusitano, isto é o illustre varão portuguez, o heroe do poema, referindo-se a Vasco da Gama, como Virgilio cantou a Eneas e Homero a Ulysses. É a figura synedoche (a parte pelo todo).=Neptuno (1) e Marte (2), falsos deuses que presidiam, segundo a mythologia, o primeiro ao mar, o segundo á guerra. Aqui, por Neptuno, entende o poeta os mares, e, por Marte, as armas (metonymia, o inventor pelo invento), e ambas as coisas obedeceram a Vasco da Gama, porque, por mais que as tormentas se desencadeassem contra elle, por mais que uns e outros povos intentassem destruil-o pelas armas, elle conseguiu livrar-se das primeiras e vencer os segundos.-Obedeceram, se submetteram, como ao mais forte.

[ocr errors]

(1) Vide nota (3) pag. 14.

(2) Marte (Myth.), em grego Ares, era filho do Jupiter e de Juno, era entre os gregos o deus da guerra, Quando os Romanos adoptaram a mythologia grega, deram-lhe o nome de Marte, que era o d'um dos seus antigos deuses que personificava a força vegetativa que irrompe na primavera. Havia em Athenas uma collina d'Ares chamada o Areopago (gr. pagos, collina) onde funccionava um celebre tribunal tambem designado pelo nome de areopago. Conta-se que Marte, tendo motivo de queixa contra um dos seus guardas chamado Alectyon (gallo), que se deixára surpreender, o transformou em gallo, o qual desde esse tempo annuncia com o seu canto a approximação do dia. Este deus é representado sob a apparencia d'um guerreiro armado dos pés á cabeça, tendo junto de si um gallo. Os Romanos consideravam-n'o como o pae

de Romulo, seu primeiro rei.

[ocr errors][ocr errors]

Vs. 7 e 8) Cesse tudo, etc., interrompa-se tudo, acabe tudo, ponham-se de parte o que a o que a musa antigua canta, todos os feitos que a poesia antiga celebra. - Musa, era 0 nome de cada uma das 9 deusas da fabula que presidiam ás artes liberaes, sobretudo á eloquencia e á poesia. Eram filhas de Jupiter (1) e de Mnemosina (2). Presidiam Clio á historia, Euterpe á musica, Thalia á comedia, Melpoméne á tragedia, Terpsichore á dansa, Erato á elegia, Polymnia á poesia lyrica, Urania á astronomia, e, finalmente, Calliope á eloquencia e á poesia heroica. Habitavam com Apollo (3) o Parnaso,

[ocr errors]

(1) Jupiter (Myth), genitivo latino Jovis; grego Zeus, Filho de Saturno, personificava primeiro a parte superior do ar e era o deus dos phenomenos atmosphericos. Mais tarde foi considerado como o deus supremo, o pae dos deuses e dos homens. Sua mãe Rhéa, tendo-o subtrahido á vorocidade de Saturno, que promettera aos Titans nunca criaria filho algum e porisso devorava todos os que sua mulher ¡a dando á luz, Rhéa o occultou n'uma caverna do monte Ida (em Creta, hoje Candia) onde Jupiter foi amamentado pela cabra Amalthéa dado pelas nymphas, ás quaes elle mais tarde por gratidão, concedeu um dos córnos d'esse animal, que se tornou depois na celebre cornucopia, oụ corno da abundancia por ter a virtude de produzir quanto as nymphas apetecessem. Jupiter, tendo fulminado os Titans e tendo-se vingado de Prometheu, partilhou o seu imperio com os seus dois irmãos; reservando para si o Ĉeu e a Terra, confiou o Mar a Neptuno e o Inferno

e cul

a Plutão.

(2) Mnemosina (Myth.) ou a deusa Memoria. Jupiter a amou e d'ella teve as musas, nascidas sobre o monte Pierio 'na Thessalia).

O deus

(3) Apollo ou Phebo (Myth.) filho de Jupiter e de Latona (a noite). No ceu se denominava Phebo por causa de conduzir o carro do Sol, tirado por quatro cavallos, e na terra Apollo. Tinha-se como da poesia, da medicina, da musica e das artes; era o chefe das musas e com ellas habitava os montes Parnaso, (na Phocida), Helicon, (na Beocia), Pierio (na Thessalia), as margens do Hippocrene (fonte junto do monte Helicon) e do Permesso (rio, cuja corrente começa da raiz do monte Helicon), onde ordinariamente pastava o cavallo Pégaso, do qual se servia para montar. Fulminando Jupiter Esculapio deus da medicina, filho de Apollo e de Coronis), por este haver resuscitado Hippolyto (filho de Theseo e de Antiope) Apollo matou os Cyclopes que The tinham ministrado os raios. Esta acção foi causa de ser expulso do ceo, e, no tempo do seu desterro se refugiou em casa de Adméto, rei da Thessalia, cujos rebanhos guardou. Alguns annos depois, Jupiter the perdoou e restituiu-lhe o logar que lhe competia no Olympo. Além de Esculapio, contava Phaeton entre os seus filhos.

« AnteriorContinuar »