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cheia de bondade e meiguice em horas de quietude e despreoccupação, se me apresentava tão clara e distincta, que tudo quanto se passara desde o fatal dia 15 de Novembro tomava visos de simples sonho e pesadello, soffridos com os olhos abertos e os sentidos acordados. . .

Alli, na mysteriosa impassibilidade do livro, á espera de consulta, dezenas de milhares de obras davam incontestes provas do amor, da dedicação, do apreço e estremecimento, que o augusto monarcha americano consagrava ao estudo e á meditação.

Alli, naquellas salas, innumeras vezes passcara, de ponta a ponta, o soberano na solidão das noites, sózinho, buscando solução ás difficuldades que se antepunham á marcha do Brasil e que o seu zêlo, a sua experiencia, o seu patriotismo, em continua vigilia, conseguiam sempre remover.

Alli, no meio dos numerosos e mudos companheiros de trabalho, unicos validos que jamais teve, é que achara consolo e alento em momentos bem amargos, vendo deturpadas as suas melhores iniciativas, sabendo-se alvo de mil interpretações falsas e odiosas, preso ao silencio, sem poder descer á arena das discussões, quando poucas palavras bastariam, talvez, para tudo explicar, tudo desfazer, annullando as injustiças dos espiritos invejosos e orgulhosos e dirigindo a bom caminho os irresolutos e mal orientados!

Naquelle enorme acervo de livros, que abrangem todas as disciplinas, quantos e quantos volumes não estão com as margens todas tomadas de notas escriptas com lettra miuda e apertada? E so nisso, que mundo de impressões a recolher, a historia íntima de todo um reinado de dez lustros!...

De que valeu, porém, tammanho e tão continuo labutar, tão insaciavel ancia de saber, tão largo circulo de conhecimentos sempre e sempre ampliado? No que deram todos os conselhos ministrados pela sciencia accumulada de todos os seculos?

Melhor não lhe teriam servido, ao moderno Marco Aurelio, em vez daquelles 60.000 volumes, de que se rodeou, 6.000 baionetas, commandadas por um general sincero e fiel?

Quem o apcaria então do throno, em que se mostrara tão desinteressado e magnanimo?

Quem lhe apontaria o caminho do exilio, fazendo-o passar como dolorosa interrogação por deante de toda a nação brasileira, que lhe respondeu com a mudez da inercia, embora sentisse a consciencia aniquilada e as faces rubras de vergonha?

Quem o separaria daquelles companheiros de existencia, muitos desde os primeiros dias da meninice solitaria, sem pae, sem mãe, quando fóra do palacio rugia o furor das revoluções, essas sim, bem impetuosas, bem leaes no seu desencadear?

Ah! os Brasileiros daquellas éras épicas!. . .

Que elevação de sentimentos, que comprehensão dos interesses da patria!

Com que soffreguidão faziam dos corpos barreira ás tentativas criminosas, poupando ao imperador menino até o sobresalto das agitações externas !

O Brasil inteiro se convulsionava nas garras da anarchia, e, entretanto, naquellas salas só se ouvia a licção dos mestres ou o folguedo de tres innocentes crianças.

E cada estadista arcava braço a braço com a revolução; c cada Brasileiro, amante da patria, era um baluarte ás instituições juradas!

Porventura mentiram ellas ás esperanças e á confiança dos nossos antepassados, a mais illustre mentalidade das gerações que temos tido?

Acaso lhes tocára, a estas, por partilha alma de lacaios?
Que o diga hoje a consciencia dos republicanos velhos e ho-

nestos...

Quanto na physionomia infantil do imperador se desenhavam já os precoces signacs da preoccupação!

Em duas graciosas estatuetas do muscu de S. Christovam, vemos d. Pedro II criancinha, tendo a faixa do Cruzeiro a tiracollo, a brincar, distrahido e abstracto, com folhas de loureiro.

Quantas recordações commoventes naquellas collecções, quantas preciosidades!

São nada menos de tres as bibliothecas: a da imperatriz, a do despacho ministerial e a do imperador, no segundo andar de

S. Christovam.

Por toda a parte as homenagens do mundo inteiro a cincoental annos do mais honrado e nobilitante reinado! Por toda a parte o eloquente P. II. encimado pela rutilante coroa! Por toda a parte, porém, tambem signaes bem evidentes do roubo e da rapina, depois das terriveis scenas que findaram no Alagoas.

Falou-se no desapparecimento de brilhantes valiosissimos da Coroa Imperial, de joias do maior valor como a espada e a liga da ordem da Jarreteira e do mesmo modo de não poucos objectos de elevado cabedal. Até coroasinhas e monogrammas em ouro, alem de muitas moedas e amostras mineralogicas desse metal, facilmente tentaram a cobiça, que a gosto poude cevar-se naquellas riquezas amontoadas.

Que importa, porém, tudo isso?

Não arrancaram o imperador do scio da patria; não lhe trancaram as portas da terra natal, que elle tanto serviu e acima de tudo estremece?

Que valem perdas materiaes, por maiores que sejam, quando a alma foi malferida e tem de curtir as angustias da clamorosa injustiça e da negra ingratidão?

Ah! para tanto sim, para tudo isso é que serviram o estudo, a meditação, aquelles livros todos, aquella immensa bibliotheca! Eis o que não dariam jamais milhares e milhares de bai

onetas:

a calma, a serenidade, a paz da consciencia, a confiança na posteridade, o exquecimento da offensa, ( amor intangivel ao Brasil, todo esse grandioso pedestal em que se altea a figura do sr. d. Pedro II!.

Que contraste! Ao passo que o Congresso discutia si a Nação devia como attenuação de crudelissima iniquidade enviar ao mais illustre dos exilados, que algum dia houve, 120:000$ annuaes, cedia elle a essa Nação mais de 2.000:000$ com o maior desprendimento, a mais admiravel largueza e espontaneidade!

V

A PARTIDA DA FAMILIA IMPERIAL

Do barão de Jaceguai ouvi a seguinte narrativa, a 2 de Janeiro
de 1890, e que immediatamente, com toda a fidelidade lancei no meu
Diario:

-

<< Eram duas horas da madrugada, e o imperador parecia re-
solvido a não embarcar. « Não sou nenhum fugido», dizia com
insistencia Sua Magestade « De certo não é, concordou o
sr. barão, mas a hora indicada parece a mais conveniente. Que quer
dizer ficar Vossa Magestade, com sua augusta familia, sujeito á
curiosidade banal de toda uma população agglomerada nos telhados,
nos cács e nos morros para ver a sua partida? Ou poderão dar-se
violentas manifestações afim de se obstar o embarquee neste caso
correrá muito sangue esse sangue brasileiro que Vossa Mages-
tade poupou sempre tanto, sendo talvez víctimas pessoas da sua
affeição; ou então só apparecerão indifferença e pouco caso, e o seu
coração ficará pungentemente ferido, ao presenciar tanto abandono
e tamanho desapêgo ».

O imperador, deixando caïr a cabeça sôbre o peito, disse
afinal com os olhos a meio cerrados e depois de uma pausa :

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«<O sr. tem razão; eu parto.» E a esperar que todos
se apromptassem, poz-se a conversar em voz baixa com o general
barão de Miranda Reis.

« Desceu as escadas do paço da cidade com toda a calma, como
em dias de cortejo, dando o braço á princeza d. Isabel, seguindo-se
a imperatriz, que vinha arrimada ao sr. conde d'Eu. Os soldados em
baixo apresentaram armas e elle tirou o chapéu, correspondendo á
continencia, e assim fez a quantos o saudaram.

« Ao embarcar, apressando alguem a entrada na lanchinha, o
imperador repetiu varias vezes: « Nada de precipitação; não
vamos fugindo. » Levava jornaes e revistas debaixo do braço.

« O sr. conde d'Eu viera do paço ao cáes Pharoux a pé, tendo
dicto: «Não preciso de carro, irci com o Jaceguai e o Mallet ».

«No angustioso momento da partida Sua Magestade a imperatriz chorava convulsamente. « Resignação, minha senhora », aconselhou com meiguice o barão de Jaceguai. « Tenho-a e muito, respondeu ella; mas a resignação não impede as lagrimas. E como deixar de verte-las, ao sair desta minha terra, que nunca mais hei de ver?» E beijou muitas vezes as poucas senhoras que alli estavam, no rosto e no collo.

Os criados do paço, debulhados em pranto, despediam-se ruidosamente n'um desespèro indizivel. Todos choravam, sem excepção dos marinheiros da lancha.

O imperador era o unico que mostrava serenidade e olhos cuxutos, mas de momento a momento concertava a garganta, patenteando que a custo sopitava immensa commoção. »

VISCONDE DE TAUNAY.

VI

NOTAS DE D. PEDRO II ÁS «JAPONNERIES D'AUTOMNE »

DE PIERRE LOTI

No verão de 1889 leu cuidadosamente o segundo imperador -e com o maior prazer as « Japonneries d'Automne » de Pierre Loti num exemplar, que o visconde de Taunay lhe emprestara. Devolveu o volume annotado, como tanto era o seu habito.

Não são muito numerosas as notas, mas teem interesse, sobretudo tractando-se de quem se tracta.

A' pag. 43 diz o escriptor francez falando dos templos do deus do arroz em Kioto. A'leurs grillages de bois sont accrochés, noués partout, des morceaux de papier contenant des prières ou des sorts. Annota o imperador: «como nas sepulturas dos santões musul

manos».

A' pag. 45 conta Loti: La nuit tombée il y a dans un quartier spécial, l'Exposition des femmes, qui est une chose amusante. Addiu á margem o monarcha: «No Cairo tambem ha».

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