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comigo Manuel Victor de Sequeira escrivão da camara que o escrevi. Antonio José Ferreira Rocha, José Pamplona Moniz Corte Real, Joaquim Pereira de La Cerda, Francisco Peixoto de Lacerda Costa Rebello, João Carvalho de Medeiros, José Maria de Oliveira e Francisco Pacheco de Mello de Mariz Sarmento.

(Macedo-Hist. das Quatro Ilhas, T. 2.o, p. 608-617.)

XXXIV

ANNO DE 1867

ERUPÇÃO SUBMARINA JUNTO Á ILHA TERCEIRA

(Traducção)

«No primeiro de junho de 1867 as ilhas Terceira e Graciosa, nos Açores, foram abaladas por trepidações da terra, em breve seguidas por uma verdadeira erupção vulcanica. »>

«M. Fouqué, o joven sabio que parece ter recebido plenos poderes da Academia das Sciencias para a reprezentar junto d'estes grandes phenomenos da natureza, não deixou de ir fazer a sua visita obrigada aos logares em que appareceo esta nova erupção. Mas é principalmente na relação apresentada á Academia pelos Snrs. SainteClaire Deville e Jansen (1), composta segundo as narrativas das testemunhas oculares, que se acha a descripção d'este importante pheno

meno.»

«Durante os seis primeiros mezes do anno de 1867 sentiram-se nas ilhas Terceira e Graciosa alguns abalos, mais ou menos fortes. A partir de 25 de maio tornaram-se tão frequentes os tremores de terra, que só n'este dia se contaram cincoentà e sete. De 25 de maio ao primeiro de junho a agitação do solo era continua e particularmente sensivel na Serreta e no Raminho. Algumas pedreiras desabaram com estrondo, o terreno fendeo-se, e quasi todas as casas soffrerão prejuizos ou ficaram arruinadas. Tão somente na freguezia da Serreta oi

(1) M. M. Deville e Jansen vieram egualmente aos Açores para estudar aquella erupção, mas chegaram tarde.

tenta casas foram destruidas e as restantes abaladas. Felizmente não houve a deplorar nenhum accidente grave, unicamente algumas pessoas foram levemente feridas. >>

«No primeiro de junho, pelas oito horas da manhã, houve um violentissimo tremor de terra, que foi seguido, no resto do dia, por muitos outros mais fracos. Pelas dez horas da noite rompeo a erupção em pleno mar, à distancia da costa de pouco mais ou menos de 5 kilome tros. »

«Começou este phenomeno por detonações semilhantes a descargas de artilleria. Toda a superficie do mar ficou coberta com uma substancia amarrellada, que se julgou ser enxofre, sem que disso haja certeza, por que a tal materia não foi recolhida. No dia seguinte (2 de junho) pelas 6 horas da manhã as substancias gazosas, que se desenvolviam no mar, produziam uma especie de ebullição, fraca ao prin cipio e com largas intermitencias, mas que depois cresceo progressi

vamente.»>

«Pelas 9 horas da noite do mesmo dia 2, vio-se tres vezes, n'um quarto d hora, elevar-se um jacto d'agoa a grande altura, em um ponto entre a erupção e a costa. Nos seguintes dias, grandes penedos se elevavão ao ar a certa altura, no meio de repuxos d'agoa e de vapores.»

«As boccas da erupção estavam assim dispostas: a principal estava no centro, e em redor mais sete outras collocadas muito irregularmente lemitando um espaço de tres a quatro legoas de circuito, e de uma legoa de diametro. No centro a ebullição gazosa era continua, tornando o mar branco, emquanto na circumferencia elle apparecia es curo. Julgou-se por algum tempo, que as pedras lançadas durante muitos dias, produzissem um ilheo ou banco, mas nada disto succedeo.»

«A erupção foi acompanhada de um cheiro muito pronunciado de acido sulphydrico, a ponto que algumas vezes era muito difficil supportal-o junto à costa »

«Quando o phenomeno vulcanico attingio a maxima intensidade. offerecia um espectaculo verdadeiramente imponente. N'uma linha de perto de 2 kilometros, sahiam com impetuosidade, a distancia umas das outras, seis enormes columnas d'agoa, que cedendo ao impulso do vento, a uma certa altura, formavam uma nuvem branca e espessa. Do pé de uma destas columnas, viam-se grandes penedos expellidos pela cratera elevar-se e cahir pezadamente. Este terrivel jogo da natureza era acompanhado de detonações semelhantes ás da artilhe ria. »

«O dia 5 de junho foi aquelle em que o phenomeno apresenton a maxima intensidade. Depois a projecção de graudes blocos cessou e gradualmente tudo o mais diminuio. »

«No dia 7 já não se viam sahir pedras, e de tarde tambem os

jactos d'agoa e de vapor tinham cessado. A parte activa da erupção tinha desapparecido. »

«As ondulações do solo diminuiram egualmente, mas sem todavia cessarem. As mais notaveis tiveram logar nos dias 12 e 13 de junho. 18 d'agosto houve ainda um tremor de terra bastante violento. »

«M. Fouqué chegando a 20 de setembro á Terceira. fez uma excursão ao longo da costa sudoeste da ilha. Tratando primeiro que tudo, de reconhecer se o phenomeno vulcanico tinha produzido alguma elevação sensivel no fundo do mar, achou o fundo a 205 braças, no centro da erupção, a 5 kilometros da ilha. As sondagens effectuadas, n'este e n'outros poutos vizinhos. mostraram que o fundo do mar não subira por effeito da erupção, visto encontrarem-se as mesmas profundidades apontadas no mappa inglez. »

«Já então não existia anomalia alguma n'aquella parte do mar. que fora o theatro da erupção vulcanica, tam somente cada quatro ou cinco minutos, desenvolviam-se mui irregularmente algumas bolhas gazosas, n'um raio de dez metros aproximadamente. M. Fouqué teve grande difficuldade em recolher algumas d'estas bolhas de gaz, que appareciam da maneira mais caprichosa. Só conseguio encher um pequeno tubo, depois de cinco horas de trabalho, durante as quaes esteve inclinado fora da borda de uma lancha, para sustentar um funil de boca para baixo, destinado a recolher os gazes.»

«Cinco centimetros cubicos de gaz, eis tudo quanto M. Fouqué pode recolher no seu tubo, por isso a analyse chimica, que fez, é muito incompleta. Por ella verificou: a ausencia do acido carbonico; a presença do oxigenio em proporções notaveis; (15 a 20 por 100) e a combustibilidade do residuo. »

«Esta ultima indicação de M. Fouqué é infelizmente muito vaga. O que era o tal residuo combustivel? hydrogeneo carbonatado? hydrogenio puro? Igualmente se podia julgar que fosse hydrogeneo sulfurado, se este gaz não fosse soluvel na agoa.»>

É extremamente deploravel que M. Fouqué fizesse uma viagem aos Açores, para unicamente obter um resultado tão incompleto, com relação à natureza dos gazes que sahiam como ultimos vestigios da bôca vulcanica. Por outro lado, tambem não se pode conhecer qual a materia amarella, que com abundancia, cobrio a superficie do mar no momento da erupção, para se reconhecer se era enxofre, um sulfureto metallico, ou qualquer outro corpo. Assim, faltaram as verdadeiras ba zes de exame scientifico para a historia do grande phenomeno vulcanico produzido recentemente nas costas Açorianas.

(Louis Figuier-L'Année Scientifique et Industrielle, 42.o Année 4867-p. 312 346.)

Correspondencia entre os governadores civis dos districtos de Angra do Heroismo é da Horta por occasião de uma erupção volcanica no mar proximo á ilha Terceira em 1867.

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor.

Tendo havido na noute de um para dous do corrente ao N. O. mg. da freguezia da Serreta desta ilha, uma erupção volcanica que se conserva em actividade e que occupa uma zona de mais de duas milhas e meia, na direcção oeste leste, cumpre-me levar este facto ao conhecimento de vossa excellencia afim de que por todos os meios ao seu alcance, o faça chegar ao conhecimento dos navegantes, que se dirijam para estas paragens.

Depois de fortes abalos terra, que produziram graves prejuisos em algumas freguezias desta ilha rompeu o mencionado volcão ao N. O. mg. da Serreta a distancia de nove milhas de terra, occupando o seu principal foco de actividade uma extensão de mais de duas milhas e meia, na direcção oeste leste.

Tendo sido observado por pessoas competentes, conheceu-se que a sua latt.-N. é de 38 graus, 52,' e a sua long. O. G. é de 27 gráus, 52, e que está na linha recta desta ilha com a Graciosa.

Alem d'isto observou-se tambem, que está expellindo constantemente enormes porções de lava, a qual, pela sua accumulação pode formar um novo ilheu, que será um imminente perigo para os navegantes, se d'elle se não acautelarem; que em differentes pontos apparecem alguns jorros de vapor, e d'agua em ebullição, e que a distancia se sente um pronunciadissimo cheiro de enxofre, que pode produzir a asfixia a quem se aproximar do vulcão.

E' pois para evitar algum sinistro, que peço a v. ex.a se digne fazer publico este acontecimento, levando-o tambem ao conhecimento dos nossos consules nos differentes paizes, para onde porventura saiam alguns navios d'esse porto, visto serem d'ahi mais directas e frequentes as relações do que as d'esta ilha. Como egualmente é possivel, que d'esse porto saia algum navio que, directa, ou indirectamente, possa levar ao conhecimento do governo este importante acontecimento; peço a v. ex.. a bem do serviço publico, que, na primeira opportunidade se sirva remetter-lhe o incluso officio, ou que o dirija a algum nosso agente consular para que elle o faça chegar ao poder do gover

no.

Deus guarde a v. ex. Governo civil d'Angra do Heroismo, 6 de junho de 1867.

mo

Ill.mo e ex.m sr. governador civil do districto da Horta.

O governador civil
Antonio Gourea Osorio.

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Accuso a recepção do officio de v. ex.a com data de 6 do corrente e deploro os acontecimentos que me participa terem tido logar ao oeste d'essa ilha pela explosão de um vulcão nas suas immediações.

mo

No momento actual não ha embarcação alguma para qualquer ponto da Europa por onde eu possa enviar o officio de v. ex. ao ex. ministro do reino, o que não deixará de ter logar brevemente pela affluencia de muitos navios, principalmente vapores, que n'esta quadra tocam n'este porto.

Tenho a satisfação de me achar habilitado com meios abundantes nos cofres publicos, assim como com abundancia de cereaes. Se v, ex.a d'uns ou d'outros tiver necessidade para occorrer ás urgencias da actualidade, não hesitarei um momento em compartilhar com v. ex.a a responsabilidade de lhe enviar algumas sommas ou cereaes, por isso que a salvação publica é o grande codigo que nos habilita para tomar todas as providencias no meio das grandes calamidades.

Deus guarde a v. ex.-Governo civil da Horta, 8 de junho de 1867.

O Conselheiro governador civil.

Antonio José Vieira Santa Rita.

(Macedo Hist. das Quatro Ilhas, T. 2.o, p. 624-626.)

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