Imagens das páginas
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substitue-se á biographia; e a imagem verdadeira do homem que foi some-se, deixando em seu logar a figura que o povo abstrahiu da illuminação dos proprios corações.

Não admira, pois, que nos proprios, ao pretender pôr de pé a figura de Canões, obedecessemos á vibração transmittida, e que, amalgamando a lenda com a historia, déssemos porventura significado e proporções demasiadas a factos e estados d'alma comesinhos. Talvez a nossa vista amplificasse as proporções da imagem, impressionada pelo prestigio que essa imagem exerce nas imaginações. Talvez; mas se assim fôr, não nos arrependemos d'essa culpa. Por patriotisivo, em primeiro logar; e por amor á critica, em segundo.

Por amor á critica, sim, porque a verdade, quando se trata dos phenomenos indefinidos da alma esthetica, está muitas vezes mais nas adivinhações, quando são idealmente verosimeis, do que n'uma impossivel determinação exacta. No poeta, o homem voluntario, o homem conscientemente deliberado, vale sempre tanto menos, quanto maior é o poder da sua intuição. Os desejos propheticos brotam-lhe espontaneamente no espirito, e muitas vezes

o pensamento não lhe diz o alcance dos dardos da sua phantasia. A elle proprio succede o que succede a quem contempla um producto de arte: receber de uma mesma nota uma impressão de alegria ou dôr, conforme a disposição actual dos seus nervos. A elle proprio acontece muitas vezes que, se se interrogasse a saber se de facto ri ou chora, a sua intelligencia ficaria impotente para responder, e apenas pela imaginação ainda presentiria que as lagrimas e os risos se confundem n’um mesmo vaso feito de pathos e de ironia. Os poetas valem por aquella porção do vaticinio inconsciente de que são portadores.

Por isso a verdadeira vida do poeta, a vida que importa para se lhe conhecer a verdadeira physionomia, não é a successão dos actos exteriores: é a serie dos estados mais ou menos indefinidos do pensamento. Com o heroe dá-se exactamente o contrario; porque a acção tem para elle o papel dirigente e inicial, que tem para o poeta a contemplação.

Tudo isto, portanto, explica o fundamento do nosso retrato de Camões, pallida imagem d'esse retrato magnifico pintado pelos corações portuguezes no decurso de tres seculos. Esse retrato, dizemos nós, em conclusão, é o verdadeiro.

O homem, conforme existiu, está para elle como o vaso está para a essencia, ou para a chrysalida o casulo. Como no mytho da alma abandonando no momento da morte o seu envolucro corporeo, tambem o verdadeiro Camões espiritual se separava transfigurando-se. E a tristeza foi que, de facto, essa alma voou para o céo das chimeras sebastianistas, deixando-nos para as folhearmos, com os olhos ennevoados de lagrimas, as folhas soltas dos Lusiadas...

Essa alma era a lusitana, feita de esforço e grandeza, de magnanimidade e agudeza moral, de orgulho e inteireza, de constancia para as luctas, de caridade para os infortunios, de serenidade de animo e de uma fé luminosissima no seu destino, que adivinhava magnifico e que a sorte veio tornar cruel.

N'essa alma confundiam-se a candura de um Nunalvares com a força de um Albuquerque, com o stoicismo christão de um Castro, mais o seu

amor celtico da natureza, mais a flôr de ingenuidade popular desfolhada pelo bom senso de GilVicente, o a ternura amaviosa de Bernardim Ribeiro.

Todas as cordas da lyra portugueza se encontravam no plectro camoneano, attestado symbolico da individualidade lusitana, maravilhosamente escripto n'uma epopeia, para ficar ao lado e acima dos traslados que iam escrevendo em dramas os nossos irmãos da Peninsula com a sua vis naturalista de castelhanos.

E quiz a sorte que um poeta, assim dotado com todos os caracteres do povo que representava, apparecesse no momento proprio da completa definição do seu pensamento: quando na tarde do dia glorioso, o sol, descaindo para o poente, já não podia estontear as ambições ; quando a experiencia apontava já nos horisontes as nuvens a amontoarem-se e o crepusculo a subir do lado do nascente, deixando á alma a plena posse de si mesma e ao juizo a liberdade de julgar.

E quiz, finalmente, que a vida d'esse homem fosse cyclica : amante como Portugal, que ficou celebre pela tragedia de Ignez de Castro, vivêra de amor na adolescencia; vae a Africa preparar-se para as campanhas do Oriente, como Portugal tambem foi; embarca para a India, como a nação inteira embarcára ; volta de la derreado, côxo, em moletas, como voltou egualmente Portugal, para agonisar um instante, expirando a um mesmo tempo...

Não era necessario tanto para ferir a imaginação de um povo. Que admira, pois, a apotheose de Camões ?

CAPITULO TERCEIRO

A época das conquistas

I

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Heroismo é a palavra que define syntheticamente este periodo da vida nacional portugueza. Pelo heroismo se explica a nossa grandeza e nosso abatimento, as nossas virtudes e os nossos vicios, a culminação gloriosa a que subimos e o abysmo pôdre em que nos afundámos para morrer. O heroismo é o condão e a sina dos

collectivamente idealistas; é por via de regra o temperamento espontaneo das nações desabrochadas ao sol do meio-dia, que dá á vida individual uma feição communicativa e reciproca, ao contrario dos climas asperos, em que o homem, isolado por uma natureza agreste, redobra o pensamento em vez de o expandir, o ensimesmando-se, isto é, applicando á propria alma o seu poder de amar e estudar, produz essas maravilhas de analyse psychologica realisadas por Shakespeare com a intuição a arte, e por Kant com a observação e a critica.

povos

O homem meridional é outro : mais espontaneo, menos reflexivo, mais pagão, menos espiritualista. Não é que o genio contemplativo seja peculiar aos povos septentrionaes, nem que lhes seja desconhecida a acção. Mas a actividade da gente do norte é diversa : reduz-se á esphera da vida collectiva de relação, não se alarga para além da fatalidade obscura da lucta contra uma natureza hostil. A sua poesia está na contemplação. A gente que, no mundo, mais fez pelo commercio foi a ingleza. cuja gloria é a poesia pessoal e lyrica; e nós, que

démos prova cabal da nossa incapacidade mercantil, pois do proprio Oriente o rendimento liquido ia parar ás mãos de flamengos e inglezes que nos levavam todo o ouro: fomos nós que nos Lusiadas escrevemos o poema do commercio.

A gente do norte agita-se impellida na lucta pela vida: por isso mesmo põem o ideal nos oncantos da paz, da casa (home), dos sentimentos individualistas, e na contemplação nebulosa de uma natureza inimiga que necessita ser espiritualisada para que possa amar-se. Essa gente é subjectiva. À meridional vive de fóra para dentro, em communhão permanente com o proximo, confundindo-se com elle, indistinctamente, palpitando com a rajada do vento, com a ondulação da luz, com a vaga do mar, com a côr da terra, com as paixões dos homens. O movimento, a acção, não lhe appare

com deveres ou necessidades crueis, contra as quaes buscam na vida interior um refugio: teem-n'os, ao contrario, como a propria expressão e destino da existencia.

E' a este modo de ser, nos seus momentos fecun

cem

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