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deaes: Ormuz, Goa, Malaca. «Deixo a india com as principaees cabeças tomadas em voso poder).

Abranger a terra com o olhar, como a aguia quando para nos ares; comprehender os homens com o pensamento e dominal-os com a vontade : eis-ahi o que constitue os heroes, como Albuquerque, conquistadores e estadistas. Ĝoa dava tambem ao imperio portuguez, até então fluctuante em esquadras sobre os mares, como o quizera D. Francisco de Almeida, um estado continental fixo, ministrando-lhe o serviço de populações indigenas. Da gente que vinha constantemente do reino e o despovoava, escrevia Albuquerque: «Os calafates e carpynteiros com molheres de cá o trabalho em terra quente, como pasa hum ano, nom sam mais homeens, o com Goa pode vosalteza escusar os deses Reynos, porque os ha mais e milhores que os que cá andam. 3

A costa occidental da India, entre os Gattes e o mar, dividia-se, a partir da foz do Nerbudda e a terminar no cabo Comorim, em tres regiões distinctas: o Concão ao norte, depois o Canará, finalmente o Malabar que os portuguezes tinham desde o principio submettido com as suas fortalezas e feitorias de Calecut e Cochim. Goa deu-lhes o imperio na costa do Centro, e o norte ficou avassallado com os pontos de Damão e Diu, em Cambaya. A cidade de Affonso de Albuquerque era, pois, com effeito «a may de todala India, por assy estar no mêo dela) reclinada sobre a ria, engastada como uma esmeralda entre o cinto azul do mar e a corôa que, lá para longe, erguendo-se em amphitheatro, formam à ilha os montes Schyadri, os planaltos de Balaghat, com a fragosa cascata de Gersoppa, região alpestre onde vagueiam os residuos das velhas raças comprimidas pela conquista.

1 Cartas; dez. 1515 ; p. 381.

2 Ibid. 17 out. 1510 ; p. 21.

N'esta arce do imperio lusitano da India, os conquistadores, nem por desembarcarem, tinham dito adeus á agua que os trouxera. Goa é uma ilha, uma nau, ancorada entre rios e canaes. No seu clima pluvioso a agua é creadora. A chuva do Mogó em agosto e a do Rochiny em maio, pelas sementeiras dos arrozaes,

Os campos reverdece alegremente,

e o velho drama vedico representa-se n'estes céos, como nos do Indo, quando o sol, começando a subir imperialmente nas cristas dos montes longinquos, preside á batalha de Indra, com a mão carregada de raios, despedaçando as serpentes das nuvens de Abi, cujo sangue corre em torrentes pela terra abundantemente. Rudra commanda os maruts, e a voz tremenda de Vayan solta-se pelos ares, nos assobios do vento e no roncar das ondas, partindo-se contra a barra da Aguada, inaccessivel... O drama acaba. Vishnu, triumphante sobre os coros de devas luminosos, morde a terra com beijos ardentes : a terra que sorri e palpita, fuzilando em cada gotta de agua tremente e gerando um espirito ephemero e rutilante.

Fugiu a noute. Dissiparam-se as nuvens de pyrilampos que a illuminavam, almas perdidas da região dos mortos. O dia é claro, o ar purissimo, a luz esplendida. A natureza triumphante acclama tambem D. João de Castro, o vencedor de Cambaya, a cuja apotheose vamos hoje (15 de abril de 1547) assistir em Goa, essa Roma novissima em que resuscitam os dias de Cesar.

Entremos a barra. A vaga desfaz-se brandamente em espuma, rolando para o interior das gargantas formadas pelas garras de terra deitadas sobre o mar, como patas estendidas de um leão dormindo. Do norte, a praia de Condolim vem morrer na ponta da Aguada, em cuja base as palhotas dos indigenas se reflectem na agua, e cujo topo não está coroado ainda pelo forte, só construido em 1604, Do sul, as terras de Salcete, ainda gentias, véem acabar no morro de Mormugão. Entre os dous promontorios, a ilha de Goa, ladeada pelas barras da Aguada e de Quary, estende-se para o mar, terminando na ponta do Cabo, onde um baluarte attesta á face do mar o imperio portuguez. Em frente d'elle expirou Albuquerque, o conquistador, quando voltava de rematar a sua empreza em Ormuz. Não podendo já escrever, ditava a sua ultima carta para el-rei: «Quando esta faço a V. A. tenho muito grande saluço, que é signal de morrer...» 1

O mar brinca nos cachopos e recifes, as gaivotas em bandos esvoaçam pescando; na praia os gentios nús, negros e luzidios, com o cabello atado no alto do topete, compõem as rêdes cantando algum mandó languidamente saudoso dos tempos em que ainda não esmagavam os mares esses galeões medonhos, sempre promptos a vomitar fogo: esses galeões que, de verga d'alto, empavezados, com os soldados de guarda nos chapitéos, esperam as ordens para seguir rio acima a encorporar-se no cortejo triumphal do vice-rei.

Na margem direita, os palmares da praia de Ca

1 Cartas, 6 dez. 1515 ; p. 381.

razalem que conduz ao Cabo, espelham-se nas aguas mangas da bahia, terminando na ponta onde Gaspar Dias levantará o seu forte (1589), ahi onde o rio se aperta contra o morro fronteiro dos Reis Magos, coroado pelo castello das terras de Bardez, conquistado por Albuquerque no proprio dia em que tomou Pangim.

O rio comprime-se, a terra avança, e cresce o diluvio da vegetação luxuriante que abafa o ar. As mangueiras, as jaqueiras, os coqueiros, enraizados na areia salgada e balouçando sobre a agua a sua folhagem finamente laciniada, interrompem com uma cortina movediça de altos fustes desequilibrados, o desenrolar das perspectivas distantes, onde, pelas encostas côr de ouro, raparigas núas vão pastando os rebanhos de vaccas alaranjadas de geba sobre a cernelha. Na ria fundeiam os patamarins de dous mastros, cahiques de cabotagem, e junto á praia correm sobre a face serena das aguas, as champanas, as tonas e almadias dos gentios que vão remando, carregadas de arroz, de fructas e legumes para o interior da terra, direito a Goa, onde se prepara a grande festa do triumpho. Já as fustas de guerra, com as suas prôas aguçadas como dentes de espadarte, com os latinos ferrados e os remeiros gentios, se preparam para largar, porque se ouvem, com o marulhar da vaga na barra, longinquos repiques de sinos, eccos de salvas distantes, e um ruido que parece de atabales e charamellas, de trombetas e de pifanos. Largaria já, de Pangim para Goa, o vice-rei?

Rememos, leitor amigo, vamos remando pela ria acima, deixando Pangim á direita com o seu pagode indio caído e deserto, mais acima Ribandar, o antigo paço dos rajahs vencidos pelos mouros. E'

ahi que as terras de todo se abaixam, que as aguas se abrem n'um leque de braços, sarjando a planicie inteira. Defronte, na margem esquerda, partem para as terras de Bardez a ria de Mapuçá e a de Naroá, deixando de permeio a ilha do Chorão; e entre o ramo de Naroá, e este que nos leva a Goa, fica a ilha da Piedade.

O ar é outro, diversa a côr da agua. O fundo que para jusante se formava com areia e pedra, é lõdo agora, e as margens vergam sob o peso da vegetação massica. A agua já não parece fluida, por não ser transparente: o verde torneu-a espessa. As palmeiras esguias, os bambús ensombrados, os salgueiraes, fundem-se nas aguas; e as aguas infiltram-se por toda a parte nos meandros das salinas e dos arrozaes. A ramaria das arvores mistura-se ás velas de ola secca das champanas que vão correndo por entre os campos, acompanhadas pelo vôo do gaivão balouçando-se nas azas pardas sobre a paisagem palpitante, onde o sol que já vae alto começa a formar um nimbo de vapores da terra humida, esvaido, oscillante, como idéas vagas genesiacas.

Na confusão palpitante da terra, da agua e do sol, a pulsação vital é offegante. Nos paúos, os cannaviaes, como jangadas de verdura, balouçamse ao vento, murmurando; as fôres rutilam na verdura espessa ; e o perfume penetrante da champaca, rosa de amor com que as filhas da India entrançam os cabellos, inebria a alma indigena, perdida nos meandros vegetaes do pimpol, abrindo os seus doceis, largando para o chão as suas cordagens que se enraizam como enxarcias da nau mystica em cujo ventre se gerou Vishnu. O pimpol é um templo e o proprio deus: debaixo da sua

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