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Os altos promontorios o chorarão,
E dos rios as agoas saudosas
Os semeados campos alagarão,
Com lagrimas correndo piadosas.
Mas tanto pelo mundo se alargarão
Com fama suas obras valerosas
Que sempre no seu Reino chamarão
«Affonso, Affonso» os eccos, mas em vão. 1

Flerunt Rhodopeiae arces
Altaque Pangaea, et Rhesi Mavortia tellus,
Atque Getae, atque Hebrus, et Actias Orithyia. %

A natureza inteira desfaz-se em lagrimas. O Gange, o Indo, e «toda a terra que pisaste» choraram tambem S. Thomé, o apostolo das Indias. 3

No canto quarto, a conhecida exclamação do veIho do Restello, 4 ao partir da armada de Vasco da Gama, é sem duvida inspirada por Horacio, na ode ao navio que levava Virgilio; e no sonho magpifico de D. Manoel, a que n'outro logar voltaremos, deparam-se estes versos:

No tempo que a luz clara
Foge e as estrellas nitidas, que saem,
A repouso convidão, quando caem,

7

que são a transcripção dos virgilianos:

Et jam nox humida colo
Precipitat, suadent que cadentia sidera somnos. 8

A tempestade do canto sexto 9 é um d'aquelles episodios em que melhor se vê o caracter imitativo

1 C. 111, 84. - 2 Georg. iv, 461-3. 3 C. x, 118.

, ,3.—6 C. iv, 67-75.- 1 67.-8 Eneid. 11, 8.

4 94-101. 9 70-79.

5

do pensamento da Renascença, que em Portugal ia até ao excesso de restaurar na propria lingua o diccionario latino. Camões, por exemplo, diz esicio por estrago 1 e instructo por instruido. . Mas este proposito imitativo (que dá a quasi parodia do triumpho em Goa) assenta n'uma convicção profunda da alma moral e n’uma vibração energica da imaginação commovida pelo espectaculo de novas cousas.

A tempestade dos Lusiadas, apesar de vasada nos moldes classicos, não é litteraria apenas: é vivida, é pintada por quem uma vez e muitas vezes assistiu as batalhas do mar. O traço positivo e real domina: está-se a bordo de uma nau da India :

Mas neste passo, assi promptos estando,
Eis o mestre, que olhando os ares anda,
O apito toca : acordão despertando
Os marinheiros dhữa e doutra banda.
E, porque o vento vinha refrescando,
Os traquetes das gaveas tomar manda ;
«Alerta, disse, estay, que o vento crece
Daquella nuvem negra que aparece».

Não erão os traquetes bem tomados,
Quando dá a grande e subita procella :
«Amaina, disse o mestre a grandes brados ;
Amaina, disse, amaina a grande vella».
Não esperão os ventos indinados
Que amainassem ; mas juntos, dando nella,
Em pedaços a fazem, cum ruido
Que o mundo pareceo ser destruydo.

O ceo fere com gritos nisto a gente
Cum subito temor e desacordo;
Que no romper da vela a Nao pendente
Toma gram suma dagoa pello bordo.

1 C. I, 16. — C. II, 93.

« Alija, disse o mestre rijamente ;
Alija tudo ao mar; não falte acordo.
Vão outros dar á bomba, não cessando;
A’ bomba! que nos imos alagando»,

Correm logo os soldados animosos
A dar á bomba ; e, tanto que chegarão,
Os balanços que os mares temerosos
Derão á Nao num bordo os derribarão.
Tres marinheiros duros e forçosos
A menear o leme não bastarão:
Talhas lhe punhão dhữa e doutra parte,
Sê aproveitar dos homens força e arte.

Os ventos erão tais que não poderão
Mostrar mais força dimpeto cruel,
Se pera derribar então vierão
A fortissima torre de Babel.
Nos altissimos mares, que crecerão,
A pequena grandura dhum batel
Mostra a possante nao, que move espanto,
Vendo que se sostem nas ondas tanto.

A nao grande em que vay Paulo da Gama
Quebrado leva o mastro pello meyo,
Quasi toda alagada; a gente chama
Aquelle que a salvar o mundo veyo.
Não menos gritos vãos ao ar derrama
Toda a Nao de Coelho, com receyo,
Com quanto teve o mestre tanto tento
Que primeiro amainou que desse o vento.

Agora sobre as nuvens os subião
As ondas de Neptuno furibundo;
Agora a ver parece que decião
As intimas entranhas do profundo; 1

Hi summo in flucta pendent; his anda dehiscens Terram inter Aluctus aperit.

Eneid. 1, 106.7.

Noto, Austro, Boreas, Aquilo querião
Arruinar a machina do mundo ;
A noite negra e feya se alumia
Cos rayos em que o Polo todo ardia.

As Alcioneas aves triste canto
Junto da costa brava levantarão,
Lembrando-se de seu passado pranto,
Que as furiosas agoas lhe causarão.
Os Delfins namorados entre tanto
La nas covas maritimas entrarão,
Fugindo á tempestade e ventos duros,
Que nem no fundo os deixa estar seguros.

1

Nunca tam vivos rayos fabricou
Contra a fera soberba dos Gigantes
O gram ferreiro sordido que obrou
Do enteado as armas radiantes ;
Nem tanto o gram Tonante arremessou
Relampados ao mundo fulminantes
No gram diluvio, donde sos vierão
Os dous que em gente as pedras converterão.

Quantos montes então que derribarão
As ondas que batião denodadas !
Quantas arvores velhas arrancarão
Do vento bravo as furias indinadas!
As forçosas raizes não cuidarão
Que nunca pera o ceo fossem viradas;
Nem as fundas arêas que podessem
Tanto os mares que encima as revolvessem.

Afastando-se de Virgilio, para seguir Homero, nos Lusiadas é Neptuno o forte agitador da terra, inimigo de Ulysses, quem ordena a Eolo que solte os ventos. Na Eneida, Eolo exorbita para comprazer a Juno, provocando o famoso Quos ego! neptunino. Mas se Juno, para induzir Eolo á insubordinação, lhe promette Deiopea, forma pulcherpima !, Camões, invertendo a situação, transfere o pensamento a Venus. A protectora dos portuguezes, certa de que a tempestade é um maleficio de Baccho, decide seduzir os Ventos, soltando-lhes o batalhão das suas nimphas:

Grinaldas manda pôr de varias cores
Sobre cabellos louros á porfia.
Quem não dirá que nacem roxas flores
Sobre ouro natural, que amor infia ?
A brandar determina por amores
Dos ventos a nojosa companhia,
Mostrando-lhe as amadas Nimphas bellas,
Que mais fermosas vinhão que as estrellas. 2

socega: elle

O amor é na Renascença omnipotente. O temporal amaina. O Gama

que

soltára em portuguez as mesmas queixas de Eneas :

O' ditosos aquelles que puderão
Entre as agudas lanças Affricanas
Morrer, em quanto fortes sostiverão
A sancta Fé nas terras Mauritanas:
De quem feitos illustres se souberão,
De quem ficão memorias soberanas,
De quem se ganha a vida com perdella,
Doce fazendo a morte as honras della ! 3

«O terque quaterque beati, Queis ante ora patrum, Trojae sub moenibus altis, Contigit oppetere !, 4

A Troia lusitana são as fortalezas de Africa, para onde, no fim do seculo xvi, prevendo-se o desmoronamento do imperio oriental, se voltam as esperan

1 Eneid. I, 70-5. — 2 C. , 87. — 3 83. — 4 Eneid. 1, 94-6.

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