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Esta lealdade estoica, nervo de aço da velha alma nacional, não é, porém, um esforço, nem uma violencia, como na doutrina antiga: sáe naturalmente do temperamento, como a fôr da haste e o fructo da flór. portuguez é humano, porque é amoroso e triste; e é fiel, porque é humano. Camões condemna a deshumanidade sempre que a encontra, embora seja na historia dos seus heroes mais queri. dos, em Albuquerque o terribil, ou em Affonso Henriques. O fundador da monarchia peccou prendendo a mãe: por isso foi castigado em Badajoz:

Mas o alto Deos, que pera longe guarda
O castigo daquelle que o mereçe,
Ou pera que se emmende ás vezes la,
Ou por segredos que homem não conheçe,
Se até qui sempre o forte Rei resguarda
Dos perigos a que elle se offereçe,
Agora lhe não deixa ter defesa
Da maldição da mãy, que estava presa.

1

Tal é, portanto, o caracter portuguez, conforme se encontra nos Lusiadas. A historia e a observação confirmam-no. A nobreza e a força, na gravidade austera, provéem do sentimento da humanidade e da lealdade, que por seu turno se desdobram do amor e da melancolia ingenita. E' uma vegetação perfeita, enraizada no solo, florindo no ar: haurindo da natureza a seiva colorante das flores e avigorante dos troncos e braços que, estendendo-se pelo mundo, o avassallaram. A perversão dos sentimentos constitucionaes da alma portugueza mostra ainda a verdade d'esta analyse, porque a ternura amaviosa não é mais do que a fraqueza do

1 C. III, 99.

amor, e o desgosto apathico a exageração da melancolia. A dureza cruel de que

tantas
provas

dé. mos no Oriente, não é senão a perversão da austeridade e da força; e a basofia nacional, de todos conhecida, em todos os tempos, e grandemente celebrada na era de Camões, reduz-se a uma inconsequencia na dignidade e na nobreza.

Camões, em cujo peito vibravam todas as cordas da alma nacional por isso foi o seu epico momentos successivos da historia da nossa definição moral collectiva, vae mostrar-nos, com um dos episodios classicos dos Lusiadas, como essa alma vive e se agita quando a mocidade a inspirava ainda. E' a historia de Magriço e dos Doze-d'Inglaterra, no tempo de D. João I, em que Portugal, depois de roceber a iniciação poetica da Provença, recebia a iniciação cavalheiresca: 1

nos

Entre as damas gentis da corte Inglesa
E nobres cortesãos acaso hum dia
Se levantou Discordia em ira acesa ;
Ou foy opinião, ou foy porfia :
Os Cortesãos, a quem tam pouco pesa
Soltar palavras graves de ousadia,
Dizem que provarão que honras e famas
Em tais damas não ha pera ser damas.

E que, se ouver alguem, com lança e espada,
Que queira sustentar a parte sua,
Que elles em campo raso ou estacada
Lhe darão fea infamia, ou morte crua.
A femenil fraqueza, pouco usada,
Ou nunca, a oprobrios tais, vendo-se nua
De forças naturais, convenientes,
Socorro pede a amigos e parentes.

1 C. vi, 13-69.

Mas, como fossem grandes e possantes
No reino os inimigos, não se atrevem
Nem parentes, nem fervidos amantes,
A sustentar as damas como devem :
Com lagrimas fermosas e bastantes
A fazer que em socorro os Deoses levem
De todo o Ceo, por rostos de alabastro,
Se vão todas ao duque de Alencastro.

Era este Ingres potente e militara
Cos Portugueses ja contra Castella,
Onde as forças magnanimas provara
Dos companheiros e benigna estrella ;
Não menos nesta terra esprimentara
Namorados affeitos, quando nella
A filha vio, que tanto o peito doma,
Do forte Rey, que por molher a toma.

Este, que socorrer-lhe não queria
Por não causar discordias intestinas,
Lhe diz: «Quando o direito pretendia
Do reino la das terras Iberinas,
Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
Tanto primor e partes tão divinas
Que elles sos poderião, se não erro,
Sustentar vossa parte a fogo e ferro.

E se, agravadas damas, sois servidas,
Por vós lhe mandarei embaixadores,
Que por cartas discretas e polidas
De vosso agravo os fação sabedores ;
Tambem por vossa parte encarecidas,
Com palavras dafagos e damores,
Lhe sejão vossas lagrimas, que eu creyo
Que ali terees socorro e forte esteyo.»

Destarte as aconselha o Duque experto
E logo lhe nomea doze fortes
E, porque cada dama hum tenha certo,
Lhe manda que sobrelles lancem sortes,

Que ellas so doze sam; e, descuberto
Qual a qual tem caido das consortes,
Cadhữa escreve ao seu por varios modos,
E todas a seu Rey, e o Duque a todos.

Ja chega a Portugal o mensageiro;
Toda a corte alvoroça a novidade;
Quisera o Rey sublime ser primeiro,
Mas não lho soffre a Regia Magestade.
Qualquer dos cortesãos aventureiro
Deseja ser, com fervida vontade;
E so fica por bemaventurado
Quem ja vem pelo Duque nomeado.

La na leal cidade, donde teve
Origem (como he fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leve
Manda o que tem o leme do governo.
Apercebem-se os doze em tempo breve
Darmas e roupas, de uso mais moderno,
De elmos, cimeiras, letras e primores,
Cavalos é Concertos de mil cores.

Ja do seu Rey tomado tem licença
Pera partir do Douro celebrado
Aquelles que escolhidos por sentença
Forão do Duque Ingles esprimentado.
Não ha na companhia differença
De cavaleiro destro ou esforçado;
Mas hum so, que Magriço se dizia,
Destarte fala å forte companhia :

Fortissimos consocios, eu desejo
Ha muito ja de andar terras estranhas,
Por ver mais agoas que as do Douro e Tejo,
Varias gentes e leis e varias manhas :
Agora que aparelho certo vejo
(Pois que do mundo as cousas sam tamanhas),
Quero, se me deixais, ir so por terra,
Porque eu serey convosco em Inglaterra.

E, quando caso for que eu impedido
Por quem das cousas he ultima linha,
Não for comvosco ao prazo instituido,
Pouca falta vos faz a falta minha :

mi fareis o que he divido;
Mas, se a verdade o sprito me adivinha,
Rios montes fortuna ou sua enveja
Não farão que eu comvosco la não seja.

Todos por

Assi diz: e, abraçados os amigos
E tomada licença, em fim se parte.
Passa Lião, Castella, vendo antigos
Lugares, que ganhara o patrio Marte,
Navarra cos altissimos perigos
Do Perineo, que Espanha e Galia parte;
Vistas em fim de França as cousas grandes,
No grande emporio foy parar de Frandes.

Ali chegado, ou fosse caso, ou manha,
Sem passar se deteve muitos dias;
Mas dos onze a illustrissima companha
Cortão do mar do Norte as ondas frias.
Chegados de Inglaterra á costa estranha,
Pera Londres ja fazem todos vias ;
Do Duque sam com festa agasalhados
E das damas servidos e amimados.

Chega-se o prazo e dia assinalado
De entrar em campo ja cos doze Ingleses,
Que pello Rey ja tinhão segurado;
Arman-se delmos, grevas e de arneses;
Ja as damas tem por si fulgente e armado
O Mavorte feroz dos Portugueses ;
Vestem-se ellas de cores e de sedas,
De ouro e de joyas mil, ricas e ledas.

Mas aquella, a quem fora em sorte dado
Magriço, que não vinha, com tristeza
Se veste, por não ter quem nomeado
Seja seu cavaleiro nesta empresa ;

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