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sula? Pois não é toda a Europa, o mundo inteiro, uma Roma, depois de Caracalla ter generalisado (212) esse fôro ao imperio? Que melhores e mais genuinos romanos ha na Europa, do que esses hespanhoes cuja falla já Cicero sómente achava pingue quippe atque peregrinum, de sabor forte e um tanto estrangeirado?

Este processo de assimilação, ou adopção politica, praticado em Roma, e origem da extraordinaria expansão do seu imperio, é o que se observa, om menores proporções sim, e de outra fórma, mas essencialmente identico, em Portugal. O principe que tornou de facto independente o condado portuguez, permittindo a seu filho a fundação do reino (se porventura esse reino não existia já quando D. Thereza se chamava a si propria regina de Portugal): esse principe era francez ou burgundio. Com elle vieram para a sua côrte e para os seus exercitos numerosos aventureiros de além dos Pyreneus. O primeiro rei portuguez, para effectuar a conquista de Lisboa, e os successores para ganharem aos mouros o sul do reino, assoldadaram repetidamente o serviço dos Cruzados; e os foraes registram a importancia das doaçõus feitas principalmente aos frankos, de que o nome se conserva ainda em mais de uma villa portugueza. E todos esses elementos estrangeiros que cooperavam para a defeza e sustentação do baluarte portuguez foram assimilados ou a portuguezados por completo, embora a genealogia e a onomastica provem hoje ainda a verdade da historia.

Na crise de 1383 Portugal apparece outro. Fundidos o assimilados, os elementos constitutivos da nação tinham adquirido já o poder de organisação bastante para ganhar uma consciencia; e é por isso que o movimento fundador da segunda dynastia se nos apresenta como um acto popular ou collectivo, uma expressão positiva de vontado nacional, emquanto as agitações anteriores não passavam de actos pessoaes ou de classe, revoltas de individuos, insurreições de cidades, luctas com o clero, ou protestos da nobreza. Vontade e pensamento que enfeixasse todas as forças e todas as vibrações do povo, de um modo summario e synthetico, não havia, antes de 1383, senão nos actos dos principes que obedeciam aos impulsos da propria ambição. Inconsciente, essa ambição continha o pensamento nacional que, desabrochando no fim do seculo xiv, daria alma, vontade e força a um povo inteiro para vencer em Aljubarrota, repellindo o dominio de Castella.

Desde então Portugal existiu como pensamento e como vontade. Viu-se uma alma animar este sêr collectivo que se chamou a nação portugueza. Mas n'esse proprio momento se viu tambem dar-se uma outra invasão e começar outro periodo assimilador. E' do tempo de D. João I, que casou com uma princeza ingleza, a introducção dos elementos saxonios e das idéas cavalheirescas; e a importancia d'esta nova assimilação vê-se nas chronicas e nos nomes pessoaes novos, em muitos casos, porém, com effeito, adoptados por imitação dos heroes da Tavola-redonda.

Na éra gloriosa que se abre a Portugal com a dynastia de Aviz, edade da nossa grandeza, periodo aureo da nossa força e gloria, não ha patria mais aberta, nem sociedade mais cosmopolita do que esta. Quando o infante D. Henrique institue a escola de Sagres, ninho d'onde partem, no seu vôo atravez dos mares, as armadas portuguezas, as praias d'esse promontorio que outra vez merece o nome de sagrado, porque outra vez é sacrario da nossa alma celtica, abrem-se a todas as nações, o de toda a parte accorrem ahi os geographos e os mareantes. Outra camada de gente estranha se nacionalisava embarcando, e voltava das regiões ultramarinas convertida á fé portugueza, o tão lusitana de alma como aquelles a que o tempo dava já fóros de lusitanos pelo sangue.

E’que o fôro portuguez, á similhança do romano, não era o attestado de uma ascendencia consanguinea, mas sim o baptismo em uma fé. que não distinguia nacionalidades, nem origens naturaes de raça, ou de região. Portuguez era todo aquelle que ardia na chamma crepitante do enthusiasmo descobridor, propagandista. Ha portuguez mais portuguez do que S. Francisco Xavier, esse Albuquerque da Cruz? Todavia nasceu na Navarra; do mesmo modo que Colombo foi hespanhol, apesar de nascido em Genova. Tambem a Hespanha, apesar da consistencia geographica e ethnogenica da sua pacionalidade, apresentava n'esse momento de enthusiasmo o caracter cosmopolita; mas isso que n'ella era fortuito, foi em nós constitucional e organico.

Tão permanente, tão intimo, tão constante apparece em Portugal, como em Roma, consideradas as differenças dos tempos. Porque, para o romano, o seu fôro era uma lei secca, feita só de direito, inspirada apenas pelo civismo; ao passo que para o portuguez, homem moderno que atravessára as fornalhas esbrazeadas da transcendencia medieval, o seu fôro, se era uma lei e um patriotismo civico, era tambem uma fé, em que, sob uma inspiração prophetica, as almas não distinguiam, nos vôos da sua ambição ideal, entre a Patria e o Céo.

No momento culminante do enthusiasmo heroico portuguez, na efflorescencia plena da força nacional, durante a época de D. João III, quando se pensa em restaurar os estudos, não se encontra escóla nem tradição indigena sobre que construir; o o quadro da nova Universidade abre-se, como se abrira a escola de Sagres, a professores de toda a parte, que véem classicamente educar esta nação sempre cosmopolita. O genio portuguez abraça com orgulho e consciencia a tradição classica, e, coroado por Camões, proclama o patriotismo ideal, ou romano, como a chave da abobada levantada, segundo se vê nos Lusiadas, com os segmentos verdadeiramente historicos. O classicismo não cảe como uma mortalha sobre a espontaneidade nacional defunta: pelo contrario, põe-se como remate natural ao desenvolvimento da consciencia de um povo formado pela vontade estoica.

Significará tudo isto que ás nacionalidades, isto é, aquellas nações construidas natural e espontaneamente, como a planta que sáe da semente, ou o fructo que sáe da flor, seja desconhecido e impossivel o patriotismo? Não, até certo ponto. Mas esse sentimento ideal, que é mister não confundir jamais com o amor naturalista da terra e do sanguie; esse sentimento cuja definição pode dar-se n'uma nacionalidade, não é todavia constitucional da existencia d'ella, como o é das nações que só vivem por um acto de fé e de vontade.

O amor da patria e o amor da terra são tão diversos como a natureza o é da idea que a espiritualisa. A patria é uma abstracção moral, adorada com a piedade que nos inspiram os deuses ; a terra é um facto natural, amado com a paixão que nos inspiram as creaturas. Todos os italianos dos nossos tempos, fossem austriacos, hespanhoes, ou francezes de nação ; todos os allemães, fossem dinamarquezes, russos, francezes ou hollandezes, amavam a sua terra, como o camponez ama a aldeia onde tem a familia; como o provinciano ama a provincia onde tem a gens; como o portuguez ama o torrão que

fica entre o Minho e o Guadiana. Mas não deve nem ha de confundir-se este sentimento natural com o orgulho ideal pela grandeza, pela missão, pelo caracter, pelo destino da patria: orgulho que ainda tinham os romanos da éra de Augusto e já desapparecêra no Baixo Imperio; orgulho que nós ainda tivemos no seculo xvi, e que posteriormente perdemos; orgulho que tanto se sente em Virgilio como em Camões, é tão pouco em Suetonio como nos escriptores criticos de hoje, salvo quando os inspira um patriotismo retrospectivo, como o de Plutarcho.

Mas o orgulho patriotico de Camões é ainda mais apaixonado e quente do que o de Virgilio: nem admira, pois todas as comparações que se fizerem en. tre a época de Augusto e a da Renascença hảo de encontrar sempre n'esta, de mistura com o idealismo antigo, o quer que é mais penetrante e vivo, mais animado, mais vehemente. Na Renascença, as idéas são vívidas com intensidade, por isso mesmo que acima das idéas a imaginação põe uma fé transcendente; ao passo que na edade de Augusto até os espiritos piedosos como Virgilio eram constitucionalmente scepticos.

A fé, essa alavanca de montanhas, é a chamma que illumina e aquece almas como as de Camões, e, ao mesmo tempo que vivifica as abstracções duras da razão, introduz nos sentimentos naturaes, ainda os mais obscuros, uma uncção que os ennobrece. E' esse balsamo piedoso que nos Lusiadas

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