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os portuguezes se achavam comprimidos pela Hespanba.

Esta circumstancia que em todo o caso teria feito dos hespanhoes occidentaes, ainda quando se não chamassem portuguezes, os descobridores do seculo XVI, veio, porém, substituir para a nossa autonomia nacional o motivo que primeiro estivera na idéa particularista e separatista da Galliza, sobre a qual os Affonsos procuraram assentar a hegemonia, quando a expansão austral do reino e o seu destino maritimo se não tinham definido ainda de um modo absoluto. Consummado este destino durante a segunda dynastia, a nação portugueza, elaborada como pensamento na consciencia dos seus homens, affirmava-se como acto na politica ultramarina. N'um sentido deixava de ser hespanhola, porque o seu pensamento era romano ou cosmopolita; e por outro lado a terra que tinha na Hespanha, sacriticada ao imperio alongado pelos mares, não era mais do que a caput ou capitolio de um povo, cujo dominio abrangia o mundo, e cujo pensamento abstracto dominava a esphera natural das cousas.

O momento culminante, como revelação, é quando D. João I crava o pendão das quinas nas muralhas de Ceuta — essa Carthago portugueza! O mouro foi para nós como o punico para o romano. As guerras da Barberia são tambem as nossas guerras d'Africa, o Nunalvares o Scipião da nova Roma. Depois de Zama, depois de Ceuta, o portuguez e

romano, com a consciencia completa da sua missão, attingem a plenitude do genio e do imperio e encontram, ainda parallelamente, um Virgilio e um Camões para cantar a magestade do povo e a grandeza da idéa, quando ambos, percorrido o cyclo da existencia, vão declinando para o occaso, afogados na sombra crepuscular da tristeza fatal das cousas, essa irremediavel lei da morte inhe. rente a tudo.

Desde que Portugal venceu a crise de 1383, impondo o seu querer opposto aos elementos naturaes da historia ; desde que as guerras do tempo do D. Fernando, tiveram Aljubarrota como epilogo, e Ceuta por inicio de uma éra nova, o periodo antigo da tendencia absorvente da Hespanha concluia, porque deixavamos de girar na orbita do systema politico peninsular. O caracter proprio da nação portugueza estava definido.

Esse caracter, reproduzindo o romano, e similhante ao de Tyro e Carthago, de que Roma tambem herdára a navegação e o commercio maritimo, define-se como um imperio, dominador de povos estranhos. Principiando por avassallar Marrocos, descendo pela Africa in hospita e quasi selvagem, quando chegámos á India, fizemos o que os romanos fizeram no Oriente europeu. Se D. Francisco d'Almeida se satisfazia com o plano phenicio ou carthaginez da occupação dos pontos estrategicos littoraes e com o dominio nos mares, Affonso d'Albuquerque, o homem que encarnou a energia e o pensamento portuguez, tinha o plano romano da positiva constituição de provincias, subjugando os indigenas com o terror, sim, mas tambem com a assimilação protectora.

Portugal, porém, cujo instincto descobridor e cujo tacto colonisador ficaram: demonstrados nas ilhas Atlanticas e no Brazil, provou não ter no seu temperamento recursos para exercer cabalmente o imperio, a que o levava a deducção logica da sua historia e o pensamento claro dos seus homens. A missão e o officio do romano, regere populos, parece que não se coadunavam com o temperamento ingenito do portuguez, em que a curiosidade celtica, a illuminismo semita e a cobiça carthagineza, abafaram a efflorescencia ideal da abstracção politica. O imperio nunca passou de um esboço. O plano nunca. chegou a ter execução firme. Em via de construcção ainda, principiou logo a derrocar-se. Descobriu-se a Índia em 1498 e já no tempo de Camões, com menos de um seculo! em 1570, era uma Babylonia. Já no seu tempo as esperanças da patria se volviam de novo para Africa, desenganadas das illusões orientaes. O imperio esvaía-se nos fumos de que Albuquerque fallava.

Dissipados esses fumos, que se viu? A cruel miseria em que tudo se perdêra - até a propria independencia, que durante seis seculos fôra o trabalho por vezes quasi milagroso d'este pequeno Hercules occidental. E por isto que os Lusiadas, escriptos em lettras de ouro, sobre a candura de um marmore, são o epitaphio de Portugal e o Testamento de um povo. Como Israel, nos seus captiveiros successivos, o portuguez, abraçado á sua biblia e enlevado no sonho messianico do sebastianismo, amassado com lagrimas, balbuciará as estrophes de Camões sempre que 'vir apontar no céo uma aurora fugaz de renascimento, e sempre que contemple melancolicamente o crepusculo saudoso do seu passado perINDICE

PROLOGO
Сар. As EPOPEIAS

1 I. A intuição symbolica, faculdade creadora da arte. A arte c o instincto. Artistas e heroes. Explosão da Renascença depois da phantasmagoria medieval. O homem inoderno. Evolução do instincto artistico: sua constitucionalidade no espirito humano (1-7).

O amor revelando a verdade natural. A poesia prophetica. Espiritualisação primitiva das forças naturaes : a Antiguidade pagan. Reacção da Edade média. Novas formas de arte: a pintura, a musica. Caracteres da Renascença. Synthese da sciencia e da arte, ou da philosophia e da piedade (7-17).

II. Preeminencia da poesia como arte. Successão das fórmas artisticas: a esculptura, a pintura, a musica. Constancia da poesia. A arte contemporanea (17-23).

A esperança e a fé, na Renascença, são a causa das epopeias. Caracteres da poesia epica. Filiação dos povos europeus. Logar de Portugal. Caracteres da epopeia portugueza (23 33).

III. A sensibilidade, estado particular do poeta. Infelicidade constitucional dos poetas e dos heroes. A sensibilidade aferida em Camões pela sua concepção da mulher. Momentos successivos da definição : Venus, a rainha Maria e Ignez de Castro; a amante, a esposa, e a martyr (34-46).

Meiguice e caridade portugueza, em Camões. Melancolia e Terror. Transfiguração da natureza. Elementos naturalistas e tradicionaes da poesia camoneana. Sua espiritualisação pela verdade patriotica. Primeiro relance sobre o heroismo portuguez (46-56). Cap. II - LUIZ DE CAMÕES

57 I. (1524-1553). Filiação. Reforma da Universidade: educação de Camões. Vinda para a côrte : a mocidade e as aventuras (57-65).

Um amor. O degredo em Constancia : primeira revelação poetica. Parallelismo da ambição epica, no poeta e em Portugal. — Volta a Lisboa : segundo degredo para Ceuta : iniciação. Regresso á côrte: decisão da viagem á India. (65-73).

II.' (1553-1570). A partida, a viagem. Primeira impressão da India. Expedição de Cochim. Expedição da Arabia. Desolação do seu espirito : saudades da patria. Estada em Goa : revelação da satyra (73-84).

Viagem ao Extremo Oriente. Os portuguezes na China. A thebaida de Macau. Composição dos Lusiadas. Sentimentos dominantes : amor e condemnação do mundo. Volta de Macau : naufragio na Indo-China. Definição cabal do pensamento nihilista : apotheose da morte (84-94).

Volta a Goa. Expedição de Damão. Vida na côrte. Viagem a Calecut. Viagem a Malaca e porventura ao Japão e ås Molucas. Saudades da patria. Partida para Moçambique. Remate dos Lusiadas : o messianismo. Viagem para o reino (94-105).

III. (1570-1580). Lisboa á chegada de Camões : a pestegrande. Camões, D. Sebastião e a empreza d'Africa. Crise do fim do seculo xvi. Partida da expedição de 1578. A Sebastianeida. Impressão do desastre de Alcacerquibir em Lisboa. Desespero : synthese da biographia de Camões; oração á Morte (105-115).

Camões, symbolo nacional. Os Lusiadas e o sebastianismo. A alma é a vida do poeta, syntheses portuguezas (115. 119).

Cap. III — A ÉPOCA DAS CONQUISTAS

120 I. · Definição do heroismo nos povos. Distincção entre os temperamentos subjectivos e objectivos, nos povos do norte e do meio-dia da Europa. Momento em que appareceu Camões. Caracteres do heroismo portuguez: a falta de disciplina, o illimitado da ambição. Approximação dos povos heroicos e dos povos egoistas (120-128).

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