Imagens das páginas
PDF
ePub

povo, que os arabes, em vez de exterminarem, protegeram com a sua indifferença desdenhosa, encontrou-se reunido nos municipios e entregue a si, quando posteriormente a intolerancia almoravide baniu esse clero que se substituira aos agentes da administração romana. Então, o municipio antigo, que era uma instituição administrativa e social, ganhou fóros de communa, tornando-se em molecula politica. Com as suas tradições, com os seus usos ē costumes, o povo lavrou os codigos d'essas pequenas republicas nas cartas dos seus foraes, fueros ou fóros ---de forum ou direito. O direito barbarisa-se tambem, descendo a ser a expressão simples do uso.

A barbarisação da sociedade aristocratica e a transformação parallela do municipio em communa, agremiando a sociedade popular, são os dous factos basillares, determinados pela conquista arabe, e sobre que assenta a construcção da Hespanha moderna.

E d'estes factos provém a singularidade da historia peninsular no systema das historias das nações modernas da Europa. Como regra, póde dizerse que por toda a parte se observa o estabelecimento de tribus vencedoras sobre as populações romanisadas. A tentativa de restauração imperial que produz Carlos-Magno mallogra-se, e os estados, pulverisando-se, entram n'esse molde proprio da sociedade aristocratica: o feudalismo. Tal é o ponto de partida da historia moderna da França, da Inglaterra, da Italia do norte, de todo o mundo latino, emfim, salvo a Hespanha, onde os wisigodos tinham conseguido manter de pé o systema da sociedade antiga.

Os seus destruidores foram, na Hespanha, os arabes, que n'este ponto de vista unicamente estão nas condições dos burgundios e dos frankos, dos saxões e dos lombardos de além dos Pyrenéos. Mas, ao passo que estes povos conseguiram firmar o seu dominio sobre as regiões invadidas e consolidar-se formando as nações modernas, na Hespanha os arabes são repellidos, e essas nações formam-se com os elementos victoriosos na campanha da reconquista, isto é, com a aristocracia militar já n'essas edades remotas servida pela peonagem dos concelhos, que que é o rudimento da futura infanteria hespanhola, com que se ganhará Aljubarrota e mais tarde Car los y conquistará a Europa.

Ha, pois, dous elementos em campo. Não ha apenas a aristocracia dominadora, como nos paizes feudaes de além do Pyreneo: ha dous elementos, e por isso, desde todo o principio, a Hespanha moderna apresenta esse aspecto democratico, a que o caracter individual dos seus habitantes dá uma affirmação indestructivel. Faltaria, portanto, o termo synthetico a este dualismo, e seria consequentemente impossivel a restauração da independencia, se a tradição antiga não estivesse transformando a espada dos chefes militares n'um sceptro, e o elmo em corôa, deitando-lhes sobre os hombros victoriosos o manto dos cesares romanos.

Por isso, os reis são na Hespanha cesares e o seu poder se define de um modo superior e philosophico, em tempos, durante os quaes, para além dos Pyrenéos, a sociedade é ainda completamente aristocratica. Só mais tarde, quando a evolução organica dos elementos sociaes, traz as nações a um periodo correspondente: só no seculo xvii, póde dizer-se que a França chega ao momento em que a Hespanha se achou logo ao sair da reconquista, isto é, no seculo xiy ou no seculo xir. Os reis dos estados peninsulares são verdadeiramente soberanos; e esta precedencia é o motivo capital da hegemonia da Hespanha na Europa durante a Renascença.

Portugal apparece no meio do tumulto das guerras de reconquista, e a sua historia particular é porventura o exemplo mais caracteristico e typico d'este movimento determinado em geral para todos os estados peninsulares. Se, no conde D. Henrique e em seu filho, a physionomia guerreira predomina; e se os municipios burguezes exigem que o rei, confirmando-lhes as cartas dos seus usos, dê um attestado da sua dependencia; se, portanto, o dualismo social apparece profundamente accentuado ainda : Sancho I é já verdadeiramente um cesar ou um soberano, que, estabelecendo a sua força de um modo sobranceiro ao dualismo constitucional, coalha o territorio portuguez de instituições municipaes, promove o desenvolvimento da povoação e da riqueza, rege o reino como cousa propriamente sua, deixando ao filho o encargo de cortar pela raiz os rebentos da vegetação feudal, impedindo o desenvolvimento absorvente da sociedade aristocratica.

Taes factos, porém, apesar de serem precursores da nossa fama, não nos davam ainda celebridade no gremio das nações. Portugal

.... no mundo

Então não era illustre nem prezado. 1

O condado portucalense, senhorio do monarcha leonez, quasi imperador da Hespanha e que chegou a tomar para si esse titulo, proclama-se independente em obediencia ao movimento de fragmentação politica geral a toda a Europa, depois do mallogro da tentativa imperial de Carlos Magno. A' maneira dos estados da Europa central e da propria Peninsula no seculo xir, estados englobados hoje em nações maiores ou menores, Portugal devia a sua existencia particular a esse movimento, com que o mundo latino mostrava a verdade do aphorismo chimico corpora non agunt nisi soluta, applicado ás sociedades. Não correspondendo a nenhuma circumscripção politica anterior, não representando grupo nem raça alguma, não coincidindo com demarcações naturaes de territorio, Portugal nunca teve fronteiras terminantemente definidas: da antiga divisão da Hespanha abrangia parte da Gallecia e parte da Lusitania; e se o nucleo ethnico do condado, cuja capital estava em Guimarães, era gallego, a expansão sobre o sul em breve deslocou a capital para Lisboa, desequilibrando o principio de unidade ethnica.

1 Lus., c. III, 23.

A's causas iniciaes, portanto, que filiam o apparecimento de Portugal n'um acto de vontade principesca, vem o tempo juntar novos motivos para caracterisar do mesmo modo a existencia posterior da nação. Conquistando o sul aos mouros, perde & feição que, de outra forma, provavelmente teria ganho, de autonomia da nacionalidade gallega ; e perde-a, porque a ponderação das raças do sul do Mondego é decisiva; porque a despovoação das regiões do Tejo e de além d'elle exige um ingresso de estrangeiros que principiam a dar a Portugal um caracter cosmopolita ; e porque, finalmente, a localisação á beira do Oceano, com Lisboa por capital,

vota necessariamente a nação aos destinos mariti

mos.

No seculo xvi, já as causas efficientes do movimento de desagregação politica posterior a Carlos Magno na Europa transpyrenaica, e aos arabes na Hespanha, estavam dissipadas; e já o agrupamento das nacionalidades estava adiantado, embora só viesse a consummar-se no seculo xix. Dos pedaços retalhados do manto de Carlos Magno tinha-se formado completamente a França dos gaulezes, incompletamente a Allemanha; e a Italia, se de facto era o pomo de discordia d'esses dous

povos,

cadaver decapitado do velho imperio dissolvido, vivia já como nação moderna no espirito de todos os seus grandes homens com Machiavel á frente. Os saxões nas suas ilhas tinham conquistado a unidade, e os hespanhoes, sob Fernando e Isabel, appareciam tambem unidos, com a excepção singular de Portugal. Porque foi que este pequeno povo resistiu á attracção?

A Hespanha representa sobre o mappa uma figura quasi quadrangular: duas das suas faces banha-as o Mediterraneo, duas o Atlantico. As primeiras são as de sul e de leste, as segundas as do norte e de oeste: ao longo d'esta ultima faixa, estendido sobre a praia, é que assentou Portugal. Uma tal situação geographica impunha desde logo a um povo, como condição de independencia, o caracter maritimo; e maritimo, não á maneira da Grecia, em que o mar, insinuando-se por entre as ilhas, bahias, golphos e canaes, produz a cabotagem: mas sim maritimo de um modo largamente aventuroso, maritimo da grande navegação, porque a vastidão immensa do Oceano desenrolava-se, tentadora e enygmatica, deante da estreita faixa de terra em que

« AnteriorContinuar »